5.03.2007
84 – O mundo está perigoso.
Falou-se, sobretudo, na legislação que o governo tem na forja, tendo em vista o combate ao tabagismo. O tema, admito-o, tem escassa relação com os que atrás mencionei, excepto pelo facto de que eu sou fumador, e o governo, por via desta lei, está novamente a tentar ter sexo comigo, passe o eufemismo. O que se pretende aqui decretar é algo de muito simples: os fumadores são cidadãos de terceira categoria, párias de um sociedade que vai fazendo o favor de os ir tolerando, na estrita condição de não pretenderem arrogar-se quaisquer direitos. A dar-se tão vergonhosa eventualidade, o assunto será severamente julgado por um júri de cidadãos decentes, isto é, que não fumem. Poderão integrar tal júri todos os cidadãos correctos, independentemente do cadastro criminal, ofensas sexuais registadas contra menores, hábitos de consumo de droga, indigência mental aguda e crónica, ou mesmo serem do Benfica. Não podem é ser fumadores.
Isto é portentoso. O nosso governo, com a ligeireza de quem fuma um casual cigarro (isto ainda se pode escrever, mas é por pouco tempo), faz tábua rasa das lições mal aprendidas de línguas clássicas, esquece tudo o que os gregos tinham em mente, quando cunharam a palavra “democracia”, e arvora-se em todo-poderoso, numa ditadura teológica e paternal. Já não temos o ministro, temos Jesus de novo ressuscitado, proclamando, em adenda ao Sermão da Montanha, Bem-aventurados os que não fumam, porque deles é o reino de Portugal. É urgente mudar as fórmulas oficiais, e substituir “o senhor ministro” por algo como, “o senhor fulano de tal, ministro de todos nós pela graça de Deus”. Está por fim instituída essa coisa nova e espantosa, a democracia de direito divino. Oremos.
Para os que cuidam que exagero, verto aqui, à vossa consideração, o meu modesto caso. Fumador há várias décadas, declaro sem rebuço que sempre fumei pelo meu prazer (e vício), e não me lembro de jamais ter fumado “contra” alguém. Nunca tive qualquer empenhamento, militante ou de outro género, nesse fenómeno a que modernamente se chama o “fumo passivo”. A coisa, de resto, parece-me evidente: eu compro as minhas camisas para as usar, compro a minha cerveja para a beber, e não vou certamente comprar tabaco para que outros o fumem, passivamente ou não. Pode ser uma falha no meu carácter, mas não levo, de facto, a filantropia até esse extremo. O termo “fumador passivo”, aliás, parece-me um galardão extremamente discutível. Basta pensar em expressões como “sujeito passivo”, nos impostos, e “homossexual passivo”, que, no fundo, querem dizer a mesmíssima coisa, excepto que um deles se diverte mais do que o outro.
Mas os talibãs bem-pensantes do nosso país continuam a apertar o cerco. Agora, também me querem proibir de fumar aquele cigarro que centenariamente acompanha a bica, desde que a dita seja consumida em lugar público, seja esse um café, um bar, ou o restaurante onde almocei. O cigarro depois do almoço, porra? O tradicional cigarro depois do almoço? Então, onde é que está o tão apregoado respeito pelas tradições? Não é justo, caramba, assim não brinco. Ou bem que estamos em Portugal, ou bem que não estamos. Tenho de resto a certeza de que me deixariam fumar os cigarros que eu quisesse, caso eu fosse, por exemplo, um simples touro de Barrancos.
Mas dizem-me que o meu fumo incomoda as pessoas em volta. Batatas! E as pessoas que cheiram mal? Alguém já falou nas pessoas que cheiram mal? É que essas também me incomodam, sabem? Mas, se a questão acaso se levantasse, estou certo de que seria tratada com muita delicadeza, até porque algumas dessas pessoas são, bem, como direi, nem por isso brancas, e todo o cuidado é pouco, em temas de natureza tão sensível. Para resolver o problema do cheiro, que nem sequer é “mau”, é apenas “diferente”, temos exaustores, ventoinhas, o diabo a sete. E para o tabaco, isso não funcionaria, também? Talvez, mas seria gastar boa cera com ruim defunto, está já estabelecido que os fumadores são párias, e acabou-se. O fumador é o preto, numa sociedade que fingiu abolir o racismo, mas que se limitou a reciclá-lo.
Outro argumento favorito tem a ver com uma coisa ambígua, um conceito assim montado à pressa, a que chamam, pomposamente, “o custo do fumador para a sociedade”. É usual, nesta vertente, quantificar o que cada cidadão contribuinte paga pelo tratamento de uma doença induzida pelo tabaco. Os fumadores, por norma, ripostam que esse mesmo doente contribuiu, ao longo de uma vida repleta de tabagismo, com uma relevante percentagem do seu vício, para o erário público. O argumento é sem dúvida pertinente, mas fica estranhamente esquecida uma questão muito mais importante. Essa questão, que não me lembro de ter já visto discutida, é a seguinte: desses cidadãos, que abnegadamente pagam o tratamento de um enfisema, ou de um cancro no pulmão, quantos não serão, eles próprios, fumadores. E esses, que têm decerto uma palavra a dizer sobre o assunto, já que também pagam, serão supostos objectar ao tratamento de uma doença que os pode, amanhã, afectar da mesma forma? E, entre os não fumadores, que dizer dos alcoólicos com doenças de fígado, dos obesos por culpa própria que têm problemas cardíacos, dos amantes de praia, vitimados pelo cancro de pele? Devemos ser nós a pagar-lhes os tratamentos? O problema do messianismo é que, geralmente, só funciona bem para os seguidores do Messias.
Mas pronto, isto são voos altos demais, para uma cavalgadura como eu. O mundo está perigoso, e não há nada a fazer. Como dizia o Leonard Cohen, “I’ve seen the future, baby: it is murder”. Passando a assuntos mais íntimos e pessoais, a mesa 19 anda fascinada com um novo mundo, recém-descoberto. Concretamente, andamos a descobrir a Vânia.
Aquela miúda é um universo. Sob o lago plácido que é aquele exterior pacato e discreto, há abismos profundos, turbulências insuspeitas, fundos que só a custo se entrevêem, e apenas de relance. Agora, cada vez que olho para aquele rosto angelical de adolescente tímida, só consigo ver uma vampe, de misteriosas pinturas, cigarro ao canto da boca, blusa curta, a marcar uma distância desdenhosa da brevíssima mini-saia, falando de tudo o que não era para dizer, num vocabulário que a torna apta a conduzir um camião TIR daqui até ao Algarve. Será que ela é mesmo assim, ou é precisamente o contrário disto, ou mesmo ambas as coisas? Serão mistérios que não compete ao homem desvendar, apesar do que dizem os psicanalistas?
Não sei, palavra de honra que não sei, realmente. Mas uma coisa há, que não me deixa dúvidas. É que o mundo está mesmo perigoso.
4.23.2007
83 – O problema já vem de trás.
Hola, hombres. Se bem compreendi, coisa que não garanto, querem que vos fale do marinheiro genovês que virou do avesso a corte de Espanha. Mencionaram também algo que eu não percebi, assim um qualquer-coisa-qualquer-coisa-19, mas isso deve ser confusão vossa. Colombo, se bem me recordo, tinha bem mais de 19 anos, quando eu o conheci. Mas era o querubim da nossa rainha Isabel, lá isso era. A um tal ponto que, depois da sua memorável viagem pelos mares ignotos do ocidente, a soberana chamou o principal conselheiro do trono, para lhe recomendar que aumentassem o financiamento atribuído ao italiano. E foi aqui, justamente, que as coisas se começaram a complicar. Mas, eu conto-vos como foi.
O conselheiro curvou-se em profunda vénia às reais majestades, e escutou em respeitoso silêncio as suas instruções. Estando tudo dito, o nobre pigarreou discretamente, e contrapôs, em tom baixo mas firme, Perdoe-me vossa majestade, mas receio que isso não seja uma ideia sensata. Tudo o que temos vindo a saber sobre o almirante genovês levanta enormes questões. A um tal ponto, devo dizê-lo, que já não há sequer a certeza de que ele seja mesmo almirante.
- Não é almirante? Que disparate! Ele disse-me que era almirante. Aliás, disse à corte toda que era almirante, não há quem não o tenha ouvido.
- Bem sei que o disse, majestade, mas os factos não parecem comprovar tal asserção. A realidade, aparentemente, é que ele é apenas um dos filhos de um humilde tecelão de Génova.
- Bem, mas pode sempre ser o filho de um tecelão, e ter-se formado em marinhagem.
- Pode, evidentemente, mas também isso é problemático. Ele afirma, com efeito, ter feito os seus estudos na Universidade de Nápoles, Itália, mas há inconsistências. Para já, não se percebe por que razão iria um genovês estudar para Nápoles, tendo melhores escolas na sua cidade. Depois, tenho-me correspondido com mestres dessa instituição, que me garantem não conhecer qualquer Colombo, embora a sua passagem por aqueles claustros seja atestada por manuscritos que apareceram subitamente, com datas contraditórias, e, estranhamente, assinados pelo Doge de Veneza.
- Um pouco estranho, de facto. Mas enfim, tudo isso há-de ter uma explicação. De resto, suponho que essa Universidade de Nápoles, Itália, seja um sólido e reputado estabelecimento de ensino?
- Saberá vossa majestade que não. Os marinheiros que tem formado foram, até hoje, responsáveis pelo afundamento de mais navios do que todas as esquadras turcas que navegam os sete mares, com a agravante de se tratar sempre do seu próprio navio. Nem é seguro que a escola tenha um grande futuro, pois consta que estão a ser investigados por sua santidade, o Papa, em relação a diversas acusações de heresia. Diz-se, inclusivamente, que levam a impiedade ao ponto de nem sequer observar o Domingo.
- Essas são, de facto, notícias preocupantes. Eu acolhi-o, na minha boa-fé, quando ele veio ter connosco…
- Perdoe vossa majestade, mas ele só veio ter connosco mais tarde. Inicialmente, dirigiu-se à corte de Portugal, quem sabe se por ficar mais perto do mar. Tentou então vender os seus serviços a D. João II, mas parece que a tal universidade não é acreditada naquele reino, pelo que o puseram, desculpe vossa majestade a expressão, com dono. Depois, sim, veio para cá.
- Bem, mas temos de ver que as habilitações de um homem não são realmente o mais importante. Fará mesmo diferença, se ele é ou não almirante?
- Talvez não, majestade, mas o facto é que ele disse que era almirante. Note que, se um helvécio, louro e de olhos azuis, afirmar que é marroquino, e depois conseguir ferrar duzentos cavalos de enfiada, isso fará dele um excelente ferrador, mas decerto um mau mentiroso.
- No entanto, o que conta não é o homem, mas as suas realizações. Afinal de contas, não se pode negar que este Colombo, seja lá ele o que for, conseguiu descobrir a Índia.
- Lamento, majestade, mas não descobriu. Aquilo que ele afirmou ser a Índia não passa de uma terra selvagem e coberta de árvores, sem qualquer préstimo conhecido. A promessa de descobrir a Índia é mais uma das que ele fez, mas não há registo de uma única que tenha cumprido. Com franqueza, aconselho vossas majestades a verem-se livres do indivíduo.
Foi aqui que o rei se meteu na conversa, dizendo, com um sobrolho pensativo, Não podemos fazer isso. Depois de tudo o que dissemos dele, o que iriam as pessoas pensar? Não, o melhor é deixar andar, e fingir que não se passa nada.
- Mas, majestade, está seguro de que isso será uma boa ideia? Deseja realmente que um tal indivíduo fique para sempre ligado à lenda e glória do reino de Castela? Um troca-tintas, que atirou a Espanha para uma aventura despropositada no meio do Atlântico, enquanto o próprio reino de Portugal já chegou às Índias, e pelo caminho correcto?
- Meu caro amigo, tens-nos servido fielmente e bem, mas deves aprender que, em política, é por vezes necessário fazer a gestão das situações, e a contenção de danos. Para já, a nossa atitude é esta: não sabemos de nada, e, caso alguma coisa seja falada, dizemos que se trata apenas de mentiras e conspirações. Depois, é tudo uma questão de esperar pelos portugueses.
- Pelos portugueses?
- Sim. Se bem os conheço, mais dia, menos dia, vai aparecer algum a clamar que Colombo não era italiano, mas sim português. Aqueles tipos gostam de glória, como toda a gente, mas têm um jeito inacreditável para fazer sempre as escolhas erradas. Quando eles vierem com essa conversa, a gente finge que resiste, depois vai cedendo, e acaba por deixá-los com a batata quente na mão. E, o que é mais, muito felizes com isso.
- Vossa majestade pensa realmente que isso dará resultado? E o que acontecerá depois, quando eles perceberem que foram enganados?
- Não se preocupe, tudo o que eles vão fazer é dizer as coisas do costume: que não é bem assim, que nada está provado, que é tudo uma cabala. O rei virá a público, garantindo que o assunto, em todo o caso, não tem qualquer importância. Vozes indignadas gritarão que as acusações são mesquinhas, o importante são as realizações do homem, se bem que ele, como bem apontou, não tenha realizações nenhumas. Não sei em que ponto da história tal se dará, mas espero que não seja em breve. É que os gajos, se o apanham ainda vivo, são bem capazes de fazer dele primeiro-ministro.
4.04.2007
82 – A mesa paralela.
(extracto de um livro que planeio escrever, quando me passar aquela comichão irritante).
Achando-me um pouco saturado do conteúdo sério de algumas crónicas recentes, e do tom apalhaçado de algumas crónicas recentes (reparo agora, curiosamente, que foram precisamente as mesmas), lembrei-me de fazer hoje algo de diferente, como, por exemplo, um ensaio mais científico. Obviamente, a coisa terá de ser em ficção: primeiro, porque não me vou pôr aqui a escrever um tratado, como se percebesse realmente alguma coisa do assunto; segundo, porque só isso se quadraria a estas crónicas, todas elas fictícias, como facilmente se depreende pelas verdades que narram.
Portanto, ficção científica. Mas ficção científica da verdadeira, não da chamada “fricção centrífuga”, com homenzinhos verdes com estranhas armas azuis, que disparam raios vermelhos, provocando grandes explosões amarelas. Depois, trocam-se as cores todas, e faz-se o episódio dois, que se chama algo como “O filho da vingança do regresso do homem-santola ataca de novo”.
Nada, que isto não é lugar para fantochadas dessas. Eu sou mais pelo “Império dos Sentidos” do que pelo “Império contra-ataca”, e tendo a preferir a estrela do Norte à Estrela da Morte, e a pizza-hut ao Jaba-The-Hut. Um tema que me atrai, no entanto, é o espaço multi-dimensional. Segundo essa teoria, que já foi discutida em volta da mesa 19, o nosso espaço tridimensional, isto é, o universo tal como o conhecemos, é apenas um de uma infinidade de espaços, paralelos ao longo de um eixo que se estende numa quarta direcção, invisível para nós.
Sendo esses universos paralelos, é de esperar que alguns deles estejam muito perto de nós, nesse eixo, estando uma infinidade de outros extremamente distantes. Não é, portanto, descabido admitir que a semelhança entre mundos seja bastante grande de início, diminuindo depois com a distância. Assim, tomando um universo suficientemente próximo, podemos considerar invariantes alguns pontos, tais como, por exemplo, a mesa 19.
Teríamos então um mundo muito parecido com o nosso, ambos com a mesma mesa 19, e outros pontos subtilmente diferentes. A turma do Harry Potter, por exemplo, seria nesse mundo a turma de Walt Disney (a professora Sprout, nesse caso, seria a Clarabela). A Vânia seria uma respeitada traficante de cocaína, que se dedicaria secretamente ao estudo da psicologia, a fim de custear as lições de dança exótica num cabaret. A Lana seria ela própria, mas cabo-verdiana, e a Marta seria tal e qual como é, só que com mais penas. O Vítor poderia ser uma cadeira, ou a Serra da Estrela.
E os convivas da mesa 19? Bem, vistos daqui, não parecem apresentar grande diferença, se exceptuarmos o facto de o Paulo ter trocado o casaco de cabedal por um resguardo fofinho de cetim, com folhos malva. A exuberância do acessório não esconde, todavia, o facto impressionante de apresentar o cabelo penteado! O Constâncio substituiu a barba por um bigode fino, mefistofelicamente retorcido, e o Cardoso ostenta um brinco de ametista. Nada de confusões, trata-se de um simples brinco, que nenhum mal tem, e que, de resto, condiz perfeitamente com o colar de pérolas rosadas que traz ao pescoço, formando um contraste provocador com os óculos roxo-eléctrico do Carlos Santos. A cor parece aliás popular, visto que foi também a escolhida pelo Zé Eduardo para tingir a sua barba.
Decididamente, esta mesa paralela não me parece uma melhoria, em relação ao artigo actual. Preso de alguma ansiedade, perscruto a minha própria figura, mas constato com alívio que tudo parece estar bem. Continuo gordo, feio, de aspecto desmazelado, e só a delicadeza pouco usual que ponho num pontual arroto faz sentir alguma inquietação. Seja como for, pareço estar igual a mim próprio.
Discute-se à mesa, como na nossa dimensão usual, uma qualquer arbitrariedade ocorrida em ambiente laboral, e eis que, justamente, me preparo para falar. Tudo se queda, na expectativa de beneficiar da minha habitual verve, e eis que se ouve, “Pois, pá, os gajos, pois, não deviam ter razão, mas pois, se calhar até têm, prontos. Pode ser que sim, e pode ser que não, mas, prontos, que se lixe isso tudo, o que importa é que o glorioso ainda vai a tempo de ganhar a liga. Pois”.
O restaurante perde gradualmente os contornos, e acordo com a cara quase colada à chávena do café. Aliviado, concluo que, mesmo assim, prefiro esta mesa 19. Constato com mágoa que a Marta está outra vez vestida, mas, neste mundo, não se pode ter tudo. E prontos.
4.02.2007
81 – Defecção.
Sempre, ao ponto de partida.
Assim a mulher encorna
O homem, se é mulher perdida.
- Das “Crónicas Mirabolantes de Relim-Chim-Chim,”, antigo profeta sumério que eu acabei de inventar.
Não sabemos ainda tudo sobre a origem do universo, mas alguma coisa vamos sabendo. A tese comumente aceite, nos nossos dias, é a de que o universo terá surgido na sequência de algo a que se chamou o “Big Bang”, ou “Ganda Estoiro”, vindo desde aí a expandir-se. O seu futuro, no entanto, permanece uma incógnita, cuja resolução depende da real quantidade de matéria existente. Se a massa dessa matéria estiver abaixo de um determinado limiar, não bastará para deter a expansão do universo, que irá gradualmente perdendo energia, e morrendo. Se, pelo contrário, essa massa for suficiente, chegará um momento em que será capaz de travar a actual expansão, e iniciará uma contracção cada vez mais acelerada, que nos levará de novo ao primordial ovo cósmico, e a novo “Big Bang”. É a teoria do universo iô-iô.
(O escritor Douglas Adams, pelo seu lado, conta-nos que uma estranha raça, algures nos confins da galáxia, acredita que o universo foi espirrado por um ser chamado “Grande Confiscação Verde”. São uns indivíduos peludos e amorosos, com mais de cinquenta braços, sendo portanto a única raça da história a ter inventado o desodorizante antes da roda. Esta teoria, contudo, não está muito disseminada no nosso planeta).
Sabemos igualmente pouco sobre as origens da mesa 19, e muito do que se sabe é vago e impreciso, para já não dizer apócrifo. Quanto ao futuro, pelo contrário, sabemos muitíssimo mais. Aqui, é a história que acorre, pressurosa, a mostrar-nos as inúmeras vezes em que aquela mesa se fez e desfez, agora reduzida a um modesto núcleo, logo expandida pela sala inteira. Trata-se de um processo normal, e é no meio da normalidade de um desses processos que neste momento estamos, agora que ocorreu um cisma.
O ponto de fé na origem da ruptura foi o seguinte, a asserção que num restaurante se deve, entre outras coisas, comer bem. Ora, não serei eu quem negue tal axioma, mas continuo a manter que isso não é tudo. No entanto, alguns disseram que não, que urgia descobrir outro reduto. Deram então com um restaurante, que proclamaram templo gastronómico, encómio que se veio depois a revelar algo exagerado. É claro que este estabelecimento bate aos pontos o nosso restaurante habitual, mas isso, convenhamos, não é muito difícil. Servir refeições comestíveis, por exemplo, é já meio jogo ganho, e o resto é uma questão de templos.
Eu sou sensível a estas questões, como é evidente. Tenho sempre tentado, pacientemente, reconduzir o pessoal do nosso restaurante, essas ovelhas tresmalhadas, ao redil das boas práticas culinárias, partilhando alguns lampejos da arte de Pantagruel que emanam do senso comum, e que são pertença de todos, menos, pelos vistos, da cozinheira de lá. Mesmo agora, faço daqui um apelo, em relação ao bacalhau com natas. Já conseguiram dominar a técnica do molho, que é o que distingue o verdadeiro artista (não é o Serafim Saudade, é o da culinária). Para produzir algo que justifique o trabalho de o colocar num prato, algo digno de ser servido ao cliente, algo que não esteja, enfim, incurso em sanções previstas no código penal, basta agora, simplesmente, fritarem as batatas em condições, antes de as juntar ao preparado. Quero dizer, será assim tão difícil, chiça? Que diabo, os fritos já eram conhecidos em Portugal no tempo de D. Afonso Henriques (é certo que, nesses tempos, se fritavam sobretudo os muçulmanos que subiam às muralhas, mas o princípio é o mesmo, caramba).
Por estas e por outras, a mesa 19 entrou em contracção, e vê-se de novo reduzida a um núcleo primordial. Os outros, les compéres du beaux temps, que abandonam o convés quando a chuva começa, vão gastando as horas do almoço a dedilhar serenatas sob as varandas de outras Julietas. Almocei lá um destes dias, no tal sítio, e voltei a ouvir a apreciação habitual, “Isto hoje não esteve lá grande coisa, mas, de um modo geral…”. Ora, batatas! De um modo geral? De um modo geral, o testículo esquerdo do meu avô não era verde, mas as gaivotas também não, e isso não prova nada. Este comentário é um pouco cabalístico, mas vocês percebem aonde eu quero chegar: aquilo é só outro restaurante, e pronto.
Como qualquer restaurante, tem pratos bons e maus. O nosso também. É mais comum terem bons pratos? Pois claro que é, mas isso é normal na maior parte dos restaurantes (o nosso, como já se viu, é uma orgulhosa excepção). Agora, que se enfiam lá barretes, ah, isso enfiam.
O nosso restaurante tem pouco que o recomende, em termos de comida. Mas tem algo que nenhum restaurante tem, em todo o mundo, tem a mesa 19. Quando digo isto, refiro-me à mesa 19 completa, com mesa e pratos, e Vânia e Marta e Lana, e nós a fazermos barulho, e a atirarmos bolinhas de papel, enquanto dizemos coisas sérias com ar estúpido, e coisas estúpidas com ar sério. Alguns amantes da boa conversa fartaram-se da tertúlia, ou então não se fartaram, mas trocaram-na por uma ração melhorada? Tudo bem, lá nos encontraremos, de vez em quando. E continuaremos amigos, como sempre.
O resto é irrelevante. Até eu atraiçoo, esporadicamente, tal como outros o fazem a título permanente. Não é uma questão ideológica, mas apenas de comezaina. E a boa comida, como bem se sabe, não tem nada que ver com a mesa 19.
3.13.2007
80 – E vós, ó tágides minhas…
A coisa começou de um modo simples. Após nos sentarmos à mesa, o Carlos, pessoa mais atenta do que eu, observou que a Marta, situada atrás do balcão, trazia hoje uns calções curtos, coisa inédita e portentosa, pelo menos naquelas paragens. Sendo eu, como sou, um indivíduo histericamente calmo, reagi com a minha costumeira serenidade, começando de imediato a roer o guardanapo, enquanto babava abundantemente a gravata. Ao longo da refeição, consegui controlar-me admiravelmente, não tendo feito mais do que uma dúzia de tentativas baldadas para a trazer cá para fora. Mas, apesar de toda essa aparente indiferença, a coisa estava a moer-me, cá por dentro.
Não resisti, à saída, e espreitei para dentro do tantálico balcão. Confirmado o prodígio (e que prodígio, meu santo Priapo), vi-me compelido a intimar a jovem, em tom carinhoso mas firme, para que no dia seguinte servisse às mesas, nas mesmas vestes em que se achava. Ela não me levou muito a sério, helás, mas levou-me a patroa, que estava ali perto. Ofendi, ai de mim, a digníssima senhora, que logo me prometeu, em tom seco, que todas elas estariam de mini-saia, no dia seguinte. Agradeci com entusiasmo, mas, pensando melhor no assunto, começo a suspeitar de que ela talvez estivesse a ser irónica. Eu não sou de intrigas, é claro, mas receio bem não ver ninguém de mini-saia, amanhã.
Serve esta crónica para falar de pernas, e do desproporcionado fascínio que estas parecem sempre exercer no sexo masculino, o dito sexo fraco (assim chamado porque as mulheres, infelizmente, não costumam sofrer de fraquezas destas). É claro que quem fala de pernas, fala de outros atributos femininos, não apenas os boçalmente evidentes, como a proeminência das glândulas mamárias, ou a rotundidade daquela parte da anatomia que serve para sentar o resto do corpo, mas também as linhas suaves do antebraço, a curva esbelta de um pescoço bem delineado, a graciosidade de salgueiro jovem de uma cintura que se inclina ternamente. Tudo isto nos enleia e mesmeriza, e isso, dizem elas, é mau, e só prova que somos todos uns tarados sexuais. Mas, seremos mesmo?
Entendamo-nos: todas as mulheres que eu conheço partem de um mesmo princípio, que tem para elas o valor de um dogma. A saber, que sempre que um homem admira um atributo físico feminino, está por força a pensar em ter sexo com a dona desse atributo. Este ponto de vista, redutor como é, apresenta todavia a vantagem de permitir a qualquer mulher, sem muito esforço intelectual, supor que compreende os homens.
A coisa, uma vez que se aceite esta premissa básica, torna-se de uma simplicidade infantil: o homem detém-se na contemplação de um decote mais profundo, ou mal consegue conter um assobio de admiração, ante umas pernas bem torneadas? Está a pensar em sexo! Admira, numa jovem, o olhar límpido, e o pé breve? Ora bem, toda a gente sabe o que fica a meio caminho entre os olhos e os pés, e é claro que o gajo tem sexo em mente! O homem opta antes por elogiar, com entusiasmo, a gaze diáfana do vestido mimoso? Qual gaze, e qual diáfana, o que tu queres é ver-me descascada, que é para me saltares em cima! O homem é, enfim, um lírico, um sonhador, um Lord Byron, que lhe suspira ao ouvido, “She walks in beauty, like the night / of cloudless climes, and starry skies; / And all that’s best of dark and bright / meet in her aspect, and her eyes”? Céus estrelados e climas sem nuvens, o meu rabinho! Ele está mas é a pôr-se a jeito, e, se não me precato, isto ainda acaba em sexo!
Pessoalmente, acho lamentável que as mulheres pensem de tal forma, e não posso impedir-me de sentir que estão a perder uma parte importante da vida, ao fugirem dessa sensualidade que pode sempre estar presente na camaradagem entre duas pessoas de sexos opostos, mesmo que jamais esteja em causa, por diferenças de personalidade, de cultura, de idade, até, a possibilidade de acabarem juntas na cama. Não, é como se cada homem fosse, única e exclusivamente, um feroz predador sexual, sempre com o fito de passar à acção, e toda a mulher devesse escolher, a cada momento, entre ser uma puta ou uma freira.
Não me compete falar pela globalidade do sexo masculino, e não estou sequer mandatado para falar pela mesa 19. Mas, falando exclusivamente por mim próprio, confesso aqui, pelo que possa valer, e não obstante as penalidades que isso me possa acarretar, a minha incondicional admiração pela beleza feminina. Mais, para os devidos efeitos, aqui declaro e juro que essa admiração, ou antes, essa obsessão, se confina exclusivamente ao corpo feminino, não se estendendo a qualquer dos seus adornos e atavios. Por essa razão, evidentemente, prefiro vê-las nuas.
É claro que esta minha preferência, mais do que justificar, explica inteiramente o lamentável episódio que deu o tom de abertura à presente crónica. Ver as pernas da Marta era, para mim, uma tentação irresistível. E por que razão não o seria, de resto? Ninguém estranharia que eu passasse horas na fila de entrada de um museu, para ver “Os girassóis”, ou “A ronda nocturna”. Porque não haveria, nesse caso, de me debruçar sobre o balcão, a fim de contemplar essa outra obra de arte, as bonitas pernas da Marta?
Ninguém ganha o rótulo de tarado por querer ver a Mona Lisa, ou as pinturas de Renoir, que, convenhamos, são todas feitas de gajas nuas. Por que razão serei eu obcecado por sexo, se gosto de olhar para as pernas da miúda? Nunca tive sexo com um par de pernas, nem conheço quem o tenha tido. E se eu admitisse que também não me importava se ela estivesse ainda mais despida, isso valer-me-ia o quê, seis anos de prisão efectiva?
O paraíso, para mim, é algo assim como um prado florido, esvoaçado por coloridas borboletas, e percorrido por lindas jovens nuas. Ninguém cuida, decerto, que eu tenciono papar as borboletas, ou enfiar as flores no rabo. Porquê pensar, então, que o que eu quero é saltar para a espinha das moças? Beleza é beleza, e uma mulher nua, convenhamos, é uma perfeita beleza. Haverá certamente quem pense de outro modo, mas eu, pessoalmente, gosto.
P.S. Nem de propósito. Antes de me ir deitar, entretive-me a ver uma série policial. Tratava-se de um psicopata que assaltava bancos, e obrigava todos os seus reféns a despirem-se. O mistério do seu comportamento confundia os detectives, que não sabiam o que pensar dele. Eu, como espectador, fiquei igualmente intrigado. Quero dizer, porquê bancos? Então, não os podia obrigar a despir noutro lado qualquer? Ele sempre há com cada maluco!
3.05.2007
79 – Os Óscares da mesa 19.
Já diz o povo que a coisa é certa e sabida, chuva em Novembro, Natal em Dezembro. Com idêntica regularidade, retornam uma vez mais os prémios da academia americana de cinema, os famosos Óscares. Conta-se que o galardão terá sido inicialmente instituído por um emigrante português, o senhor Óscar Tibúrcio Alho (mais tarde celebrizado pela canção, “Lá vai o Óscar Alho / Alegre e trabalhador / Lá vai ele para o trabalho”). No projecto original, os prémios seriam constituídos por peças de cerâmica, importadas, expressamente para o efeito, da terra natal do artista, as Caldas da Rainha, mas depois lembraram-se da estatueta dourada, e pronto, apaneleiraram a cerimónia toda.
A mesa 19 não é Hollywood, nem se parecem os nossos filmes com os filmes deles (a própria palavra Hollywood, de resto, significa “Santo Pau”, coisa de certo modo afastada dos nossos gostos e preferências). Sinto, aliás, uma certa pena daquela pobre gente, dos trabalhos e custos em que incorrem para produzir a mais simples cena de um filme, que, assim mesmo, se arrisca a ser um fiasco de bilheteira. O que não daria o Martin Scorsese pela possibilidade de assegurar um sucesso com o mero acto de partir um copo, pedir a conta, ou falar muito alto. Como ele seria feliz, vivendo num mundo onde a simples invenção de uma nova forma de arreliar a Vânia garante uma lotação esgotada. O problema dos americanos, é claro, é que têm sempre de fazer as coisas da maneira mais complicada.
Ao longo de quase oitenta crónicas, e muitos mais almoços, tem-se feito grande cinema na mesa 19. Alguns filmes notáveis, curtas-metragens com abundância, diversos documentários, e animação em quantidades que fariam empalidecer de inveja os estúdios da Warner Brothers. Se há coisa que não nos podem negar, é que nós somos muito animados. Só não nos podemos considerar, com inteira propriedade, uma indústria do celulóide. Esse título, há que admiti-lo, pertence ao próprio restaurante, embora o celulóide se apresente geralmente com outros nomes, como frango de caril, favas à portuguesa, etc. Mas, adiante…
A questão é esta, parece-me bem que, nesta fase do campeonato, já vamos merecendo os nossos próprios Óscares. Longe de mim a pretensão de ganhar uma das tais estatuetas rabichonas, mas não me desgostava de ver o meu talento recompensado com uma caneca malandra, das que trazem uma surpresa no fundo, com um frade garanhão, de cordelinho, ou até um simples “das Caldas”, que eu pudesse exibir em prateleira nobre, lá em casa, informando orgulhosamente os amigos, “E ali está o meu Óscar, não reparem ser só um”. Está então decidido, a mesa 19 passa a atribuir Óscares, os bonecos logo se arranjam. Procedamos, para já, à sua distribuição.
Logo para começar, e antes que haja confusões, reclamo para mim o prémio de melhor argumento. Qual será esse argumento, é algo que ignoro, mas podem escolhê-lo livremente, entre as diversas crónicas. De resto, quem mais é que escreveu já um argumento, para além de mim? Ele há por aí um rapaz que afirma ter o seu próprio original, pronto para publicação, mas confesso que ainda não vi nada. É certo que nada do que eu até hoje escrevi é merecedor de um Óscar. Pronto, tudo bem, eu também não gosto desse nome, mudemo-lo, então. Senhoras e senhores, o caralhinho de ouro para o melhor argumento vai para… o Nuno.
Poucos almoços chegariam a acontecer, se não fosse pelos excelentes serviços do Carlos Santos, que habilmente dirige todo o cast, e nos coloca a todos em cena, no momento oportuno. Para além disso, tem a habilidade de reconduzir o filme ao seu enredo correcto, quando o elenco começa a descambar. Por todas estas razões, mesmo que outras não houvesse, vai para ele o caralhinho de ouro de melhor realizador.
Mas a essência, o frémito e a emoção dos prémios da academia, chega no momento de premiar as grandes actuações. Pouco interessa ao grande público, na verdade, quem escreveu ou realizou, tudo gente que de facto não chega a aparecer na tela. Não, as multidões pagam para ver o herói exclamar, “I’ll be back”, ou a heroína, dengosa, “Is that a gun in your pocket, or are you just glad to see me?”. Vamos, então, conhecer os actores.
Boas representações, eis o que não tem faltado ali, mas uma há, que a todas se sobrepõe. Trata-se do papel mais clássico e apreciado, desde “E tudo o vento levou”, até “António e Cleópatra”. Um homem e uma mulher que se detestam, porque gostam um do outro, e isso porque não gostam, mas até simpatizam, ou não, tudo com a finalidade de chatear o espectador. No meio de tudo isso, conseguem construir entre si um rapport que oscila entre “Música no Coração” e “O resgate do soldado Ryan”. Só tais papéis podem aspirar ao prémio supremo. Por essa razão, os caralhinhos de ouro de melhor actor principal, e melhor actriz principal, vão, respectivamente, para o Rui Cardoso, e para a Vânia.
Não se esgotam aqui, todavia, os prémios atribuídos à casa. De enfiada, saem três caralhinhos de ouro: a Marta, com o melhor guarda-roupa (sobretudo os brincos); a Lana e o Victor, ex-aequo, com o melhor filme mudo; e o patrão Pinto, com a melhor imitação de Marlon Brando no clássico “O Padrinho”. Em jeito de bónus, o caralhinho de ouro do melhor drama, atribuído à cozinha, pelo filme “Osso duro de roer”.
Após muita deliberação do júri, processo que chegou a envolver verbalizações de insultos politicamente incorrectos, ameaças completamente impróprias, e episódios esparsos de sodomia não consentida, decidiu-se atribuir colectivamente, ao Constâncio, Zé Eduardo, e Carlos Silva, o caralhinho de ouro de “Actor mais inapropriado para figurar numa cena pró-americana, a não ser que apareça como contestatário, e nesse caso tem de ser morto logo, ou o filme arrisca-se a ser X-rated”. Eu votei vencido, sobretudo por causa do comprimento do nome do prémio, e terei muito mais a dizer sobre isto, quando me puder sentar melhor.
Outros caralhinhos de ouro existem, e podemos enumerá-los brevemente. Temos o sempre importante caralhinho de ouro dos melhores efeitos especiais, que vai para o Paulo Sousa, o homem santola. O caralhinho de ouro do melhor filme estrangeiro vai para o Paulo Mendes, com o comovedor “As vinhas do vulcão dos pretos”, filme de uma intensidade que nos deixou zonzos. Por último, mas muito importante, temos o Carlos Lopes, cuja obra, “O homem frequentemente invisível”, lhe valeu o prémio “Assim também eu”. Fiquem bem, e um caralhinho para vocês todos.
2.27.2007
78 – O retrato da mesa 19.
Hoje não me apetece escrever. Ele há dias assim, dias em que a criatividade continua a fazer sentir o seu apelo, mas não da forma usual. Hoje, por exemplo, apetecia-me antes pintar. Eu cheguei a pintar, in illo tempore, um quadro cubista. Diversos especialistas, que o avaliaram, foram da opinião unânime de que eu, de futuro, deveria antes dedicar-me à pintura de portas. Pintei então uma porta, mas toda a gente me disse, Deixa-te disso, quem é que vai querer uma porta cubista? Desisti da pintura.
Ainda hoje me fremem os dedos, quando vejo uma tela e tintas. Resisto, porém, à tentação. Como disse uma personagem do Quino, quando a professora lhe perguntava quanto eram dois vezes sete, “Aquele que conhece as suas limitações, sabe dois vezes dois”. A tinta não é de facto para mim, que me ajeito bem melhor com as palavras. Mas hoje apetece-me pintar, e pronto. Está decidido, vou aqui pintar, em veras palavras, a mítica mesa 19.
Queira então o estimável leitor contemplar a modesta tela. Enquadrada em moldura nobre, destaca-se uma mesa corrida, cuja amesendação de papel sugere uma continuidade, onde apenas há duas, três, ou mesmo quatro mesas pequenas, e justapostas. Sobre o fundo de papel barato, exibe-se uma natureza morta, sábia composição de azeitonas, queijo fatiado, cestos de pão, e um pires com umas coisitas merdosas, tipo manteiga e patê, que não ajudam em nada o conjunto, mas não deixam de fornecer um curioso toque de cor.
Em volta da dita mesa, sentam-se uns quantos indivíduos, de aspecto esquálido e patibular, que semelham o Cássio de Shakespeare, temido pelo seu ar “magro e esfaimado”. Trata-se da entourage da mesa 19, entre a qual avultam os dois decanos da confraria, o Carlos Santos e o Rui Cardoso. Muito dissemos já sobre estes dois, pintemos agora a sua vera efígie.
A comparação, feita há tempos, entre este par e os velhotes do camarote, na série dos Marretas, não foi ocasional. As parecenças, contudo, são meramente a nível de atitudes, e não físicas. Fisicamente, são muito diferentes dos tais velhos, chegando mesmo a ser alguns anos mais novos. O que se passa, na verdade, é que eles riem da mesma maneira, e basicamente das mesmas coisas.
Isto, como é evidente, diz tudo. De que serviria aqui acrescentar que são ambos de estatura mediana, nem magros nem gordos, que o Rui se exibe num vampiresco casaco de cabedal, e que o Carlos todos os almoços troca os óculos de trabalho pelos óculos de lazer, excepto quando põe o terceiro par, que serve apenas para procurar os outros dois? Nada, está tudo dito, e aí ficam as duas figuras em tela, uma de cada lado da mesa.
Os dois lugares seguintes são ocupados por mim. Lá vou conseguindo, de uma forma ou de outra, usar uma única cadeira, mas acabo sempre por dar a impressão, mercê de uma curiosa ilusão de óptica, de que é a cadeira que está sentada em mim. Este breve intróito terá já sugerido ao leitor que eu sou, digamos, gordo. Pois bem, é verdade. Caso eu um dia participasse de um concurso literário, e um qualquer bambúrrio me guindasse ao lugar vencedor, estou certo de que as notícias diriam, “Temos em terceiro lugar um bom escritor, em segundo lugar um excelente escritor, e em primeiro lugar um gajo gordo, que parece que também escreve umas coisas”. C’est la vie…
Mas nem tudo está perdido, pois ando a fazer dieta. Perdi até agora vinte quilos, e actualmente a balança falante do centro comercial limita-se a dizer, “Porra, que você é mesmo gordo” (antigamente, costumava gritar muito alto, em tom aflito, “Socorro, tirem o elefante de cima de mim”). Afora isso, uso o cabelo muito curto, quase rapado, que é para pesar menos, cara escanhoada, nas raras vezes em que me barbeio, casaco surrado e pouco limpo sobre camisa amarrotada, e calças no mesmo estado, a compor um ar geral de desmazelo, a que uma gravata distinta e sempre renovada fornece uma nota de divertido contraste. À parte isto, sou gordo.
Os restantes lugares são algo variáveis, ocupados como são por gentes de índole mais nómada, e mais afeita a variar. À minha frente, tanto se pode sentar o Zé Eduardo como o Rui Constâncio, duas figuras que importa aqui retratar, se a tanto me chegar a tinta que sobrou, após as vastas pinceladas requeridas pela minha volumosa barriga. O melhor instantâneo que posso fazer deles é o seguinte, se algum dos dois tentasse viajar de avião, durante um estado de alerta, passaria um mau bocado no aeroporto.
Não se dá isto porque tenham ar de terroristas. Nada de confusões, pois têm ambos ar de terroristas, e de que maneira, mas não é só isso. Vultus índex animi, o rosto é o espelho da alma, e, no caso deles, vultus índex tavoli XIX, o espelho daquela faceta da mesa 19 que é essencialmente anarquista, e não se consegue impedir de ver a destruição espalhafatosa como senda de progresso, e o camartelo como instrumento civilizacional. Entre os dois, um é mais espalhado e demolidor na crítica, o outro mais preciso e acerado, são talvez diferenças de idade, mas a essência é a mesma. São, de resto, invariavelmente intransigentes, e estou certo de que, caso tivessem feito parte da milenar seita dos assassinos, chefiada pelo lendário Velho da Montanha, que decidia quem devia ou não ser morto, o primeiro a ser assassinado seria mesmo o Velho, e lá ficava a seita sem mestre. É mesmo assim que eles são, não perdoam. Para além disso, são dois tipos impecáveis.
Estes são, digamos assim, os comparsas diários, mas há também os eventuais, os que, em vez de aparecer, vão aparecendo. Dentre os históricos, há que destacar o Paulo Sousa, pela originalidade de continuar a frequentar a mesa 19, tendo embora deixado de lá almoçar. Depois de compartilhar a refeição do meio-dia com a sua cara-metade, o que faz a coberto de um sigilo que a maioria das pessoas reserva para a amante ilegítima, de preferência do mesmo sexo, e seropositiva, o santola esgueira-se até à mesa 19, onde gasta o seu bom quarto de hora a olhar-nos ameaçadoramente, por sobre a borda do copo. Depois, esgueira-se, como a brisa por uma janela entreaberta, ou uma sapateira que vislumbra uma rocha convidativa. Mas é tarde demais, pois já ficou no retrato. Aquele casaco de cabedal, que ali vedes a esvoaçar junto à porta, era ele.
Histórico é também o Catarino, sendo bem mais recente o Carlos Lopes. Não é por acaso que aqui os junto, em pincelada promíscua. Para além da semelhança óbvia, que é a raridade com que somos honrados com a presença de qualquer destes beneméritos, eles compartilham ainda um mesmo aspecto, que não pode deixar de figurar nesta pintura: eles são excelentes pessoas, pessoas cuja boa índole é, talvez, boa demais para a nossa mesa. É coisa magnífica, o ser-se boa pessoa, mas tende por vezes a embotar outras qualidades, como o sarcasmo, o cinismo, e a maledicência. E daí, serão talvez eles quem tem razão. Não sei, realmente não sei. Afora isso, distingue-se o Catarino por ser o melhor técnico de assadura de sardinhas de que há memória em terras deste reino. Fazendo-lhes em breve esquiço o boneco, nota-se com facilidade que, entre os dois, não juntariam cabelo com que sujar o chão de uma barbearia, um por o trazer rapado, outro por não ter já grande coisa para rapar. Mas, nisto de cabeças, conta menos a cagadela de pombo na testa do que a merda que vai lá dentro, que é como quem diz, do crânio para fora, pouco interessa.
E, last but never the least, temos um terceiro Carlos, desta vez, o Silva. Perdão, não é bem assim, permitam-me que recomece. Peço então, estimados senhores, a vossa vénia e aplauso para o mui preclaro jurisconsulto, o bacharel Carlos Silva. Ecce homo, ei-lo que avança em direcção à lendária mesa 19, no que promete ser o encontro de duas lendas. A basta cabeleira, onde a respeitabilidade das cãs se alia à força anímica do azeviche, ilumina os tenebrosos meandros do restaurante, enquanto prossegue com destemor. A fronte alta guarda os mistérios do quid das coisas, o alfa e o ómega das leis que regem as gentes humanas, e os humanos destinos. Eu, porque escrevo uma crónica, posso sempre ir preso. Em igual pena incorrerá o Zé Eduardo, porque a não escreveu. Mas só o Carlos, bastião da jurisprudência, estará em condições de determinar quem será de facto deitado aos calabouços, e porquê. Só daquela efígie leonina sairá a explicação, as razões, com todos os de jures e de res, que determinarão o nosso porvir. O Carlos, a quem aqui se tece justificado, e de há muito preterido louvor, não goza, contudo, do subido estatuto que caberia a tão insigne legislador. E a que se deve, perguntar-me-ão, semelhante injustiça?
Pois bem, o problema é muito simples. É que um perito em leis, em formas de regulamentar a sociedade, isto é, em normativos, tem tanta procura na mesa 19, como um perito em disfunção eréctil num congresso de lésbicas. Eu serei talvez a excepção (tipo, a lésbica um bocado mais puta, no dito congresso). Eu acho piada a essa coisa de leis, e gosto de ver a lógica que preside à adequação da forma ao conteúdo. Mas, para ser franco, eu gosto de lógica. Gosto também das expressões formais, com abundância de locuções latinas, que revestem normalmente as leis. Mas, para ser franco, eu gosto de latim.
Pronto, sem querer, acabei por fazer, nos parágrafos anteriores, um retrato ainda mais fiel da minha própria pessoa. Pintei ainda, também sem querer, o melhor retrato possível da mesa 19. O resto, que é serem uns gordos e outros carecas, ainda é o que menos interessa. Aí tendes, posta em ceia, a nossa mesa 19, e, se um tal de Da Vinci vos vier dizer que o quadro dele é melhor, mandai-o falar comigo.
Nota: é evidente que muita gente ficou de fora, nesta pintura. Isso era inevitável, sob pena de se refazer a tal “Última Ceia” em versão Monty Python, com trinta e seis apóstolos, três Cristos (“o gordo compensa os dois magrinhos”, segundo eles explicavam), e um canguru. Não posso contudo omitir o excelente Paulo Mendes, presença sempre saudada na nossa mesa. Se não figura na pintura principal, é mesmo só por falta de espaço (eu sou um bocado gordo, não sei se já tinha dito isto), mas não deixará nunca de ser uma parte desta obra, que nós a cada dia vamos pintando.
2.21.2007
77 – O mundo sem a mesa 19 (divagações sobre a depressão).
O restaurante é uma coisa diferente, após a mesa 19. A Vânia, a Marta, o próprio Vítor, falam comigo noutro tom, um pouco como se eu estivesse ali sozinho. Pondero distraidamente esse facto, e ocorre-me que talvez o façam, subconscientemente, por eu estar ali sozinho. O gesto dá um novo significado à solidão, e a coisa, no seu todo, não é muito diferente de estar exilado numa ilha deserta, só que com miúdas giras, a arrumar as mesas à minha volta. Mas isso pouca diferença faz, pode-se sempre estar só, mesmo no meio de uma multidão.
Naquele triste e ledo fim de tarde, pergunto a mim próprio o que faria o bom Luís Vaz de Camões, no meu lugar. Provavelmente fazia um soneto, ou então fazia o mesmo que eu, só que evitaria piscar o olho à Marta, porque senão deixava mesmo de ver um boi à sua frente. Não quer isto dizer que eu esteja a ver um boi à minha frente, pois a Marta até é bastante magrinha. Mas enfim, adiante…
O ar condicionado lembra algo que Andy Warhol poderia ter feito, se lhe faltassem as latas de sopa, e a toalha usada faria as delícias de um amante do cubismo. Estranhamente, vem-me à memória o filme “Je t’aime, moi non plus”. Trata-se da história de uma rapariga que se apaixona por um rapaz que faz de homem num casal de homossexuais, mas chega à conclusão que ele não se ajeita lá muito bem com moças, e só o poderá ter se lhe der o rabo. O problema é que ela não consegue fazê-lo sem grandes uivos de dor, pelo que acabam sempre por ser expulsos de todos os motéis, bem a meio da festa. Farto de coitos interrompidos pela porteira, o rabeta acaba por preferir o amigo, que sempre tem a vantagem de não gritar, isto para além de ser mesmo homem, e o filme acaba com os dois a partirem num camião, abandonando-a, nua e desesperada, no meio de um campo de trigo, imagem de rara beleza. O trigo também não é feio.
Isto não é, obviamente, a história da mesa 19 (nós também uivamos, vez por outra, mas nunca durante a hora do almoço). Mas é uma boa metáfora da solidão. Melhor, não é uma metáfora, é uma explicação. É claro que o filme permite diversas leituras, mas a minha interpretação pessoal sempre foi inequívoca. Trata-se aqui de exclusão, tanto exclusão social como exclusão afectiva, e a mensagem é que a exclusão resulta de uma situação minoritária. As maiorias excluem as minorias, e isso é uma lei invariável da natureza.
O tour-de-force genial do filme é colocar a habitual maioria, a jovem heterossexual, numa posição minoritária. Afinal de contas, só há três personagens, e dois são homossexuais. Como resultado, eles entendem-se entre si, e ela é excluída. No dia em que o mundo for gay, os poucos hetero que restarem terão de andar a esconder a sua vergonhosa orientação sexual. Será a vingança dos paneleiros, que não deixarão de inventar novos termos ofensivos para os outros, os actuais machos.
A mesa 19 não é gay. Pelo contrário, julgo até que chegamos a exibir certos sintomas que não envergonhariam o Zézé Camarinha. Mas somos minoritários, de um modo geral. Melhor, somos todos sobreviventes do nosso estatuto minoritário. É por isso, e não por sermos um bando de javardolas, que nós gritamos muito, e causamos distúrbios. É que nenhum de nós bate muito bem da bola. Estamos todos habituados a lutar pelo nosso lugar, e, quando nos faltam adversários, acabamos por lutar uns com os outros.
É coisa que se vê muito na nossa mesa, um de nós a disputar, com fúria, que o carvão é negro, enquanto o outro vocifera, sem perder terreno, que não é, não senhor, é mas é preto. Junta-se um terceiro que, apaziguador, quer mostrar que o carvão, seja lá como for, é sempre escuro, mas caem-lhe em cima os dois primeiros, com redobrada raiva, sustentando que ele não quer senão baralhar as premissas, quiçá para proveito próprio. Na falta destas disputas, chateamos a Vânia.
Meditava eu, na minha solidão, em toda esta mesa 19 que ali me faltava, quando de súbito o patrão, emitindo um grito de guerra, saltou por cima do balcão, indo encaixar-se, a cavalo, nas espáduas do Vítor. Chicoteando-lhe o flanco com uma ementa, mandou-o galopar para o mercado, pois tinha de comprar urgentemente uma potência irracional de postas de salmão. O outro discordou, com um relincho, mas não lhe valeu de nada.
Entretanto, a Vânia e a Marta apareceram para limpar a sala, completamente nuas. Meu Deus, o que eu ando a perder, por sair de cá cedo demais. Confesso que olhei para a Marta, e embasbaquei. Como é que eu nunca os tinha visto, assim pendentes, lindos e sensuais, desafiadores? Que brincos maravilhosos!
Chamei a Marta, respeitosamente, com uma palmada carinhosa no traseiro fofo. Pedi-lhe mais vinho, mas ela garantiu que tinha ordens severas do patrão, e só me poderia oferecer um jarro se eu a beijasse apaixonadamente. Estava para concordar com a proposta, quando a Vânia se interpôs, gritando que era tudo uma grande treta, e que aquilo não passava de um plano da Marta, para me fazer casar com o Vítor.
Gritou ainda que, se tudo aquilo fosse mesmo verdade, também ela teria vindo nua. Ainda lhe apontei que ela vinha de facto assim, mas retorquiu-me, abespinhada, que isso agora não vinha ao caso. Foi então que me acordaram, para me perguntar se queria mais alguma coisa. Uma vez desperto, voltei a ser minoritário.
Melancólico, saí do restaurante, em busca de um táxi. O motorista era um tipo simpático, já meu conhecido de outras viagens, mas não pude deixar de notar que ele era quase o oposto de uma jovem modelo, bela e nua. Como disse Pessoa, falando da sua hipotética morte, “Vai depois dizer a essa estranha Cecily / Que acreditava que eu um dia seria grande. / Raios partam a vida, e quem lá ande”.
2.15.2007
76 – E, finalmente, o referendo.
Por toda a parte, o pasmo dos rostos espelha a interrogação generalizada. Em esquinas sombrias, no desvão de portas escusas, ou emparedado no lusco-fusco protector de becos antigos, se ouve soprar, em murmúrios temerosos, a pergunta candente: por que razão é que, volvidos tantos dias, ainda não abordaram as crónicas a questão do referendo?
O ponto que importa perceber é este, existem dois tipos de crónicas. Isto é obviamente mentira, existem vários, mesmo muitos, até, tantos quantas as próprias crónicas, mas pronto, digamos que são dois, que é para não fatigar excessivamente as meninges do esforçado leitor. De acordo com este critério, necessariamente tão arbitrário como qualquer outro critério, podemos dividir as crónicas em “sérias”, e “menos sérias”. De uma forma geral, as sérias defendem a reformulação da sociedade, por via, frequentemente, da reestruturação de mentalidades, e as menos sérias defendem a fundação da utopia, ou melhor, a assumpção de uma utopia que passaria a existir, uma vez assumida, e fazem-no frequentemente por via de meios duvidosos, como o regresso à idade média, a evocação de fantasmas, ou cobrir tudo de salmão. Só uma diferença basilar separa os dois tipos: as crónicas menos sérias assumem o disparate como um facto, enquanto as sérias tentam mostrar, por meio da lógica, que o disparate é um facto.
Dito isto, é importante esclarecer que o referendo é, para mim, um assunto muito sério. É claro que, quando digo o referendo, estou a referir-me a O Referendo, o que teve a sua reprise no passado dia 11 de Fevereiro, quando se decidiu a questão da interrupção voluntária da gravidez. Acontece que se trata de um dos poucos temas sérios da actualidade sobre os quais eu tenho uma firme opinião, e que me dei ao trabalho de esmiuçar com algum detalhe, a fim de reforçar ou desmentir as minhas ideias (uso intencionalmente a palavra “sérios”, para que não me venham chatear com coisas como a exposição indecente das amêijoas, a legitimidade de incluir cuecas comestíveis no cozido à portuguesa, ou o auto-erotismo como forma de ganhar o euromilhões, temas que também absorvem grande parte das minhas cogitações).
Não é despiciendo o uso de maiúsculas no parágrafo anterior, quando aludo ao referendo, se considerarmos que se trata do único referendo que trinta e três anos de democracia conseguiram produzir, neste cantinho à beira-mar plantado. Seja como for, a importância do tema, na minha opinião, seria sempre merecedora de uma crónica séria. Ora bem, o que acontece é que eu ando um bocado farto de escrever coisas sérias. Tenho muito a dizer sobre a questão do aborto, mas, se não me levam a mal, fica para uma outra vez.
A restrição, contudo, aplica-se ao aborto, e não ao próprio referendo. Sobre esse, não me importo mesmo nada de discutir o que é, de debater o que não é como se o devesse ser, de falar do que nunca será como se o fosse já, bem ao jeito, desfasado da realidade, da nossa mesa 19. Vamos ao referendo, portanto, como Santiago aos mouros.
Falando, em primeiro lugar, do presente referendo, houve de facto uma coisa que, desde o princípio, me deixou surpreendido. Ouvi todo o tipo de auto-proclamadas sumidades discutirem, ad infinitum et ad nauseam, o conteúdo da pergunta a referendar, mas, curiosamente, ninguém avançou com grandes argumentos sobre o conteúdo da resposta. Ora, quanto a mim, um referendo sério não se pode limitar a um seco “sim” ou “não”. Que diabo, a vida não é a preto e branco. Aqui fica, como sugestão para uma próxima tentativa, um leque de respostas que considero mais justo:
- Sim.
- Não.
- Só se a rapariga for de uma família aceitável e conveniente.
- Se forem mesmo muito pobres, e o marido for bêbado, o prazo deve ir até além do nascimento. A mulher poderá ainda, caso o pretenda, abortar o marido, com a ajuda de uma pistola.
- Além da IVG, dêem-lhe também um voucher para um fim-de-semana com o namorado, num bom motel. Afinal de contas, porquê limitar a coisa a um único aborto?
- São só dez semanas? Porra! O que vale é que a minha secretária está bem treinada, e vai negar tudo.
- Porcalhões. Por que é que não se limitam ao sexo oral? Hum? (voto invalidado, por vir assinado pelo diácono Remédios).
Mas, enfim, basta da questão do aborto. Aquilo que mais me surpreende, neste grande festival de democracia, é que não se referende mais nada. Não estou a gozar, qualquer norueguês está habituado a ser chamado, domingo sim, domingo não, a pronunciar-se sobre a condução da sociedade em que se insere, o que me parece bem. Nós, por cá, é só aborto, como se a vida de cada um se passasse entre decisões de abortar, ou não abortar. E agora pergunto eu, e quando não há nada para abortar, hein?
Ocorre-me, assim de repente, a questão do aeroporto da Ota. É hoje geralmente aceite que o novo aeroporto é um disparate, sobretudo se feito ali, e os defensores da solução da Ota dão pelo nome genérico de otários, mas, cadê o referendo? É no mínimo curioso que eu seja chamado a pronunciar-me sobre a decisão íntima e pessoal, que em nada me diz respeito, da dona Joaquina, de Freixo-De-Espada-À-Cinta, e não tenha uma palavra a dizer sobre o ruinoso investimento de vários milhões, arrancados aos meus impostos, na destruição de um ecossistema insubstituível, com vista a construir um aeroporto disparatado, que ninguém quer, onde ninguém o quer, excepto uns quantos proprietários de terrenos. Mas, a haver referendo, estou seguro de que a pergunta seria, “concorda com a construção deste aeroporto, ou prefere uma alternativa que os poderes económicos não deixarão de inviabilizar, levando à construção deste aeroporto? (possibilidades de resposta: Sim; Sim; Não, porra, mas o que é que eu hei-de fazer?).
Pondo de lado estas tristes realidades, resta falar do nosso referendo, do referendo que se impõe: o referendo da mesa 19. Diversas hipóteses se nos deparam aqui, mas, considerando a natureza rebelde e disparatada da nossa mesa, opções há que se impõem. Aqui ficam elas, pelo que possam valer:
Pergunta: concorda com a liberalização dos digestivos a todas as mesas, desde que aplicada somente à mesa 19, após terem sido bebidos os habituais licores, ou mesmo antes, desde que depois, ou até, em circunstâncias excepcionais, imprevisíveis, ou indefiníveis, desde que devidamente regulamentado?
- Hã?
- Como?
- Desculpe?
- O que foi que disse sobre o meu rabo?
- SLB! SLB! SLB!
- Estou apaixonado pela Marta!
- Tudo bem, desde que o Alberto João não venha cá.
Pergunta: gostaria de ser servido, neste restaurante, por meninas em topless?
- Sim.
- Sim, porra.
- Sim, porra (com baba).
- Sim, desde que seja a Marta. Ou a Lana. Ou outra miúda qualquer.
- Sim, desde que não seja o patrão. Ou o Alberto João.
- Sim. Sim. Sim.
Pergunta: gostaria de encontrar na ementa pratos requintados, como cabrito assado à padeiro, ou umas favas bem cozinhadas?
- Sim.
- Sim, desde que servidos por empregadas em topless.
- Sim, desde que servidos pela Vânia, vestida como ela quiser (estou a brincar. Topless, é claro).
- Sim, desde que servidos pelo patrão em pessoa. O prato, nesse caso, deverá ser o Alberto João, com um molho de orégãos e manjericão, e um pouco de salsa nas narinas.
Pergunta: deseja terminar esta crónica, visto que já não há mais disparates de jeito para dizer?
- Sim.
- Sim, por favor.
- Ou isso, ou alguém me mate (pode ser o Alberto João).
- Não, gostaria de escrever mais algumas páginas, e… aaaarghhhhh!
2.14.2007
75 – Um peixe chamado Vânia.
Serve esta crónica para falar do salmão, das matemáticas a ele associadas, e dos perigos e consequências que tudo isso acarreta. Compreendem, tudo começou há dois dias (dois dias úteis, quero eu dizer), quando constatámos, com gáudio e regozijo, que a ementa nos propunha, em rodapé, salmão grelhado. Compreender-se-á facilmente o nosso alvoroço, quando eu explicar que pouco peixe se pode usualmente encontrar naquele restaurante, sendo esse pouco de um género que nos levaria a hesitar antes de o oferecer a um gato esfaimado, pelo fundado receio de deixar o bichano seriamente ofendido. Achar ali salmão foi, portanto, uma festa para nós.
Consequentemente, imagine-se a nossa consternação, o pasmo e a dor que nos assolaram a alma, ao sermos informados de que havia, precisamente, uma posta de salmão! Como se dava tal fenómeno, uma única posta, exacta e aritmeticamente contada, quando éramos nós os primeiros clientes a chegar? Convocada de imediato a Vânia, interrogámo-la com desassombro. Aprendemos então que a gerência tinha tido o cuidado de adquirir, para prover àquelas centenas de almoços, precisamente três postas do dito peixe. Não se dando por inteiramente satisfeitos com tal medida, contudo, trataram ainda de comer duas delas, antes de abrir as portas ao público.
Como é natural, censurámos severamente a Vânia, por ludibriar desse modo soez os nossos legítimos anseios e expectativas. Intimámo-la, carinhosa mas firmemente, a que não voltasse a anunciar em lista um prato, quando para o satisfazer dispunha apenas de um parco exemplar do manjar proposto. A moça pareceu contrita, e prometeu emendar-se. No dia seguinte, o salmão voltava à lista, estando desta feita disponíveis duas postas.
A princípio, tomámos isto como um progresso, modesto mas estimável, e digno de encorajamento, mas soubemos depois que, desta vez, não tinham sido compradas três postas, mas apenas duas, tendo-se a casa, todavia, abstido de as comer! Todos abanámos a cabeça, num gesto de comiseração, e evitámos comentar o facto.
A nossa sensação de que nem tudo estava bem deve, no entanto, ter sido pressentida, e hoje (terceiro dia, portanto), dispúnhamos já de quatro postas de salmão. Foi aí que se fez luz no meu espírito, e compreendi tudo: eles decidiram passar a comprar o peixe numa progressão geométrica!
A ideia, devo admiti-lo, deixa-me um pouco inquieto. É certamente agradável saber que, nos próximos três dias, contaremos com oito, dezasseis, e trinta e duas postas, respectivamente. Isso é tudo muito bonito, mas, e depois? Quero dizer, eles saberão realmente onde se estão a meter, caso insistam em seguir por este caminho?
A coisa é do mesmo género daquela história que se conta sobre o inventor do xadrez, o qual terá pedido ao rei da Pérsia, como recompensa, um grão de trigo pela primeira casa do tabuleiro, dois grãos pela segunda, quatro pela terceira, e assim por diante. O rei achou o prémio modesto, e rapidamente empenhou a sua palavra. Feitas as contas à dívida, descobriu-se que seria necessário dar ao inventor toda a produção mundial de trigo, durante vários anos. E eram apenas grãos de trigo, que são assim umas coisas a modos que muito pequeninas. Imaginem a coisa, agora, com postas de salmão.
Se a aritmética me não atraiçoa, o décimo segundo dia brindar-nos-á com duas mil e quarenta e oito postas, o que obrigará cada cliente a comer, pelo menos, uma dezena de doses. Nos dias seguintes, os números disparam, tornando economicamente inviável que se almoce, em toda a área metropolitana de Lisboa, qualquer coisa que não seja salmão. No vigésimo dia, o governo aprovará uma lei, obrigando todo o sector da construção civil a usar postas de salmão, em vez de tijolos. Dois dias depois, os PDM serão revistos, no sentido de aumentar o volume de edificação permitido, a fim de escoar o excesso de matéria-prima.
As sobras da cozinha, ao vigésimo quinto dia, serão ofertadas ao Ministério do Interior, que as usará para construir, ao longo da nossa costa, um vasto atol artificial, que tornará a área de Portugal continental no quádruplo da de Espanha. Com os restos dos dois dias subsequentes, constroem-se as primeiras vias rápidas de ligação entre o continente, e os Açores e Madeira.
Neste meio tempo, George W. Bush interessa-se pela ideia, e compromete-se a livrar-nos do excesso de produção, como contrapartida pelo uso da base das lajes para torturar prisioneiros de guerra. No Pentágono, vivem-se dias de entusiasmo, face à perspectiva de alienar toda a frota da U.S. Navy, e passar a lançar ataques de tanques, directamente a partir da baía de Miami.
Passado um mês, o restaurante abre falência, por falta de fundos para comprar mais salmão. Na mais recente versão do Atlas Mundial, ainda no prelo, poderá ler-se que o nosso planeta é constituído por uma quarta parte de terra, três quartas partes de salmão, e a ribeira de Barcarena.
E quanto à mesa 19, que começou tudo isto? Bem, nós somos um bocado do contra, e, para dizer a verdade, andamos a pensar seriamente em deixar de comer salmão. Só falta agora decidir uma coisa, qual o prato que vamos passar a exigir? Eu voto no faisão trufado (sem frango).
74 – A epopeia da Távola 19.
Com mil e seiscentos diabos, que artimanha do Demo temos aqui, agora? Quem sois vós, bofé, que vos permitis interrogar-me? Explicai-vos sem delongas, senhores, ou será a ponta da minha espada a fazer as despesas da conversa. Cuidais que haveis de tratar com um vilão, ou com uma dona? Desenganai-vos, por minha fé! Eu sou Sir Drinkalot, cavaleiro da távola quadrada número 19, honra e flor do reino de Camelot. O fio da minha lâmina é a minha credência, o ferro dos meus guantes a minha embaixada. Dizei, pois, sem melindres ou rodeios, que coisa intentais obter de mim.
Que palavras ouço, ou julgo ouvir, e que crédito hão elas, que tão inverosímeis se me afiguram? Pretendeis, pois, que vos narre aqui, despejadamente, a história e a glória da távola 19? Forte pretensão é a vossa, e uma que não estou seguro de poder satisfazer, eu que melhor que a palavra manejo a espada, lâmina que jamais desembainhei sem justiça, nem voltei a guardar sem honra. Enfim, intentarei o que puder, para vossa satisfação, e assim o esforço me alcance a salvação da alma imortal.
A távola 19 governa o reino de Camelot, é o seu centro, e a sua luz. Foi, em tempos milenares, uma távola redonda, de que outras crónicas guardam fiel memória, mas veio a assumir a actual forma rectangular, a fim de permitir a qualquer cavaleiro em dificuldades o acto de se aliviar, mijando nos cantos. Em torno da vetusta távola, estende-se o mui nobre reino de Camelot, palavra evidentemente derivada da quantidade de camelos que ainda hoje a rodeiam, e lhe prestam vassalagem.
Muitas histórias têm sido narradas, nestas crónicas, sobre a távola 19. Não discordando da substância factual de cada uma delas, devo todavia insurgir-me contra o tom ligeiro e modernaço de que se revestiu a narrativa das sagas. A távola 19 é uma instituição antiga, medieval, que só perde com essas modernices de mau gosto. Sei bem quem é o culpado disso tudo, não é outro senão o autor, esse vilão que bem queria ser nobre mas é apenas pobre. Põe-se para aqui a parlapatar tolices sem sentido, e vá lá uma pobre alma, que apenas sabe a língua pátria, pôr a cabeça à razão de juros para o entender. Ainda no outro dia, pelos folguedos do seu natalício, o ouvi falar num “homem do talho”. Os tratos que eu dei ao juízo, meu rico São Jorge, até compreender que ele se referia, muito simplesmente, ao uchão ali da esquina.
Recentemente, contudo, a mesa 19 entrou em combate. Cavalos de batalha foram ferrados, armaduras lustradas e areadas, maças de armas sopesadas, e postas à mão de semear. Aconteceu apenas esta coisa singela e magnífica, a um tempo natural e inesperada: o ofício de matador de dragões, que cada cavaleiro, até aqui, exercia de forma graciosa e voluntária, passou de súbito a ser remunerado, uma bolsa de oiro por cada dragão morto. Isto causou uma revolução entre os cavaleiros, tanto mais que, diga-se a verdade, o regime de voluntariado vigente sempre fora um pouco prejudicado pelo costume instituído de empurrarem o cavaleiro em causa para a toca do dragão, por mais que o desgraçado esperneasse.
Mas o pior foi que a justiça, que jamais fora apanágio deste mundo de cavaleiros, há que dizê-lo com frontalidade, pareceu ausentar-se por completo deste processo. Assim, correu o boato de que a equidade, neste caso, faria as vezes de umas cuecas tipo tanga, que tapam tudo mas deixam o rabinho à vista. Segundo se dizia, o rei iria lançar a alguns o seu saco de oiro, dizendo apenas aos outros, Sois grandes matadores de dragões, continuai o vosso bom trabalho, que todo o reino vos agradece.
Foi aqui, face à arbitrariedade da decisão, que os cavaleiros em causa responderam à uma, num brado caracteristicamente medievo, Ide todos para a pata que vos pôs, e, se quereis os dragões caçados, caçai-os vós mesmos.
Veio-se a descobrir depois que, afinal de contas, não era nada disto, e sempre haveria ouro para todos. O rei terá enviado a mensagem por todo o reino, mas mensageiros houve que se atardaram mais, quiçá por mor de outros afazeres. Como diria um diácono que viveu mil anos depois de mim, digam-me lá, meus amigos, se havia alguma necessidade…
A chatice foi que, com tal desordem de procedimentos, com tais protocolos na comunicação das ordens, o desânimo tornou-se mais profundo, em vez de melhorar. Os dragões, esses, foram ganhando terreno. Parece que, nestes tempos conturbados, já ninguém os quer caçar, nem mesmo a peso de ouro.
2.06.2007
73 – Razão.
És um idiota, disse-me recentemente uma pessoa amiga, presumivelmente com alguma intenção construtiva. És um idiota, repetiu, e não tens razão nenhuma. A realidade factual não se conseguiu pôr à altura das eventuais intenções construtivas, e, da diatribe, sobejou apenas o juízo de valor, eu sou um idiota, e não tenho razão nenhuma.
Isto de ser um idiota não me preocupou em demasia. Eu próprio, seja como for, já há muitos anos acalentava essa suspeita, pelo que a sentença ferina não me causou mossa de grande monta. A questão de não ter razão nenhuma, no entanto, deu-me em que pensar.
Tenho pelo menos o conforto de não estar só, neste deserto de não ter razão nenhuma. Já há muitos séculos o grande Catão se queixava do mesmo, e também não lhe ligavam nenhuma. A frase que abre esta crónica, traduzida (para todos menos um, como diria o Catarino), vem a significar, “A causa vencedora agradou aos deuses, mas a vencida a Catão". O homem era de facto um paladino das causas perdidas, e via-se com frequência acusado de não ter razão. A coisa, tanto quanto se sabe, nunca o incomodou muito.
Nestes dias que antecedem o famoso referendo, um tema que está na berlinda é a liberdade de escolha. Fala-se, ad nauseam, dos direitos que detém a mulher que concebeu um filho, e da sua liberdade de o não gerar. Discutem-se com calor pontos delicados, como a diferença subtil entre a liberdade de escolher matar um filho, e a liberdade de escolher não o conceber. Mas começa a parecer-me, a mim, que todo este festival de liberdades se esgota na paridura. Se não é isso que está em causa, não se fala mais de liberdade, e pronto.
Serve esta crónica para defender a liberdade de escolha, mesmo nos casos, bem distintos do aborto, em que essa escolha que se pretende tomar em liberdade é impopular, ou, no mínimo, raras vezes debatida, pelo que não dispõe de uma falange de apoiantes, publicamente assumidos. Está neste caso, por exemplo, a escolha, feita com objectividade e consciência, de não se ter razão, mesmo nenhuma.
Por certo que o direito a não ter razão é bem mais defensável do que o direito ao aborto por opção. Tal como no caso da interrupção voluntária, tem os seus casos de isenção excepcional, como sejam os imbecis, os doentes mentais, todos aqueles que não têm, plausivelmente, aquele mínimo de condições exigível para se ter razões. Também se aplica a este direito um dos argumentos mais queridos dos liberais, “Quem é que nunca o fez?”. Bem, no caso do aborto, julgo que muita gente, mas não creio que haja alguém capaz de se gabar de nunca se ter visto na situação de não ter razão.
Nunca Catão se preocupou com as razões dos outros. Ele tinha as suas próprias razões, e é irrelevante discutir se tinha ou não razão. Defendeu bravamente os seus pontos de vista, até que o mataram, mas isso foi só para lhe darem razão. Bem diz o povo que, neste mundo, quem tinha razão era o outro, e o outro é sempre o morto. Desde esse dia, nunca mais Catão deixou de ter razão.
(É importante não confundir Catão com Catilina, a quem um dia perguntaram, “Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?”, o que vem a dar, em língua,”Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?”. Isto deu origem a um étimo, Catilinária, que mais tarde degenerou em Calinada).
O fundamental, aqui, é a liberdade. Na minha opinião – e há liberdade de opinião, ou assim espero – na minha opinião, dizia, não deveríamos estar a referendar o mero caso da interrupção voluntária da gravidez, mas sim a questão mais vasta da liberdade de escolha, fundada, evidentemente, na liberdade de crença. Afinal de contas, faz algum sentido que uma mulher tenha a liberdade de matar o seu filho, fundada na crença de que ele não é ainda uma pessoa, e me seja negada a mim a liberdade de matar o meu chefe, que eu creio sinceramente que é uma abóbora assassina, vinda de Marte para me lixar o juízo?
Como diz o professor Martelo, assim não! Conceda-se livremente o direito de abortar, seja às 10 semanas, seja logo após o nascimento – estou convencido que, para o feto, não fará grande diferença –, mas não me privem a mim do direito de faltar sistematicamente ao emprego, porque acredito firmemente (e, de igual modo, sem qualquer razão válida), que o meu patrão é uma grande tangerina azul, e eu sou alérgico a tangerinas dessa cor.
A minha tese é absurda, mas não deixaria de colher argumentos a seu favor, caso fosse a debate público. Espero que toda a gente concorde que a lei deverá ser mudada, no dia em que a liberdade de ser irrazoável, inimputável e inconsequente for favoravelmente referendada pela maioria da população. Nessa altura, talvez se calem por fim com a história de quando um feto é uma pessoa. Tenha a idade que tiver, ele ou é meu, ou não é. Se não for, a minha responsabilidade é nula. Se for, posso fazer dele o que quiser. De uma forma ou de outra, mato-o, por ser meu filho ou por ser meu chefe, o que é que isso interessa?
Ou será que acham que eu não tenho razão? É que, se quiserem, também podemos falar sobre isso.
P.S. A mesa 19 também às vezes não tem razão, e isso não nos incomoda. Mesmo quando nos falta a razão, nós cá temos as nossas razões.
2.02.2007
72 – A Marta.
Baixa-mar, mar morto.
Baixa-mar, baixa-mar,
Bai chamar pai a outro.
A Vânia hoje baldou-se, presumivelmente para estudar (eu acho que foi, na verdade, para se repoltrear no mais iníquo e desenfreado pecado, mas adiante). Teve isso como consequência sermos servidos pela Marta, o que é uma experiência semelhante a substituirmos o peixinho vermelho lá de casa por uma enguia eléctrica, e meter depois a mão dentro do aquário. Numa simples palavra, bem ao gosto do James Bond: Shocking.
Aquilo não é uma mulher, é um dínamo. Não se passa um minuto sem a termos ao nosso lado, saltitante, tentando limpar um cinzeiro que apenas contém uma ponta de cigarro, ou levar pratos e copos que acha que não fazem falta (o fazerem ou não falta, de facto, é um factor despiciendo e irrelevante, que pode perfeitamente ser ignorado, nesta equação). Ela substitui jarros de vinho que não estavam sequer vazios, propõe-se trazer isto ou aquilo, faz o diabo a sete. É quase como ser servido por um cruzamento entre o Benson, mordomo preto da série americana, e o He-Man!
A moça tem também alguns defeitos. Hoje, por exemplo, trazia uns brincos inenarráveis, muito semelhantes a algo que a Floribela poderia ter comprado no Martim Moniz. Censurei-lhe severamente as excrescências, mas tenho de admitir, para ser inteiramente justo, que já no dia anterior a Vânia se tinha apresentado, com as unhas pintadas de um tom tipo Morangos “sou gay” com Açúcar, cor-de-rosa, que em nada lhe favorecia os piercings. São modas.
São, todavia, modas perniciosas. Como diria o bom do diácono, Qualquer dia, hum, andam por aí a tatuar os nomes dos antigos namorados, naquelas zonas traseiras, hum, que são tradicionalmente território da cueca. Depois, quando o novo namorado manifestar ciúmes, pedem-lhe que resolva o assunto com umas valentes nalgadas, bem por cima dos tais nomes, e quem sabe, hum, as porcarias que farão depois. É que o pecado anda à solta, meus irmãos, e vós, se sabeis o que vos convém, deveis ir para junto das vossas famílias, e orar. Ide, pois, e deixai lá ficar em paz as nalgas alheias. Isto, pelo menos, hum, é o que eu penso, não é?
A Marta tem ainda outras vantagens. Para além de ser simpática e saltitante, entre várias coisas, ela ainda nos leva a sério. Se lhe pedimos umas ervilhas com ovos escalfados, sem frango, ela esforça-se conscientemente por nos satisfazer o pedido. A Vânia, pelo contrário, já não nos liga nenhuma, nem quando lhe pedimos a conta.
Eu disse já, em crónica muito antiga, que a Vânia é a nossa terapeuta, e a Marta é uma das nossas tratadoras. Mas, digam-me lá, de quem é que o gado gosta mais? Do veterinário que lhe espeta uma agulha, ou do tratador que lhe dá um torrão de açúcar, apesar das recomendações do clínico? É certo que, no nosso caso são, sobretudo, cheirinhos bem servidos, mas o princípio é o mesmo.
Se eu quisesse discutir os pervertidos pontos de vista de Freud, esse grande tarado, ou as dúvidas de Descartes sobre a sua própria existência, iria provavelmente ter com a Vânia, mas, para me rir um bocado, desconfio que escolhia a Marta. Isto não implica qualquer juízo de valor, as coisas são como são, e pronto.
Volto, ainda, a insistir na questão dos cheirinhos. Ambas são liberais, neste particular, mas a Vânia consegue sempre mostrar que aquilo é um favor especial, e que não tínhamos realmente direito a ele. A Marta, pelo contrário, serve-nos, e pronto.
Resta apenas explicar a relação entre esta crónica, e o poema inicial. Pois bem, tal como na questão do aborto, eu exerço a minha liberdade de escolha, e escolho não a explicar. Estou nesse direito, e pronto. De resto, imaginem que a coisa não tinha qualquer relação? Como é que eu ia explicar fosse o que fosse? Não pensaram nisto antes, de certeza! Ah pois, pois é.
1.31.2007
71 – De mortuis.
Já chega, caramba! Desde que escrevi uma crónica, imprudentemente javarda, subordinada ao tal 69, a coisa não tem parado. Ele é 69 para aqui e para ali, 69 em todo o lado, até no telemóvel. Tanto 69 já me começa a despertar a ideia de pôr a coisa em prática, mas há obstáculos. É claro que podia engatar uma miúda simpática, mas teria de começar por a convidar para jantar comigo, e é a isso que eu não me atrevo: estou certo de que a conta importaria em 69 euros.
Mas isto foi apenas um desabafo, pois não é dessas poucas-vergonhas que hoje se trata. Tout court, serve esta crónica para falar da morte, fenómeno em si próprio simples, mas ao qual nunca resistimos a associar tanta coisa complicada. Tomem-se, apenas a título de exemplo, as disposições do acordo de trabalho do meu sector, no que respeita a ausências ao serviço por falecimento de um parente próximo.
A questão surgiu hoje, em volta da mesa 19: quais os direitos que me assistiam, no caso de morte de uma tia (tias legítimas, das que são irmãs da mãe, e não aquelas de Cascais)? Muitos aventaram que eu teria direito a dois dias de ausência. Eu nem sequer queria tanto, bastava-me um para poder assistir ao funeral, e viria trabalhar no seguinte. Mas nunca gostei de me apropriar indevidamente fosse do que fosse, pelo que me dediquei, apenas regressado ao local de trabalho (por assim dizer), a compulsar a legislação existente. Foi aí que, imperceptivelmente, entrei na quinta dimensão.
Aprendi, com pasmo e estupefacção, que a morte de uma sogra me concede o direito a ficar em casa cinco dias (presumivelmente, serão três para comemorar, e dois para a ressaca). Por coincidência, tragédias como a morte da minha mulher, ou – pior ainda – de um filho, horrores capazes de destruírem a vida de um homem, são contempladas com os mesmíssimos cindo dias. A tia, pelo seu lado, não dá direito a nada, e pronto.
Mas a coisa ainda piora. A morte de um irmão, provável alma gémea, que desde a infância pertenceu à nossa vida, ou de um neto, anjo arrebatado na flor da mocidade, quantas vezes mais amado que um filho, dispensa do dever laboral, apenas, durante dois dias. Findo este prazo cruelmente escasso, há que engolir as lágrimas, fazer das tripas coração, e comparecer ao serviço. Sobre coisas destas, costumava perguntar o Jô Soares, E pode? E logo respondia, É claro que pode. O que ainda nos safa é que resta sempre a possibilidade de matar a sogra, logo a seguir.
Entendamo-nos: o passamento da puta da velha, que tipicamente se chama Gertrudes, e cuja morte apresentou o único inconveniente de ter demorado tanto a acontecer, concede ao trabalhador uma folga de cinco dias, para se ressarcir do presumível desgosto. Em compensação, o desastre do neto Joãozinho, tão querido e amoroso, que teve a infelicidade de ir desta para melhor quando caiu do baloiço, deixando os avós prostrados e inconsoláveis, apenas oferece aos ditos avós dois dias para se recomporem. Será que isto se percebe? É claro que se percebe. Afinal de contas, putos há muitos, e pode-se sempre fazer outro. Sogras, por outro lado, tendem a rarear, sobretudo ao ritmo a que a malta as vai matando. Trata-se, afinal, de um caso da mais elementar justiça.
O próprio termo, justiça, é em si próprio questionável. Recordo-me que já o Victor Hugo contava, nos seus Miseráveis, a história de uma jovem recém-casada, que procura o seu pai, lavada em lágrimas, queixando-se de que o seu marido lhe deu uma estalada. O pai, após ponderar a questão, presenteia a soluçante filha com um sonoro chapadão nas trombas, daqueles de criar bicho, e diz-lhe, “Pronto, estás vingada. Vai dizer ao teu marido que, se ele bateu na minha filha, eu bati na mulher dele”. Pois é, são conceitos diferentes de justiça, e eu entro a desconfiar que os juristas que regulamentam as ausências ao trabalho também leram este livro.
Os exemplos absurdos não faltam, para mal dos nossos pecados, e desgraçada desta crónica, se os tivesse de narrar a todos. A questão do referendo à IVG, por exemplo, tem sido fértil em disparates, tanto de uma parte como da outra. Não quero de modo algum enveredar por esse assunto, mas não resisto a contar uma curta história.
Vi recentemente uma reportagem, sobre uma paraplégica que necessitou de fazer um aborto. Não teve qualquer culpa da sua gravidez, que se deveu à interacção de um novo medicamento, com a pílula contraceptiva, levando esta a perder o efeito (sim, até as paraplégicas têm direito a ter vida sexual). Dado que a sua condição física (malformação do útero) a impedia de levar a bom termo uma gravidez, e implicava sério risco de vida para ela, dirigiu-se aos competentes serviços de saúde, munida do atestado que o médico lhe fornecera. Estava dentro da lei, com os diabos, e não tinha nada a temer.
É aqui que a história se torna surrealista. A senhora é recusada por todos os hospitais aonde se dirige, e onde lhe chegam a dizer, “Isto é um sítio onde se vem para parir, e não para abortar”. A solução poderia ser encontrada por via legal, mas as tais 10 semanas não deixam muita folga à nossa morosa justiça. Acossada, a pobre senhora fez o que qualquer outra faria: foi abortar a Badajoz.
Isto, a meu ver, é um ponto importante. Os defensores do Sim dizem que urge acabar com uma situação iníqua, na qual as mulheres são obrigadas a ir ao estrangeiro, se têm posses para tanto, ou sujeitar-se a condições indignas e degradantes, no caso contrário. Mas acontece que, mesmo nos casos em que a lei actual já permite a IVG, as tais condições dignas não existem, e o aborto legal, na prática, faz-se nos mesmos termos do clandestino. Se mudarmos a lei, de que é que isso vai adiantar?
E assim vamos vivendo. Por todo o país se discute, com garra e paixão, a hipótese de trocar uma lei que não funciona, por uma outra, igualmente ineficaz. O meu patrão, pelo seu lado, vai-me dizendo que a morte da minha sogra, que eu provavelmente empurrei pelas escadas abaixo, é tão grave para mim como morrer-me um filho, e duas vezes e meia mais grave do que morrer-me um neto. E isto já não causa espanto a ninguém. Estupidez? Não. É só uma forma de estar na vida.
70 – Surrealismo.
A fim de elevar o nível deste fórum, lembrei-me de falar sobre arte. O tema, tanto quanto me consigo recordar, é virgem nestas páginas. Houve, efectivamente, uma ocasião em que me ocorreram alguns pensamentos assaz profundos sobre Claude Monet, mas aconteceu que, de cada vez que os tentava escrever, a maldita caneta atraiçoava-me, e saía minete. Tentei então escrever sobre isso, e terei certamente o cuidado de incluir esses textos no livro que darei um dia à estampa, enquanto estiver a cumprir a minha pena de seis anos de cadeia, por depravação. Até lá, reservo-os, para não ficar sem assunto.
Vem tudo isto confirmar aquilo de que já todos suspeitávamos, que eu não sou propriamente uma pessoa muito culta. Não é que seja estúpido, de forma alguma, e ainda não cheguei ao ponto de confundir as grandes obras do mestre Picasso com a grande pica de aço do mestre-de-obras, mas a minha cultura artística deixa, mesmo assim, muito a desejar. Entendo-me razoavelmente bem com Rembrandt e Van Gogh, mas sou incapaz de distinguir Andy Warhol de um saco para a reciclagem, e Picasso tem sempre o condão de me lançar num estado de mente psicopático e confuso, que a geometria fractal jamais me produziu.
Serve esta crónica, já que para alguma coisa tem de servir, para falar do Rui Cardoso, que nos demonstrou hoje a sua, até agora insuspeitada, intenção de se dedicar à arte. Não o fez por palavras, meio que seria talvez banal e corriqueiro. Não, optou, ao invés disso, por nos demonstrar na prática a sua vocação.
Para esse efeito, começou por entornar na mesa, em posições cautelosamente estudadas, dois em cada três bocados da comida de que se servia. Alguns cuidaram que ele estava a ser simplesmente um javardolas, mas as mentes mais finamente habilitadas para a coisa artística apreenderam sem dificuldade o cerne da questão: o Rui estava a criar.
Nódoa a nódoa, ia-se desenhando, na toalha que já fora branca, uma obra de arte. Que retrato se compunha ali? Que coisa, perguntar-me-ão vocês, representaria o produto final? Pois bem, significaria o mesmo que usualmente significa, quando se trata de arte deste género. Nomeadamente, que o autor reconhece que levou ao limite extremo a cagada que podia fazer naquela mesa, pelo que desiste de aperfeiçoar ainda mais a sua obra.
A arte restaurativa processa-se de acordo com determinados parâmetros, e ainda bem que assim é. São esses parâmetros que asseguram que o erro na conta não ultrapassa uma certa percentagem, e garantem que as relações de cariz insultuoso com clientes de outras mesas não ultrapassam um certo limite, mantendo-nos desse modo a salvo de um processo judicial, que seria de outro modo inevitável.
E é assim que todos nos entendemos. A arte cagatória do Rui será um dia apreciada, ou então não. À nossa volta, e por toda a parte, gente continuará a lamber, a chupar ou a enfiar. É assim que a vida funciona, e não há nada que possamos fazer a esse respeito. O bacalhau das segundas-feiras continuará a ser à minhota, e grande parte dele será entornada sobre a mesa. Isto não é javardice, é apenas arte.
1.26.2007
69 – … E vira!
Pronto, tinha de acontecer. Guiados cegamente pela mão de ferro das inexoráveis progressões aritméticas, as tais que fazem suceder o três ao dois, e o vinte ao dezanove, chegámos finalmente, inevitavelmente, à crónica 69. Conhecendo como conheço esta malta de ginjeira, estou mesmo a ver o que é que esperam de mim. Pois bem, desiludam-se, eu sou um autor sério, e não tenho a menor intenção de me pôr a escrever sobre essas porcarias.
Parece quase que foi ontem que o Paulo escreveu, em comentário a uma crónica remota, julgo que seria a 9, ou então a 10, “aceito que, quando chegares à crónica 68, saltes directamente para a 70”. A coisa era uma piada, então, e ninguém cria sinceramente que as crónicas um dia chegassem tão longe. Quanto caminho se percorreu entretanto, quantos disparates foram já derramados sobre as inocentes páginas deste blog. Quantas coisas importantes se disseram, também, e será que valeu a pena dizê-las?
O 69, em si próprio, é apenas mais um número, sem nada que o distinga de tantos outros números. Vi um dia, por exemplo, um prédio que era o número 38, e juro que nada tinha de especial. Eu próprio moro numa casa que ostenta o número 7, e não me ando propriamente a gabar disso.
Acontece apenas que o 69, por figurar dois algarismos em posições inversas, se tornou na designação de um acto sexual bastante badalhoco, em que o casal interveniente assume, de facto, essas posições inversas, alambazando-se em seguida numa espécie de javardeira a dois. O número em si, coitado, não tem culpa de nada, e nem chega a lamber coisa nenhuma, nesta improvisada ice-cream party do erotismo.
A pobre da matemática, desgraçada, é que é abusada neste lamentável processo. Mas não faz mal, a matemática está bem habituada a sofrer abusos destes, e já nem liga nenhuma. Recordo-me que, há tempos, a marca favorita de cachaça, no Brasil, era a 51. Isto levou à criação de uma nova posição sexual, o 120. Segundo explicam os entendidos, um 120 consistiria em executar um 69, com uma garrafa de 51 metida no cu.
Tudo isto são badalhoquices vergonhosas, indignas do elevado quilate deste blog. O 69, concretamente, é uma invenção pérfida e peçonhenta, com todas as trocas de fluidos corporais, suor, e sei lá eu que mais, já para não falar de todas aquelas lambidelas. A língua fez-se para louvar o nome do Senhor, meus irmãos, e essa é que é essa.
Considere-se por exemplo um jovem casal, homem e mulher unidos pelos santos laços do sagrado matrimónio. Naturalmente, ao longo da sua vida em comum, hão-de surgir problemas. Há pois que discuti-los seriamente, impõe-se o diálogo honesto, abertura franca de mentes, sob os paternais auspícios da Santa Madre Igreja. Pois bem, o que fazem eles? Em vez de dialogar, dirigem os seus lábios, justamente, ao pólo oposto da questão. E a jovem esposa, reconfortada, cuida que resolveu os seus problemas porque, ao invés de conversar com o seu marido, amo e senhor, lhe chupou a gaita. Ele, pelo seu lado, tem a boca cheia de pelos, e nem o vinho lhe sabe bem. Ora digam-me lá, vale a pena condenarem-se assim às fogueiras do Inferno duas almas tementes a Deus, apenas por uma mamada?
Não, a coisa assim não pode ir lá. Como diria o célebre Diácono Remédios, qualquer dia, se não tomam cuidado, andam por aí a lamber postes de telefone, e os homens a terem orgasmos de cada vez que chupam umas patas de sapateira. Depois, quando menos se precatam, desatam a enfiar o que tiverem à mão em tudo quanto é orifício, e foi assim que Sodoma se lixou.
Há coisas que não temos o direito de permitir, que é forçoso condenar. A Santa Madre Igreja, cujos padres não estão autorizados a dar uma queca, é que sabe como se hão-de dar as quecas. Comer o rabo à empregada doméstica está dentro dos limites, mas um 69 com a mulher legítima é algo fora de questão. Já se for feito com um menino do coro, por trás do altar, o caso muda completamente de figura. Afinal de contas, os padres, porra, também são seres humanos.
E, perguntam-me vocês, como se relaciona a mesa 19 com esta polémica questão? Pois bem, com muita tranquilidade. Somos sobretudo, como já tive ocasião de aqui mencionar, um grupo de pessoas normais, com atitudes normais. Nunca ocorreu discutirmos ali tal assunto, mas estou firmemente persuadido de que aquela gente conhece o 69, e não é por ter lido sobre ele na Internet. Do mal, o menos, no entanto: julgo que ninguém, por aquelas bandas, é adepto do 120.
Quanto ao resto, creio que o próprio Deus recomendou, no primeiro livro da Bíblia, o livro do Génesis, que nos amássemos e multiplicássemos. O primeiro conselho é bom, quem é que não gosta de fazer amor? Mas ninguém consegue passar o tempo todo a multiplicar-se. É que não é humanamente possível, simplesmente. Nesses casos, um bom 69, de vez em quando, vem muito a jeito, para variar um pouco.