2.27.2007

78 – O retrato da mesa 19.

Hoje não me apetece escrever. Ele há dias assim, dias em que a criatividade continua a fazer sentir o seu apelo, mas não da forma usual. Hoje, por exemplo, apetecia-me antes pintar. Eu cheguei a pintar, in illo tempore, um quadro cubista. Diversos especialistas, que o avaliaram, foram da opinião unânime de que eu, de futuro, deveria antes dedicar-me à pintura de portas. Pintei então uma porta, mas toda a gente me disse, Deixa-te disso, quem é que vai querer uma porta cubista? Desisti da pintura.

Ainda hoje me fremem os dedos, quando vejo uma tela e tintas. Resisto, porém, à tentação. Como disse uma personagem do Quino, quando a professora lhe perguntava quanto eram dois vezes sete, “Aquele que conhece as suas limitações, sabe dois vezes dois”. A tinta não é de facto para mim, que me ajeito bem melhor com as palavras. Mas hoje apetece-me pintar, e pronto. Está decidido, vou aqui pintar, em veras palavras, a mítica mesa 19.

Queira então o estimável leitor contemplar a modesta tela. Enquadrada em moldura nobre, destaca-se uma mesa corrida, cuja amesendação de papel sugere uma continuidade, onde apenas há duas, três, ou mesmo quatro mesas pequenas, e justapostas. Sobre o fundo de papel barato, exibe-se uma natureza morta, sábia composição de azeitonas, queijo fatiado, cestos de pão, e um pires com umas coisitas merdosas, tipo manteiga e patê, que não ajudam em nada o conjunto, mas não deixam de fornecer um curioso toque de cor.

Em volta da dita mesa, sentam-se uns quantos indivíduos, de aspecto esquálido e patibular, que semelham o Cássio de Shakespeare, temido pelo seu ar “magro e esfaimado”. Trata-se da entourage da mesa 19, entre a qual avultam os dois decanos da confraria, o Carlos Santos e o Rui Cardoso. Muito dissemos já sobre estes dois, pintemos agora a sua vera efígie.

A comparação, feita há tempos, entre este par e os velhotes do camarote, na série dos Marretas, não foi ocasional. As parecenças, contudo, são meramente a nível de atitudes, e não físicas. Fisicamente, são muito diferentes dos tais velhos, chegando mesmo a ser alguns anos mais novos. O que se passa, na verdade, é que eles riem da mesma maneira, e basicamente das mesmas coisas.

Isto, como é evidente, diz tudo. De que serviria aqui acrescentar que são ambos de estatura mediana, nem magros nem gordos, que o Rui se exibe num vampiresco casaco de cabedal, e que o Carlos todos os almoços troca os óculos de trabalho pelos óculos de lazer, excepto quando põe o terceiro par, que serve apenas para procurar os outros dois? Nada, está tudo dito, e aí ficam as duas figuras em tela, uma de cada lado da mesa.

Os dois lugares seguintes são ocupados por mim. Lá vou conseguindo, de uma forma ou de outra, usar uma única cadeira, mas acabo sempre por dar a impressão, mercê de uma curiosa ilusão de óptica, de que é a cadeira que está sentada em mim. Este breve intróito terá já sugerido ao leitor que eu sou, digamos, gordo. Pois bem, é verdade. Caso eu um dia participasse de um concurso literário, e um qualquer bambúrrio me guindasse ao lugar vencedor, estou certo de que as notícias diriam, “Temos em terceiro lugar um bom escritor, em segundo lugar um excelente escritor, e em primeiro lugar um gajo gordo, que parece que também escreve umas coisas”. C’est la vie

Mas nem tudo está perdido, pois ando a fazer dieta. Perdi até agora vinte quilos, e actualmente a balança falante do centro comercial limita-se a dizer, “Porra, que você é mesmo gordo” (antigamente, costumava gritar muito alto, em tom aflito, “Socorro, tirem o elefante de cima de mim”). Afora isso, uso o cabelo muito curto, quase rapado, que é para pesar menos, cara escanhoada, nas raras vezes em que me barbeio, casaco surrado e pouco limpo sobre camisa amarrotada, e calças no mesmo estado, a compor um ar geral de desmazelo, a que uma gravata distinta e sempre renovada fornece uma nota de divertido contraste. À parte isto, sou gordo.

Os restantes lugares são algo variáveis, ocupados como são por gentes de índole mais nómada, e mais afeita a variar. À minha frente, tanto se pode sentar o Zé Eduardo como o Rui Constâncio, duas figuras que importa aqui retratar, se a tanto me chegar a tinta que sobrou, após as vastas pinceladas requeridas pela minha volumosa barriga. O melhor instantâneo que posso fazer deles é o seguinte, se algum dos dois tentasse viajar de avião, durante um estado de alerta, passaria um mau bocado no aeroporto.

Não se dá isto porque tenham ar de terroristas. Nada de confusões, pois têm ambos ar de terroristas, e de que maneira, mas não é só isso. Vultus índex animi, o rosto é o espelho da alma, e, no caso deles, vultus índex tavoli XIX, o espelho daquela faceta da mesa 19 que é essencialmente anarquista, e não se consegue impedir de ver a destruição espalhafatosa como senda de progresso, e o camartelo como instrumento civilizacional. Entre os dois, um é mais espalhado e demolidor na crítica, o outro mais preciso e acerado, são talvez diferenças de idade, mas a essência é a mesma. São, de resto, invariavelmente intransigentes, e estou certo de que, caso tivessem feito parte da milenar seita dos assassinos, chefiada pelo lendário Velho da Montanha, que decidia quem devia ou não ser morto, o primeiro a ser assassinado seria mesmo o Velho, e lá ficava a seita sem mestre. É mesmo assim que eles são, não perdoam. Para além disso, são dois tipos impecáveis.

Estes são, digamos assim, os comparsas diários, mas há também os eventuais, os que, em vez de aparecer, vão aparecendo. Dentre os históricos, há que destacar o Paulo Sousa, pela originalidade de continuar a frequentar a mesa 19, tendo embora deixado de lá almoçar. Depois de compartilhar a refeição do meio-dia com a sua cara-metade, o que faz a coberto de um sigilo que a maioria das pessoas reserva para a amante ilegítima, de preferência do mesmo sexo, e seropositiva, o santola esgueira-se até à mesa 19, onde gasta o seu bom quarto de hora a olhar-nos ameaçadoramente, por sobre a borda do copo. Depois, esgueira-se, como a brisa por uma janela entreaberta, ou uma sapateira que vislumbra uma rocha convidativa. Mas é tarde demais, pois já ficou no retrato. Aquele casaco de cabedal, que ali vedes a esvoaçar junto à porta, era ele.

Histórico é também o Catarino, sendo bem mais recente o Carlos Lopes. Não é por acaso que aqui os junto, em pincelada promíscua. Para além da semelhança óbvia, que é a raridade com que somos honrados com a presença de qualquer destes beneméritos, eles compartilham ainda um mesmo aspecto, que não pode deixar de figurar nesta pintura: eles são excelentes pessoas, pessoas cuja boa índole é, talvez, boa demais para a nossa mesa. É coisa magnífica, o ser-se boa pessoa, mas tende por vezes a embotar outras qualidades, como o sarcasmo, o cinismo, e a maledicência. E daí, serão talvez eles quem tem razão. Não sei, realmente não sei. Afora isso, distingue-se o Catarino por ser o melhor técnico de assadura de sardinhas de que há memória em terras deste reino. Fazendo-lhes em breve esquiço o boneco, nota-se com facilidade que, entre os dois, não juntariam cabelo com que sujar o chão de uma barbearia, um por o trazer rapado, outro por não ter já grande coisa para rapar. Mas, nisto de cabeças, conta menos a cagadela de pombo na testa do que a merda que vai lá dentro, que é como quem diz, do crânio para fora, pouco interessa.

E, last but never the least, temos um terceiro Carlos, desta vez, o Silva. Perdão, não é bem assim, permitam-me que recomece. Peço então, estimados senhores, a vossa vénia e aplauso para o mui preclaro jurisconsulto, o bacharel Carlos Silva. Ecce homo, ei-lo que avança em direcção à lendária mesa 19, no que promete ser o encontro de duas lendas. A basta cabeleira, onde a respeitabilidade das cãs se alia à força anímica do azeviche, ilumina os tenebrosos meandros do restaurante, enquanto prossegue com destemor. A fronte alta guarda os mistérios do quid das coisas, o alfa e o ómega das leis que regem as gentes humanas, e os humanos destinos. Eu, porque escrevo uma crónica, posso sempre ir preso. Em igual pena incorrerá o Zé Eduardo, porque a não escreveu. Mas só o Carlos, bastião da jurisprudência, estará em condições de determinar quem será de facto deitado aos calabouços, e porquê. Só daquela efígie leonina sairá a explicação, as razões, com todos os de jures e de res, que determinarão o nosso porvir. O Carlos, a quem aqui se tece justificado, e de há muito preterido louvor, não goza, contudo, do subido estatuto que caberia a tão insigne legislador. E a que se deve, perguntar-me-ão, semelhante injustiça?

Pois bem, o problema é muito simples. É que um perito em leis, em formas de regulamentar a sociedade, isto é, em normativos, tem tanta procura na mesa 19, como um perito em disfunção eréctil num congresso de lésbicas. Eu serei talvez a excepção (tipo, a lésbica um bocado mais puta, no dito congresso). Eu acho piada a essa coisa de leis, e gosto de ver a lógica que preside à adequação da forma ao conteúdo. Mas, para ser franco, eu gosto de lógica. Gosto também das expressões formais, com abundância de locuções latinas, que revestem normalmente as leis. Mas, para ser franco, eu gosto de latim.

Pronto, sem querer, acabei por fazer, nos parágrafos anteriores, um retrato ainda mais fiel da minha própria pessoa. Pintei ainda, também sem querer, o melhor retrato possível da mesa 19. O resto, que é serem uns gordos e outros carecas, ainda é o que menos interessa. Aí tendes, posta em ceia, a nossa mesa 19, e, se um tal de Da Vinci vos vier dizer que o quadro dele é melhor, mandai-o falar comigo.

Nota: é evidente que muita gente ficou de fora, nesta pintura. Isso era inevitável, sob pena de se refazer a tal “Última Ceia” em versão Monty Python, com trinta e seis apóstolos, três Cristos (“o gordo compensa os dois magrinhos”, segundo eles explicavam), e um canguru. Não posso contudo omitir o excelente Paulo Mendes, presença sempre saudada na nossa mesa. Se não figura na pintura principal, é mesmo só por falta de espaço (eu sou um bocado gordo, não sei se já tinha dito isto), mas não deixará nunca de ser uma parte desta obra, que nós a cada dia vamos pintando.

2.21.2007

77 – O mundo sem a mesa 19 (divagações sobre a depressão).

Nestes dias peculiares, em que tenho chegado para almoçar já em tempo de fim de repasto, por mor de um horário idiota, imposto por razões idiotas, a fim de realizar um trabalho idiota, tenho por vezes ficado sozinho à mesa, após a debandada da mesa 19. Nada de confusões, a mesa 19 não é um conjunto de pernas de madeira e alguns tampos, é o conjunto vivo dos seus comensais. Sem eles, a mesa 19 está ausente, e eu fico ali meditabundo, fantasma do momento errado, ou do momento que me errou, enquanto acabo o meu vinho, e observo vagamente o que se passa à minha volta.

O restaurante é uma coisa diferente, após a mesa 19. A Vânia, a Marta, o próprio Vítor, falam comigo noutro tom, um pouco como se eu estivesse ali sozinho. Pondero distraidamente esse facto, e ocorre-me que talvez o façam, subconscientemente, por eu estar ali sozinho. O gesto dá um novo significado à solidão, e a coisa, no seu todo, não é muito diferente de estar exilado numa ilha deserta, só que com miúdas giras, a arrumar as mesas à minha volta. Mas isso pouca diferença faz, pode-se sempre estar só, mesmo no meio de uma multidão.

Naquele triste e ledo fim de tarde, pergunto a mim próprio o que faria o bom Luís Vaz de Camões, no meu lugar. Provavelmente fazia um soneto, ou então fazia o mesmo que eu, só que evitaria piscar o olho à Marta, porque senão deixava mesmo de ver um boi à sua frente. Não quer isto dizer que eu esteja a ver um boi à minha frente, pois a Marta até é bastante magrinha. Mas enfim, adiante…

O ar condicionado lembra algo que Andy Warhol poderia ter feito, se lhe faltassem as latas de sopa, e a toalha usada faria as delícias de um amante do cubismo. Estranhamente, vem-me à memória o filme “Je t’aime, moi non plus”. Trata-se da história de uma rapariga que se apaixona por um rapaz que faz de homem num casal de homossexuais, mas chega à conclusão que ele não se ajeita lá muito bem com moças, e só o poderá ter se lhe der o rabo. O problema é que ela não consegue fazê-lo sem grandes uivos de dor, pelo que acabam sempre por ser expulsos de todos os motéis, bem a meio da festa. Farto de coitos interrompidos pela porteira, o rabeta acaba por preferir o amigo, que sempre tem a vantagem de não gritar, isto para além de ser mesmo homem, e o filme acaba com os dois a partirem num camião, abandonando-a, nua e desesperada, no meio de um campo de trigo, imagem de rara beleza. O trigo também não é feio.

Isto não é, obviamente, a história da mesa 19 (nós também uivamos, vez por outra, mas nunca durante a hora do almoço). Mas é uma boa metáfora da solidão. Melhor, não é uma metáfora, é uma explicação. É claro que o filme permite diversas leituras, mas a minha interpretação pessoal sempre foi inequívoca. Trata-se aqui de exclusão, tanto exclusão social como exclusão afectiva, e a mensagem é que a exclusão resulta de uma situação minoritária. As maiorias excluem as minorias, e isso é uma lei invariável da natureza.

O tour-de-force genial do filme é colocar a habitual maioria, a jovem heterossexual, numa posição minoritária. Afinal de contas, só há três personagens, e dois são homossexuais. Como resultado, eles entendem-se entre si, e ela é excluída. No dia em que o mundo for gay, os poucos hetero que restarem terão de andar a esconder a sua vergonhosa orientação sexual. Será a vingança dos paneleiros, que não deixarão de inventar novos termos ofensivos para os outros, os actuais machos.

A mesa 19 não é gay. Pelo contrário, julgo até que chegamos a exibir certos sintomas que não envergonhariam o Zézé Camarinha. Mas somos minoritários, de um modo geral. Melhor, somos todos sobreviventes do nosso estatuto minoritário. É por isso, e não por sermos um bando de javardolas, que nós gritamos muito, e causamos distúrbios. É que nenhum de nós bate muito bem da bola. Estamos todos habituados a lutar pelo nosso lugar, e, quando nos faltam adversários, acabamos por lutar uns com os outros.

É coisa que se vê muito na nossa mesa, um de nós a disputar, com fúria, que o carvão é negro, enquanto o outro vocifera, sem perder terreno, que não é, não senhor, é mas é preto. Junta-se um terceiro que, apaziguador, quer mostrar que o carvão, seja lá como for, é sempre escuro, mas caem-lhe em cima os dois primeiros, com redobrada raiva, sustentando que ele não quer senão baralhar as premissas, quiçá para proveito próprio. Na falta destas disputas, chateamos a Vânia.

Meditava eu, na minha solidão, em toda esta mesa 19 que ali me faltava, quando de súbito o patrão, emitindo um grito de guerra, saltou por cima do balcão, indo encaixar-se, a cavalo, nas espáduas do Vítor. Chicoteando-lhe o flanco com uma ementa, mandou-o galopar para o mercado, pois tinha de comprar urgentemente uma potência irracional de postas de salmão. O outro discordou, com um relincho, mas não lhe valeu de nada.

Entretanto, a Vânia e a Marta apareceram para limpar a sala, completamente nuas. Meu Deus, o que eu ando a perder, por sair de cá cedo demais. Confesso que olhei para a Marta, e embasbaquei. Como é que eu nunca os tinha visto, assim pendentes, lindos e sensuais, desafiadores? Que brincos maravilhosos!

Chamei a Marta, respeitosamente, com uma palmada carinhosa no traseiro fofo. Pedi-lhe mais vinho, mas ela garantiu que tinha ordens severas do patrão, e só me poderia oferecer um jarro se eu a beijasse apaixonadamente. Estava para concordar com a proposta, quando a Vânia se interpôs, gritando que era tudo uma grande treta, e que aquilo não passava de um plano da Marta, para me fazer casar com o Vítor.

Gritou ainda que, se tudo aquilo fosse mesmo verdade, também ela teria vindo nua. Ainda lhe apontei que ela vinha de facto assim, mas retorquiu-me, abespinhada, que isso agora não vinha ao caso. Foi então que me acordaram, para me perguntar se queria mais alguma coisa. Uma vez desperto, voltei a ser minoritário.

Melancólico, saí do restaurante, em busca de um táxi. O motorista era um tipo simpático, já meu conhecido de outras viagens, mas não pude deixar de notar que ele era quase o oposto de uma jovem modelo, bela e nua. Como disse Pessoa, falando da sua hipotética morte, “Vai depois dizer a essa estranha Cecily / Que acreditava que eu um dia seria grande. / Raios partam a vida, e quem lá ande”.

2.15.2007

76 – E, finalmente, o referendo.

Por toda a parte, o pasmo dos rostos espelha a interrogação generalizada. Em esquinas sombrias, no desvão de portas escusas, ou emparedado no lusco-fusco protector de becos antigos, se ouve soprar, em murmúrios temerosos, a pergunta candente: por que razão é que, volvidos tantos dias, ainda não abordaram as crónicas a questão do referendo?

O ponto que importa perceber é este, existem dois tipos de crónicas. Isto é obviamente mentira, existem vários, mesmo muitos, até, tantos quantas as próprias crónicas, mas pronto, digamos que são dois, que é para não fatigar excessivamente as meninges do esforçado leitor. De acordo com este critério, necessariamente tão arbitrário como qualquer outro critério, podemos dividir as crónicas em “sérias”, e “menos sérias”. De uma forma geral, as sérias defendem a reformulação da sociedade, por via, frequentemente, da reestruturação de mentalidades, e as menos sérias defendem a fundação da utopia, ou melhor, a assumpção de uma utopia que passaria a existir, uma vez assumida, e fazem-no frequentemente por via de meios duvidosos, como o regresso à idade média, a evocação de fantasmas, ou cobrir tudo de salmão. Só uma diferença basilar separa os dois tipos: as crónicas menos sérias assumem o disparate como um facto, enquanto as sérias tentam mostrar, por meio da lógica, que o disparate é um facto.

Dito isto, é importante esclarecer que o referendo é, para mim, um assunto muito sério. É claro que, quando digo o referendo, estou a referir-me a O Referendo, o que teve a sua reprise no passado dia 11 de Fevereiro, quando se decidiu a questão da interrupção voluntária da gravidez. Acontece que se trata de um dos poucos temas sérios da actualidade sobre os quais eu tenho uma firme opinião, e que me dei ao trabalho de esmiuçar com algum detalhe, a fim de reforçar ou desmentir as minhas ideias (uso intencionalmente a palavra “sérios”, para que não me venham chatear com coisas como a exposição indecente das amêijoas, a legitimidade de incluir cuecas comestíveis no cozido à portuguesa, ou o auto-erotismo como forma de ganhar o euromilhões, temas que também absorvem grande parte das minhas cogitações).

Não é despiciendo o uso de maiúsculas no parágrafo anterior, quando aludo ao referendo, se considerarmos que se trata do único referendo que trinta e três anos de democracia conseguiram produzir, neste cantinho à beira-mar plantado. Seja como for, a importância do tema, na minha opinião, seria sempre merecedora de uma crónica séria. Ora bem, o que acontece é que eu ando um bocado farto de escrever coisas sérias. Tenho muito a dizer sobre a questão do aborto, mas, se não me levam a mal, fica para uma outra vez.

A restrição, contudo, aplica-se ao aborto, e não ao próprio referendo. Sobre esse, não me importo mesmo nada de discutir o que é, de debater o que não é como se o devesse ser, de falar do que nunca será como se o fosse já, bem ao jeito, desfasado da realidade, da nossa mesa 19. Vamos ao referendo, portanto, como Santiago aos mouros.

Falando, em primeiro lugar, do presente referendo, houve de facto uma coisa que, desde o princípio, me deixou surpreendido. Ouvi todo o tipo de auto-proclamadas sumidades discutirem, ad infinitum et ad nauseam, o conteúdo da pergunta a referendar, mas, curiosamente, ninguém avançou com grandes argumentos sobre o conteúdo da resposta. Ora, quanto a mim, um referendo sério não se pode limitar a um seco “sim” ou “não”. Que diabo, a vida não é a preto e branco. Aqui fica, como sugestão para uma próxima tentativa, um leque de respostas que considero mais justo:
- Sim.
- Não.
- Só se a rapariga for de uma família aceitável e conveniente.
- Se forem mesmo muito pobres, e o marido for bêbado, o prazo deve ir até além do nascimento. A mulher poderá ainda, caso o pretenda, abortar o marido, com a ajuda de uma pistola.
- Além da IVG, dêem-lhe também um voucher para um fim-de-semana com o namorado, num bom motel. Afinal de contas, porquê limitar a coisa a um único aborto?
- São só dez semanas? Porra! O que vale é que a minha secretária está bem treinada, e vai negar tudo.
- Porcalhões. Por que é que não se limitam ao sexo oral? Hum? (voto invalidado, por vir assinado pelo diácono Remédios).

Mas, enfim, basta da questão do aborto. Aquilo que mais me surpreende, neste grande festival de democracia, é que não se referende mais nada. Não estou a gozar, qualquer norueguês está habituado a ser chamado, domingo sim, domingo não, a pronunciar-se sobre a condução da sociedade em que se insere, o que me parece bem. Nós, por cá, é só aborto, como se a vida de cada um se passasse entre decisões de abortar, ou não abortar. E agora pergunto eu, e quando não há nada para abortar, hein?

Ocorre-me, assim de repente, a questão do aeroporto da Ota. É hoje geralmente aceite que o novo aeroporto é um disparate, sobretudo se feito ali, e os defensores da solução da Ota dão pelo nome genérico de otários, mas, cadê o referendo? É no mínimo curioso que eu seja chamado a pronunciar-me sobre a decisão íntima e pessoal, que em nada me diz respeito, da dona Joaquina, de Freixo-De-Espada-À-Cinta, e não tenha uma palavra a dizer sobre o ruinoso investimento de vários milhões, arrancados aos meus impostos, na destruição de um ecossistema insubstituível, com vista a construir um aeroporto disparatado, que ninguém quer, onde ninguém o quer, excepto uns quantos proprietários de terrenos. Mas, a haver referendo, estou seguro de que a pergunta seria, “concorda com a construção deste aeroporto, ou prefere uma alternativa que os poderes económicos não deixarão de inviabilizar, levando à construção deste aeroporto? (possibilidades de resposta: Sim; Sim; Não, porra, mas o que é que eu hei-de fazer?).

Pondo de lado estas tristes realidades, resta falar do nosso referendo, do referendo que se impõe: o referendo da mesa 19. Diversas hipóteses se nos deparam aqui, mas, considerando a natureza rebelde e disparatada da nossa mesa, opções há que se impõem. Aqui ficam elas, pelo que possam valer:

Pergunta: concorda com a liberalização dos digestivos a todas as mesas, desde que aplicada somente à mesa 19, após terem sido bebidos os habituais licores, ou mesmo antes, desde que depois, ou até, em circunstâncias excepcionais, imprevisíveis, ou indefiníveis, desde que devidamente regulamentado?
- Hã?
- Como?
- Desculpe?
- O que foi que disse sobre o meu rabo?
- SLB! SLB! SLB!
- Estou apaixonado pela Marta!
- Tudo bem, desde que o Alberto João não venha cá.

Pergunta: gostaria de ser servido, neste restaurante, por meninas em topless?
- Sim.
- Sim, porra.
- Sim, porra (com baba).
- Sim, desde que seja a Marta. Ou a Lana. Ou outra miúda qualquer.
- Sim, desde que não seja o patrão. Ou o Alberto João.
- Sim. Sim. Sim.

Pergunta: gostaria de encontrar na ementa pratos requintados, como cabrito assado à padeiro, ou umas favas bem cozinhadas?
- Sim.
- Sim, desde que servidos por empregadas em topless.
- Sim, desde que servidos pela Vânia, vestida como ela quiser (estou a brincar. Topless, é claro).
- Sim, desde que servidos pelo patrão em pessoa. O prato, nesse caso, deverá ser o Alberto João, com um molho de orégãos e manjericão, e um pouco de salsa nas narinas.

Pergunta: deseja terminar esta crónica, visto que já não há mais disparates de jeito para dizer?
- Sim.
- Sim, por favor.
- Ou isso, ou alguém me mate (pode ser o Alberto João).
- Não, gostaria de escrever mais algumas páginas, e… aaaarghhhhh!

2.14.2007

75 – Um peixe chamado Vânia.

Almocei hoje na mesa 19, mas confesso que não sei dar conta do que por lá se passou. Não se deve isto, como alguém poderia supor, a qualquer imoderação da minha parte no uso de bebidas espirituosas, mas tão-somente ao facto de lá ter chegado já em tempo de digestivos, pelo que me limitei a comer e pagar a conta (dispensava bem essa última parte, mas adiante). O almoço foi salmão, o que me deu alguma matéria para pensar.

Serve esta crónica para falar do salmão, das matemáticas a ele associadas, e dos perigos e consequências que tudo isso acarreta. Compreendem, tudo começou há dois dias (dois dias úteis, quero eu dizer), quando constatámos, com gáudio e regozijo, que a ementa nos propunha, em rodapé, salmão grelhado. Compreender-se-á facilmente o nosso alvoroço, quando eu explicar que pouco peixe se pode usualmente encontrar naquele restaurante, sendo esse pouco de um género que nos levaria a hesitar antes de o oferecer a um gato esfaimado, pelo fundado receio de deixar o bichano seriamente ofendido. Achar ali salmão foi, portanto, uma festa para nós.

Consequentemente, imagine-se a nossa consternação, o pasmo e a dor que nos assolaram a alma, ao sermos informados de que havia, precisamente, uma posta de salmão! Como se dava tal fenómeno, uma única posta, exacta e aritmeticamente contada, quando éramos nós os primeiros clientes a chegar? Convocada de imediato a Vânia, interrogámo-la com desassombro. Aprendemos então que a gerência tinha tido o cuidado de adquirir, para prover àquelas centenas de almoços, precisamente três postas do dito peixe. Não se dando por inteiramente satisfeitos com tal medida, contudo, trataram ainda de comer duas delas, antes de abrir as portas ao público.

Como é natural, censurámos severamente a Vânia, por ludibriar desse modo soez os nossos legítimos anseios e expectativas. Intimámo-la, carinhosa mas firmemente, a que não voltasse a anunciar em lista um prato, quando para o satisfazer dispunha apenas de um parco exemplar do manjar proposto. A moça pareceu contrita, e prometeu emendar-se. No dia seguinte, o salmão voltava à lista, estando desta feita disponíveis duas postas.

A princípio, tomámos isto como um progresso, modesto mas estimável, e digno de encorajamento, mas soubemos depois que, desta vez, não tinham sido compradas três postas, mas apenas duas, tendo-se a casa, todavia, abstido de as comer! Todos abanámos a cabeça, num gesto de comiseração, e evitámos comentar o facto.

A nossa sensação de que nem tudo estava bem deve, no entanto, ter sido pressentida, e hoje (terceiro dia, portanto), dispúnhamos já de quatro postas de salmão. Foi aí que se fez luz no meu espírito, e compreendi tudo: eles decidiram passar a comprar o peixe numa progressão geométrica!

A ideia, devo admiti-lo, deixa-me um pouco inquieto. É certamente agradável saber que, nos próximos três dias, contaremos com oito, dezasseis, e trinta e duas postas, respectivamente. Isso é tudo muito bonito, mas, e depois? Quero dizer, eles saberão realmente onde se estão a meter, caso insistam em seguir por este caminho?

A coisa é do mesmo género daquela história que se conta sobre o inventor do xadrez, o qual terá pedido ao rei da Pérsia, como recompensa, um grão de trigo pela primeira casa do tabuleiro, dois grãos pela segunda, quatro pela terceira, e assim por diante. O rei achou o prémio modesto, e rapidamente empenhou a sua palavra. Feitas as contas à dívida, descobriu-se que seria necessário dar ao inventor toda a produção mundial de trigo, durante vários anos. E eram apenas grãos de trigo, que são assim umas coisas a modos que muito pequeninas. Imaginem a coisa, agora, com postas de salmão.

Se a aritmética me não atraiçoa, o décimo segundo dia brindar-nos-á com duas mil e quarenta e oito postas, o que obrigará cada cliente a comer, pelo menos, uma dezena de doses. Nos dias seguintes, os números disparam, tornando economicamente inviável que se almoce, em toda a área metropolitana de Lisboa, qualquer coisa que não seja salmão. No vigésimo dia, o governo aprovará uma lei, obrigando todo o sector da construção civil a usar postas de salmão, em vez de tijolos. Dois dias depois, os PDM serão revistos, no sentido de aumentar o volume de edificação permitido, a fim de escoar o excesso de matéria-prima.

As sobras da cozinha, ao vigésimo quinto dia, serão ofertadas ao Ministério do Interior, que as usará para construir, ao longo da nossa costa, um vasto atol artificial, que tornará a área de Portugal continental no quádruplo da de Espanha. Com os restos dos dois dias subsequentes, constroem-se as primeiras vias rápidas de ligação entre o continente, e os Açores e Madeira.

Neste meio tempo, George W. Bush interessa-se pela ideia, e compromete-se a livrar-nos do excesso de produção, como contrapartida pelo uso da base das lajes para torturar prisioneiros de guerra. No Pentágono, vivem-se dias de entusiasmo, face à perspectiva de alienar toda a frota da U.S. Navy, e passar a lançar ataques de tanques, directamente a partir da baía de Miami.

Passado um mês, o restaurante abre falência, por falta de fundos para comprar mais salmão. Na mais recente versão do Atlas Mundial, ainda no prelo, poderá ler-se que o nosso planeta é constituído por uma quarta parte de terra, três quartas partes de salmão, e a ribeira de Barcarena.

E quanto à mesa 19, que começou tudo isto? Bem, nós somos um bocado do contra, e, para dizer a verdade, andamos a pensar seriamente em deixar de comer salmão. Só falta agora decidir uma coisa, qual o prato que vamos passar a exigir? Eu voto no faisão trufado (sem frango).

74 – A epopeia da Távola 19.

Algumas estadias em casa, devidas à necessidade de cuidar de um filho doente, levaram o autor a embrenhar-se em cogitações, mais do que conviria à sua imbecilidade natural. De várias meditações sobre o referendo próximo, questões de ética laboral, e uma complexa análise comparativa entre as apostas no euromilhões e o gato de Schrödinger, para já não falar nos cogumelos, resultou um estado de espírito filosófico, e portanto chato, que se reflectiu inevitavelmente nas crónicas. Para aligeirar o ambiente, a presente crónica foi escrita, a pedido, pelo fantasma de Sir Drinkalot, que está morto há mais de mil anos, e bastante farto disso, também.

Com mil e seiscentos diabos, que artimanha do Demo temos aqui, agora? Quem sois vós, bofé, que vos permitis interrogar-me? Explicai-vos sem delongas, senhores, ou será a ponta da minha espada a fazer as despesas da conversa. Cuidais que haveis de tratar com um vilão, ou com uma dona? Desenganai-vos, por minha fé! Eu sou Sir Drinkalot, cavaleiro da távola quadrada número 19, honra e flor do reino de Camelot. O fio da minha lâmina é a minha credência, o ferro dos meus guantes a minha embaixada. Dizei, pois, sem melindres ou rodeios, que coisa intentais obter de mim.

Que palavras ouço, ou julgo ouvir, e que crédito hão elas, que tão inverosímeis se me afiguram? Pretendeis, pois, que vos narre aqui, despejadamente, a história e a glória da távola 19? Forte pretensão é a vossa, e uma que não estou seguro de poder satisfazer, eu que melhor que a palavra manejo a espada, lâmina que jamais desembainhei sem justiça, nem voltei a guardar sem honra. Enfim, intentarei o que puder, para vossa satisfação, e assim o esforço me alcance a salvação da alma imortal.

A távola 19 governa o reino de Camelot, é o seu centro, e a sua luz. Foi, em tempos milenares, uma távola redonda, de que outras crónicas guardam fiel memória, mas veio a assumir a actual forma rectangular, a fim de permitir a qualquer cavaleiro em dificuldades o acto de se aliviar, mijando nos cantos. Em torno da vetusta távola, estende-se o mui nobre reino de Camelot, palavra evidentemente derivada da quantidade de camelos que ainda hoje a rodeiam, e lhe prestam vassalagem.

Muitas histórias têm sido narradas, nestas crónicas, sobre a távola 19. Não discordando da substância factual de cada uma delas, devo todavia insurgir-me contra o tom ligeiro e modernaço de que se revestiu a narrativa das sagas. A távola 19 é uma instituição antiga, medieval, que só perde com essas modernices de mau gosto. Sei bem quem é o culpado disso tudo, não é outro senão o autor, esse vilão que bem queria ser nobre mas é apenas pobre. Põe-se para aqui a parlapatar tolices sem sentido, e vá lá uma pobre alma, que apenas sabe a língua pátria, pôr a cabeça à razão de juros para o entender. Ainda no outro dia, pelos folguedos do seu natalício, o ouvi falar num “homem do talho”. Os tratos que eu dei ao juízo, meu rico São Jorge, até compreender que ele se referia, muito simplesmente, ao uchão ali da esquina.

Recentemente, contudo, a mesa 19 entrou em combate. Cavalos de batalha foram ferrados, armaduras lustradas e areadas, maças de armas sopesadas, e postas à mão de semear. Aconteceu apenas esta coisa singela e magnífica, a um tempo natural e inesperada: o ofício de matador de dragões, que cada cavaleiro, até aqui, exercia de forma graciosa e voluntária, passou de súbito a ser remunerado, uma bolsa de oiro por cada dragão morto. Isto causou uma revolução entre os cavaleiros, tanto mais que, diga-se a verdade, o regime de voluntariado vigente sempre fora um pouco prejudicado pelo costume instituído de empurrarem o cavaleiro em causa para a toca do dragão, por mais que o desgraçado esperneasse.

Mas o pior foi que a justiça, que jamais fora apanágio deste mundo de cavaleiros, há que dizê-lo com frontalidade, pareceu ausentar-se por completo deste processo. Assim, correu o boato de que a equidade, neste caso, faria as vezes de umas cuecas tipo tanga, que tapam tudo mas deixam o rabinho à vista. Segundo se dizia, o rei iria lançar a alguns o seu saco de oiro, dizendo apenas aos outros, Sois grandes matadores de dragões, continuai o vosso bom trabalho, que todo o reino vos agradece.

Foi aqui, face à arbitrariedade da decisão, que os cavaleiros em causa responderam à uma, num brado caracteristicamente medievo, Ide todos para a pata que vos pôs, e, se quereis os dragões caçados, caçai-os vós mesmos.

Veio-se a descobrir depois que, afinal de contas, não era nada disto, e sempre haveria ouro para todos. O rei terá enviado a mensagem por todo o reino, mas mensageiros houve que se atardaram mais, quiçá por mor de outros afazeres. Como diria um diácono que viveu mil anos depois de mim, digam-me lá, meus amigos, se havia alguma necessidade…

A chatice foi que, com tal desordem de procedimentos, com tais protocolos na comunicação das ordens, o desânimo tornou-se mais profundo, em vez de melhorar. Os dragões, esses, foram ganhando terreno. Parece que, nestes tempos conturbados, já ninguém os quer caçar, nem mesmo a peso de ouro.

2.06.2007

73 – Razão.

Victrix causa diis placuit, sed victa Catoni.

És um idiota, disse-me recentemente uma pessoa amiga, presumivelmente com alguma intenção construtiva. És um idiota, repetiu, e não tens razão nenhuma. A realidade factual não se conseguiu pôr à altura das eventuais intenções construtivas, e, da diatribe, sobejou apenas o juízo de valor, eu sou um idiota, e não tenho razão nenhuma.

Isto de ser um idiota não me preocupou em demasia. Eu próprio, seja como for, já há muitos anos acalentava essa suspeita, pelo que a sentença ferina não me causou mossa de grande monta. A questão de não ter razão nenhuma, no entanto, deu-me em que pensar.

Tenho pelo menos o conforto de não estar só, neste deserto de não ter razão nenhuma. Já há muitos séculos o grande Catão se queixava do mesmo, e também não lhe ligavam nenhuma. A frase que abre esta crónica, traduzida (para todos menos um, como diria o Catarino), vem a significar, “A causa vencedora agradou aos deuses, mas a vencida a Catão". O homem era de facto um paladino das causas perdidas, e via-se com frequência acusado de não ter razão. A coisa, tanto quanto se sabe, nunca o incomodou muito.

Nestes dias que antecedem o famoso referendo, um tema que está na berlinda é a liberdade de escolha. Fala-se, ad nauseam, dos direitos que detém a mulher que concebeu um filho, e da sua liberdade de o não gerar. Discutem-se com calor pontos delicados, como a diferença subtil entre a liberdade de escolher matar um filho, e a liberdade de escolher não o conceber. Mas começa a parecer-me, a mim, que todo este festival de liberdades se esgota na paridura. Se não é isso que está em causa, não se fala mais de liberdade, e pronto.

Serve esta crónica para defender a liberdade de escolha, mesmo nos casos, bem distintos do aborto, em que essa escolha que se pretende tomar em liberdade é impopular, ou, no mínimo, raras vezes debatida, pelo que não dispõe de uma falange de apoiantes, publicamente assumidos. Está neste caso, por exemplo, a escolha, feita com objectividade e consciência, de não se ter razão, mesmo nenhuma.

Por certo que o direito a não ter razão é bem mais defensável do que o direito ao aborto por opção. Tal como no caso da interrupção voluntária, tem os seus casos de isenção excepcional, como sejam os imbecis, os doentes mentais, todos aqueles que não têm, plausivelmente, aquele mínimo de condições exigível para se ter razões. Também se aplica a este direito um dos argumentos mais queridos dos liberais, “Quem é que nunca o fez?”. Bem, no caso do aborto, julgo que muita gente, mas não creio que haja alguém capaz de se gabar de nunca se ter visto na situação de não ter razão.

Nunca Catão se preocupou com as razões dos outros. Ele tinha as suas próprias razões, e é irrelevante discutir se tinha ou não razão. Defendeu bravamente os seus pontos de vista, até que o mataram, mas isso foi só para lhe darem razão. Bem diz o povo que, neste mundo, quem tinha razão era o outro, e o outro é sempre o morto. Desde esse dia, nunca mais Catão deixou de ter razão.

(É importante não confundir Catão com Catilina, a quem um dia perguntaram, “Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?”, o que vem a dar, em língua,”Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?”. Isto deu origem a um étimo, Catilinária, que mais tarde degenerou em Calinada).

O fundamental, aqui, é a liberdade. Na minha opinião – e há liberdade de opinião, ou assim espero – na minha opinião, dizia, não deveríamos estar a referendar o mero caso da interrupção voluntária da gravidez, mas sim a questão mais vasta da liberdade de escolha, fundada, evidentemente, na liberdade de crença. Afinal de contas, faz algum sentido que uma mulher tenha a liberdade de matar o seu filho, fundada na crença de que ele não é ainda uma pessoa, e me seja negada a mim a liberdade de matar o meu chefe, que eu creio sinceramente que é uma abóbora assassina, vinda de Marte para me lixar o juízo?

Como diz o professor Martelo, assim não! Conceda-se livremente o direito de abortar, seja às 10 semanas, seja logo após o nascimento – estou convencido que, para o feto, não fará grande diferença –, mas não me privem a mim do direito de faltar sistematicamente ao emprego, porque acredito firmemente (e, de igual modo, sem qualquer razão válida), que o meu patrão é uma grande tangerina azul, e eu sou alérgico a tangerinas dessa cor.

A minha tese é absurda, mas não deixaria de colher argumentos a seu favor, caso fosse a debate público. Espero que toda a gente concorde que a lei deverá ser mudada, no dia em que a liberdade de ser irrazoável, inimputável e inconsequente for favoravelmente referendada pela maioria da população. Nessa altura, talvez se calem por fim com a história de quando um feto é uma pessoa. Tenha a idade que tiver, ele ou é meu, ou não é. Se não for, a minha responsabilidade é nula. Se for, posso fazer dele o que quiser. De uma forma ou de outra, mato-o, por ser meu filho ou por ser meu chefe, o que é que isso interessa?

Ou será que acham que eu não tenho razão? É que, se quiserem, também podemos falar sobre isso.

P.S. A mesa 19 também às vezes não tem razão, e isso não nos incomoda. Mesmo quando nos falta a razão, nós cá temos as nossas razões.

2.02.2007

72 – A Marta.

Alto-mar, preia-mar,
Baixa-mar, mar morto.
Baixa-mar, baixa-mar,
Bai chamar pai a outro.


A Vânia hoje baldou-se, presumivelmente para estudar (eu acho que foi, na verdade, para se repoltrear no mais iníquo e desenfreado pecado, mas adiante). Teve isso como consequência sermos servidos pela Marta, o que é uma experiência semelhante a substituirmos o peixinho vermelho lá de casa por uma enguia eléctrica, e meter depois a mão dentro do aquário. Numa simples palavra, bem ao gosto do James Bond: Shocking.

Aquilo não é uma mulher, é um dínamo. Não se passa um minuto sem a termos ao nosso lado, saltitante, tentando limpar um cinzeiro que apenas contém uma ponta de cigarro, ou levar pratos e copos que acha que não fazem falta (o fazerem ou não falta, de facto, é um factor despiciendo e irrelevante, que pode perfeitamente ser ignorado, nesta equação). Ela substitui jarros de vinho que não estavam sequer vazios, propõe-se trazer isto ou aquilo, faz o diabo a sete. É quase como ser servido por um cruzamento entre o Benson, mordomo preto da série americana, e o He-Man!

A moça tem também alguns defeitos. Hoje, por exemplo, trazia uns brincos inenarráveis, muito semelhantes a algo que a Floribela poderia ter comprado no Martim Moniz. Censurei-lhe severamente as excrescências, mas tenho de admitir, para ser inteiramente justo, que já no dia anterior a Vânia se tinha apresentado, com as unhas pintadas de um tom tipo Morangos “sou gay” com Açúcar, cor-de-rosa, que em nada lhe favorecia os piercings. São modas.

São, todavia, modas perniciosas. Como diria o bom do diácono, Qualquer dia, hum, andam por aí a tatuar os nomes dos antigos namorados, naquelas zonas traseiras, hum, que são tradicionalmente território da cueca. Depois, quando o novo namorado manifestar ciúmes, pedem-lhe que resolva o assunto com umas valentes nalgadas, bem por cima dos tais nomes, e quem sabe, hum, as porcarias que farão depois. É que o pecado anda à solta, meus irmãos, e vós, se sabeis o que vos convém, deveis ir para junto das vossas famílias, e orar. Ide, pois, e deixai lá ficar em paz as nalgas alheias. Isto, pelo menos, hum, é o que eu penso, não é?

A Marta tem ainda outras vantagens. Para além de ser simpática e saltitante, entre várias coisas, ela ainda nos leva a sério. Se lhe pedimos umas ervilhas com ovos escalfados, sem frango, ela esforça-se conscientemente por nos satisfazer o pedido. A Vânia, pelo contrário, já não nos liga nenhuma, nem quando lhe pedimos a conta.

Eu disse já, em crónica muito antiga, que a Vânia é a nossa terapeuta, e a Marta é uma das nossas tratadoras. Mas, digam-me lá, de quem é que o gado gosta mais? Do veterinário que lhe espeta uma agulha, ou do tratador que lhe dá um torrão de açúcar, apesar das recomendações do clínico? É certo que, no nosso caso são, sobretudo, cheirinhos bem servidos, mas o princípio é o mesmo.

Se eu quisesse discutir os pervertidos pontos de vista de Freud, esse grande tarado, ou as dúvidas de Descartes sobre a sua própria existência, iria provavelmente ter com a Vânia, mas, para me rir um bocado, desconfio que escolhia a Marta. Isto não implica qualquer juízo de valor, as coisas são como são, e pronto.

Volto, ainda, a insistir na questão dos cheirinhos. Ambas são liberais, neste particular, mas a Vânia consegue sempre mostrar que aquilo é um favor especial, e que não tínhamos realmente direito a ele. A Marta, pelo contrário, serve-nos, e pronto.

Resta apenas explicar a relação entre esta crónica, e o poema inicial. Pois bem, tal como na questão do aborto, eu exerço a minha liberdade de escolha, e escolho não a explicar. Estou nesse direito, e pronto. De resto, imaginem que a coisa não tinha qualquer relação? Como é que eu ia explicar fosse o que fosse? Não pensaram nisto antes, de certeza! Ah pois, pois é.

1.31.2007

71 – De mortuis.

Porra, isto já é perseguição. Eu bem que tento ser um rapaz sério e bem comportado, mas parece que há um demónio perverso e badalhoco, que não me larga. Hoje, por exemplo, saí mais cedo, com toda a compostura e gravidade, a fim de comparecer a um velório. Ao chamar o táxi, com toda a solenidade que a ocasião requeria, o telemóvel brindou-me com uma voz irritante, informando que tinha menos de um euro de saldo. Feita a chamada, o ecrã mostrou a quantia restante, 69 cêntimos!

Já chega, caramba! Desde que escrevi uma crónica, imprudentemente javarda, subordinada ao tal 69, a coisa não tem parado. Ele é 69 para aqui e para ali, 69 em todo o lado, até no telemóvel. Tanto 69 já me começa a despertar a ideia de pôr a coisa em prática, mas há obstáculos. É claro que podia engatar uma miúda simpática, mas teria de começar por a convidar para jantar comigo, e é a isso que eu não me atrevo: estou certo de que a conta importaria em 69 euros.

Mas isto foi apenas um desabafo, pois não é dessas poucas-vergonhas que hoje se trata. Tout court, serve esta crónica para falar da morte, fenómeno em si próprio simples, mas ao qual nunca resistimos a associar tanta coisa complicada. Tomem-se, apenas a título de exemplo, as disposições do acordo de trabalho do meu sector, no que respeita a ausências ao serviço por falecimento de um parente próximo.

A questão surgiu hoje, em volta da mesa 19: quais os direitos que me assistiam, no caso de morte de uma tia (tias legítimas, das que são irmãs da mãe, e não aquelas de Cascais)? Muitos aventaram que eu teria direito a dois dias de ausência. Eu nem sequer queria tanto, bastava-me um para poder assistir ao funeral, e viria trabalhar no seguinte. Mas nunca gostei de me apropriar indevidamente fosse do que fosse, pelo que me dediquei, apenas regressado ao local de trabalho (por assim dizer), a compulsar a legislação existente. Foi aí que, imperceptivelmente, entrei na quinta dimensão.

Aprendi, com pasmo e estupefacção, que a morte de uma sogra me concede o direito a ficar em casa cinco dias (presumivelmente, serão três para comemorar, e dois para a ressaca). Por coincidência, tragédias como a morte da minha mulher, ou – pior ainda – de um filho, horrores capazes de destruírem a vida de um homem, são contempladas com os mesmíssimos cindo dias. A tia, pelo seu lado, não dá direito a nada, e pronto.

Mas a coisa ainda piora. A morte de um irmão, provável alma gémea, que desde a infância pertenceu à nossa vida, ou de um neto, anjo arrebatado na flor da mocidade, quantas vezes mais amado que um filho, dispensa do dever laboral, apenas, durante dois dias. Findo este prazo cruelmente escasso, há que engolir as lágrimas, fazer das tripas coração, e comparecer ao serviço. Sobre coisas destas, costumava perguntar o Jô Soares, E pode? E logo respondia, É claro que pode. O que ainda nos safa é que resta sempre a possibilidade de matar a sogra, logo a seguir.

Entendamo-nos: o passamento da puta da velha, que tipicamente se chama Gertrudes, e cuja morte apresentou o único inconveniente de ter demorado tanto a acontecer, concede ao trabalhador uma folga de cinco dias, para se ressarcir do presumível desgosto. Em compensação, o desastre do neto Joãozinho, tão querido e amoroso, que teve a infelicidade de ir desta para melhor quando caiu do baloiço, deixando os avós prostrados e inconsoláveis, apenas oferece aos ditos avós dois dias para se recomporem. Será que isto se percebe? É claro que se percebe. Afinal de contas, putos há muitos, e pode-se sempre fazer outro. Sogras, por outro lado, tendem a rarear, sobretudo ao ritmo a que a malta as vai matando. Trata-se, afinal, de um caso da mais elementar justiça.

O próprio termo, justiça, é em si próprio questionável. Recordo-me que já o Victor Hugo contava, nos seus Miseráveis, a história de uma jovem recém-casada, que procura o seu pai, lavada em lágrimas, queixando-se de que o seu marido lhe deu uma estalada. O pai, após ponderar a questão, presenteia a soluçante filha com um sonoro chapadão nas trombas, daqueles de criar bicho, e diz-lhe, “Pronto, estás vingada. Vai dizer ao teu marido que, se ele bateu na minha filha, eu bati na mulher dele”. Pois é, são conceitos diferentes de justiça, e eu entro a desconfiar que os juristas que regulamentam as ausências ao trabalho também leram este livro.

Os exemplos absurdos não faltam, para mal dos nossos pecados, e desgraçada desta crónica, se os tivesse de narrar a todos. A questão do referendo à IVG, por exemplo, tem sido fértil em disparates, tanto de uma parte como da outra. Não quero de modo algum enveredar por esse assunto, mas não resisto a contar uma curta história.

Vi recentemente uma reportagem, sobre uma paraplégica que necessitou de fazer um aborto. Não teve qualquer culpa da sua gravidez, que se deveu à interacção de um novo medicamento, com a pílula contraceptiva, levando esta a perder o efeito (sim, até as paraplégicas têm direito a ter vida sexual). Dado que a sua condição física (malformação do útero) a impedia de levar a bom termo uma gravidez, e implicava sério risco de vida para ela, dirigiu-se aos competentes serviços de saúde, munida do atestado que o médico lhe fornecera. Estava dentro da lei, com os diabos, e não tinha nada a temer.

É aqui que a história se torna surrealista. A senhora é recusada por todos os hospitais aonde se dirige, e onde lhe chegam a dizer, “Isto é um sítio onde se vem para parir, e não para abortar”. A solução poderia ser encontrada por via legal, mas as tais 10 semanas não deixam muita folga à nossa morosa justiça. Acossada, a pobre senhora fez o que qualquer outra faria: foi abortar a Badajoz.

Isto, a meu ver, é um ponto importante. Os defensores do Sim dizem que urge acabar com uma situação iníqua, na qual as mulheres são obrigadas a ir ao estrangeiro, se têm posses para tanto, ou sujeitar-se a condições indignas e degradantes, no caso contrário. Mas acontece que, mesmo nos casos em que a lei actual já permite a IVG, as tais condições dignas não existem, e o aborto legal, na prática, faz-se nos mesmos termos do clandestino. Se mudarmos a lei, de que é que isso vai adiantar?

E assim vamos vivendo. Por todo o país se discute, com garra e paixão, a hipótese de trocar uma lei que não funciona, por uma outra, igualmente ineficaz. O meu patrão, pelo seu lado, vai-me dizendo que a morte da minha sogra, que eu provavelmente empurrei pelas escadas abaixo, é tão grave para mim como morrer-me um filho, e duas vezes e meia mais grave do que morrer-me um neto. E isto já não causa espanto a ninguém. Estupidez? Não. É só uma forma de estar na vida.

70 – Surrealismo.

Sim, bem sei que me estiquei um bocado na última crónica, e devo por isso uma desculpa aos pacientes leitores. Eu não tinha nada, realmente, de me pôr a falar de uma série de porcarias que não vou sequer referir aqui, como lambidelas de genitais, chupadelas de membros viris, e garrafas metidas no orifício anal. Escusam de recear os leitores que eu volte a mencionar quaisquer actos porcalhões de sexo oral, tal como não os menciono neste parágrafo. Isso foi meramente um fait divers, arrumado e encerrado. Acabaram-se de uma vez por todas as glandes sugadas em delírio, os entrefolhos percorridos por línguas sôfregas, as… enfim, percebem a ideia.

A fim de elevar o nível deste fórum, lembrei-me de falar sobre arte. O tema, tanto quanto me consigo recordar, é virgem nestas páginas. Houve, efectivamente, uma ocasião em que me ocorreram alguns pensamentos assaz profundos sobre Claude Monet, mas aconteceu que, de cada vez que os tentava escrever, a maldita caneta atraiçoava-me, e saía minete. Tentei então escrever sobre isso, e terei certamente o cuidado de incluir esses textos no livro que darei um dia à estampa, enquanto estiver a cumprir a minha pena de seis anos de cadeia, por depravação. Até lá, reservo-os, para não ficar sem assunto.

Vem tudo isto confirmar aquilo de que já todos suspeitávamos, que eu não sou propriamente uma pessoa muito culta. Não é que seja estúpido, de forma alguma, e ainda não cheguei ao ponto de confundir as grandes obras do mestre Picasso com a grande pica de aço do mestre-de-obras, mas a minha cultura artística deixa, mesmo assim, muito a desejar. Entendo-me razoavelmente bem com Rembrandt e Van Gogh, mas sou incapaz de distinguir Andy Warhol de um saco para a reciclagem, e Picasso tem sempre o condão de me lançar num estado de mente psicopático e confuso, que a geometria fractal jamais me produziu.

Serve esta crónica, já que para alguma coisa tem de servir, para falar do Rui Cardoso, que nos demonstrou hoje a sua, até agora insuspeitada, intenção de se dedicar à arte. Não o fez por palavras, meio que seria talvez banal e corriqueiro. Não, optou, ao invés disso, por nos demonstrar na prática a sua vocação.

Para esse efeito, começou por entornar na mesa, em posições cautelosamente estudadas, dois em cada três bocados da comida de que se servia. Alguns cuidaram que ele estava a ser simplesmente um javardolas, mas as mentes mais finamente habilitadas para a coisa artística apreenderam sem dificuldade o cerne da questão: o Rui estava a criar.

Nódoa a nódoa, ia-se desenhando, na toalha que já fora branca, uma obra de arte. Que retrato se compunha ali? Que coisa, perguntar-me-ão vocês, representaria o produto final? Pois bem, significaria o mesmo que usualmente significa, quando se trata de arte deste género. Nomeadamente, que o autor reconhece que levou ao limite extremo a cagada que podia fazer naquela mesa, pelo que desiste de aperfeiçoar ainda mais a sua obra.

A arte restaurativa processa-se de acordo com determinados parâmetros, e ainda bem que assim é. São esses parâmetros que asseguram que o erro na conta não ultrapassa uma certa percentagem, e garantem que as relações de cariz insultuoso com clientes de outras mesas não ultrapassam um certo limite, mantendo-nos desse modo a salvo de um processo judicial, que seria de outro modo inevitável.

E é assim que todos nos entendemos. A arte cagatória do Rui será um dia apreciada, ou então não. À nossa volta, e por toda a parte, gente continuará a lamber, a chupar ou a enfiar. É assim que a vida funciona, e não há nada que possamos fazer a esse respeito. O bacalhau das segundas-feiras continuará a ser à minhota, e grande parte dele será entornada sobre a mesa. Isto não é javardice, é apenas arte.

1.26.2007

69 – … E vira!

Sinto-me no dever de avisar que este post, ao contrário da maioria dos outros, não é próprio para todas as audiências. Às pessoas púdicas, recatadas, moralistas, ou simplesmente sofrendo de momentos de bom gosto, recomendo que ignorem esta entrada, e se dediquem às próximas. É que eu hoje ajavardei um bocado, e não sei se toda a gente será capaz de lidar com isso.

Pronto, tinha de acontecer. Guiados cegamente pela mão de ferro das inexoráveis progressões aritméticas, as tais que fazem suceder o três ao dois, e o vinte ao dezanove, chegámos finalmente, inevitavelmente, à crónica 69. Conhecendo como conheço esta malta de ginjeira, estou mesmo a ver o que é que esperam de mim. Pois bem, desiludam-se, eu sou um autor sério, e não tenho a menor intenção de me pôr a escrever sobre essas porcarias.

Parece quase que foi ontem que o Paulo escreveu, em comentário a uma crónica remota, julgo que seria a 9, ou então a 10, “aceito que, quando chegares à crónica 68, saltes directamente para a 70”. A coisa era uma piada, então, e ninguém cria sinceramente que as crónicas um dia chegassem tão longe. Quanto caminho se percorreu entretanto, quantos disparates foram já derramados sobre as inocentes páginas deste blog. Quantas coisas importantes se disseram, também, e será que valeu a pena dizê-las?

O 69, em si próprio, é apenas mais um número, sem nada que o distinga de tantos outros números. Vi um dia, por exemplo, um prédio que era o número 38, e juro que nada tinha de especial. Eu próprio moro numa casa que ostenta o número 7, e não me ando propriamente a gabar disso.

Acontece apenas que o 69, por figurar dois algarismos em posições inversas, se tornou na designação de um acto sexual bastante badalhoco, em que o casal interveniente assume, de facto, essas posições inversas, alambazando-se em seguida numa espécie de javardeira a dois. O número em si, coitado, não tem culpa de nada, e nem chega a lamber coisa nenhuma, nesta improvisada ice-cream party do erotismo.

A pobre da matemática, desgraçada, é que é abusada neste lamentável processo. Mas não faz mal, a matemática está bem habituada a sofrer abusos destes, e já nem liga nenhuma. Recordo-me que, há tempos, a marca favorita de cachaça, no Brasil, era a 51. Isto levou à criação de uma nova posição sexual, o 120. Segundo explicam os entendidos, um 120 consistiria em executar um 69, com uma garrafa de 51 metida no cu.

Tudo isto são badalhoquices vergonhosas, indignas do elevado quilate deste blog. O 69, concretamente, é uma invenção pérfida e peçonhenta, com todas as trocas de fluidos corporais, suor, e sei lá eu que mais, já para não falar de todas aquelas lambidelas. A língua fez-se para louvar o nome do Senhor, meus irmãos, e essa é que é essa.

Considere-se por exemplo um jovem casal, homem e mulher unidos pelos santos laços do sagrado matrimónio. Naturalmente, ao longo da sua vida em comum, hão-de surgir problemas. Há pois que discuti-los seriamente, impõe-se o diálogo honesto, abertura franca de mentes, sob os paternais auspícios da Santa Madre Igreja. Pois bem, o que fazem eles? Em vez de dialogar, dirigem os seus lábios, justamente, ao pólo oposto da questão. E a jovem esposa, reconfortada, cuida que resolveu os seus problemas porque, ao invés de conversar com o seu marido, amo e senhor, lhe chupou a gaita. Ele, pelo seu lado, tem a boca cheia de pelos, e nem o vinho lhe sabe bem. Ora digam-me lá, vale a pena condenarem-se assim às fogueiras do Inferno duas almas tementes a Deus, apenas por uma mamada?

Não, a coisa assim não pode ir lá. Como diria o célebre Diácono Remédios, qualquer dia, se não tomam cuidado, andam por aí a lamber postes de telefone, e os homens a terem orgasmos de cada vez que chupam umas patas de sapateira. Depois, quando menos se precatam, desatam a enfiar o que tiverem à mão em tudo quanto é orifício, e foi assim que Sodoma se lixou.

Há coisas que não temos o direito de permitir, que é forçoso condenar. A Santa Madre Igreja, cujos padres não estão autorizados a dar uma queca, é que sabe como se hão-de dar as quecas. Comer o rabo à empregada doméstica está dentro dos limites, mas um 69 com a mulher legítima é algo fora de questão. Já se for feito com um menino do coro, por trás do altar, o caso muda completamente de figura. Afinal de contas, os padres, porra, também são seres humanos.

E, perguntam-me vocês, como se relaciona a mesa 19 com esta polémica questão? Pois bem, com muita tranquilidade. Somos sobretudo, como já tive ocasião de aqui mencionar, um grupo de pessoas normais, com atitudes normais. Nunca ocorreu discutirmos ali tal assunto, mas estou firmemente persuadido de que aquela gente conhece o 69, e não é por ter lido sobre ele na Internet. Do mal, o menos, no entanto: julgo que ninguém, por aquelas bandas, é adepto do 120.

Quanto ao resto, creio que o próprio Deus recomendou, no primeiro livro da Bíblia, o livro do Génesis, que nos amássemos e multiplicássemos. O primeiro conselho é bom, quem é que não gosta de fazer amor? Mas ninguém consegue passar o tempo todo a multiplicar-se. É que não é humanamente possível, simplesmente. Nesses casos, um bom 69, de vez em quando, vem muito a jeito, para variar um pouco.

1.25.2007

68 – Videntes e Adivinhos.

Aquele que não sabe, e não sabe que não sabe, é um imbecil: matai-o.
Aquele que não sabe, e sabe que não sabe, é um ignorante: ensinai-o.
Aquele que sabe, e não sabe que sabe, é um sonhador: acordai-o.
Aquele que sabe, e sabe que sabe, é um génio: imitai-o.


Dedica-se a epistemologia, como tivemos hoje ocasião de debater, a estudar o conhecimento. Nela se discute o que conhecemos, e de que forma o conhecemos, quais as coisas que podemos realmente conhecer, e quais as que são, pela sua própria natureza, incognoscíveis. Esses mecanismos estão longe, ainda hoje, de ser bem compreendidos. Ninguém sabe, por exemplo, de que forma certas pessoas são capazes de prever que um avião vai cair, enquanto outras parecem simplesmente incapazes de apreender o facto óbvio de que nos estão a incomodar, e deveriam fingir que vão cagar, e não voltarem.

Dá-se ao primeiro grupo o nome de videntes, enquanto os segundos respondem normalmente pela designação genérica de imbecis. A distinção entre as duas categorias, contudo, é com frequência bastante ténue. Tentemos então analisar esse fenómeno, a fim de perceber melhor o que as diferencia.

Li recentemente, num blog, que dois videntes americanos foram convidados para opinar, num programa de televisão, sobre o rapto de um miúdo, desaparecido meses antes. A primeira destas luminárias presenteou os abatidos pais com a nova de que a criança estava morta, enterrada numa floresta. O segundo viu o petiz igualmente morto, mas nas traseiras de um camião. Um deles, não recordo agora qual, avançou ainda a útil descrição do criminoso, um indivíduo de raça negra, alto e magro.

All’s well that ends well, como já dizia o velho Shakespeare, e a história veio a conhecer o seu feliz desfecho dias depois, quando a polícia conseguiu finalmente encontrar o rapazito, extremamente vivo e bem conservado, para quem passara vários meses enterrado numa floresta nas traseiras de um camião, ou lá o que era. A mesma investigação permitiu deter o raptor, um homem caucasiano, baixo e gordo. Enfim, não se pode dizer que as previsões tenham saído completamente furadas: as autoridades são unânimes em admitir que não se trata, efectivamente, de uma mulher esquimó, coisa que nenhum dos dois sábios tinha sequer insinuado.

Como é usual em casos destes, deu-se um jeito à coisa, varrendo os cacos para debaixo do tapete. Os pais deram-se por satisfeitos com o Happy End, o que é perfeitamente compreensível. Afinal de contas, tinham o filho de volta, o que era tudo o que lhes interessava. Os dois ilustres videntes, esses, lá continuam a andar, e não consta que as suas carreiras tenham sofrido qualquer revés de monta. Au contraire, os respectivos negócios prosperam, e as clientelas continuam florescentes. É caso para comparar esta história a um daqueles quadros do “Onde está o Wally?”, e desafiar o leitor a encontrar os imbecis que estão aqui em causa. Para ajudar, vou só dar uma pista: não são os dois videntes.

Também em Portugal temos casos destes. Vi em tempos, num inenarrável programa da TVI (sim, eu sei que isto é uma redundância), uma coisa tipo Jerry Springer, mas com menos porrada, mas vi, dizia eu, a história, narrada na primeira pessoa, de uma jovem de vinte primaveras, bem apessoada e bonita, de aparência inteligente e culta, estudante universitária, pelo que depreendi. Conta-nos então a menina que, um ano antes, teria consultado uma vidente (sim, não é gralha, uma vidente), e que esta lhe haveria profetizado a morte, inexorável, do decurso de implacáveis doze meses.

Vendo-se forçada a lidar com o que, para ela, constituía um facto tão indiscutível como pôr-se o sol a ocidente, o que fez a nossa heroína? Pois bem, tratou de realizar todo o capital que conseguiu, recorrendo a créditos bancários (que, naturalmente, não iria pagar, já que estaria morta), e dedicou-se a viver o melhor possível o seu último ano, espatifando o dinheiro desonestamente adquirido.

Ora bem, terminou o ano e o guito, e a menina, vá lá alguém imaginar uma coisa destas, continuou viva, e a vender saúde. Pior, não apenas viva, mas também falida, e a braços com uma dívida do tamanho do orçamento de um porta-aviões. O que decidiu então a genial criatura fazer? Obviamente, processou a vidente.

A coisa toda parece uma anedota, bem sei, e eu não teria sequer acreditado na história, se não a ouvisse da própria boca da protagonista, que, claramente, não via nada de mal naquilo que narrava. Entre este molusco acéfalo, a multidão de outras amêijoas como ela, a equipa de produção que dedica um ror de horas a fazer o programa, e os milhões de cidadãos que o vêm, e acham aquilo tudo natural, volto a perguntar, onde está o imbecil? Tal como no caso precedente, faço a ressalva: não é a vidente.

Veio toda esta diatribe, que já vai ficando longa, a propósito do Rui Cardoso, que nos garantiu hoje, à mesa, ter lido a crónica de ontem, apesar de não ter estado cá. Por momentos, a mesa 19 tremeu. Tínhamos um iluminado entre nós, um profeta, um adivinho. Mas cedo se instalou a decepção, quando ele se mostrou incapaz de prever os números do euromilhões da próxima semana.

Isso, de resto, sempre constituiu para mim um mistério indecifrável. Por que cargas de água é que uma pessoa omnisciente, capaz de saber sobre mim coisas que eu próprio desconheço, tem a necessidade de subsistir à custa das magras dezenas de euros que vai conseguindo extorquir a um bando crédulo de idiotas? Por que raios é que não se limita a adivinhar o próximo número premiado na lotaria, garantindo assim o provimento das suas necessidades até ao fim da sua vida (cuja duração exacta, aliás, tem a obrigação de conhecer)? Os tais clientes, que ela diz só pretender ajudar, não são capazes de pensar nisto? Mais uma vez, onde é que está o imbecil?

Mas pronto, não bato mais no ceguinho. Como citava Conan Doyle, não me lembro já de que fonte, un sot trouve toujours un autre plus sot, qui l’admire. Ou, como se diz em Portugal, há sempre um pé torto para calçar uma chinela velha. São leis de mercado, nada mais.

Nota importante: a história do rapazinho americano foi retirada, com a devida vénia, do blog “Que Treta” (http://ktreta.blogspot.com/). Trata-se de um blog muito diferente desta bandalheira da mesa 19, que mistura tudo no mesmo saco. Não, aquele é um blog sério. Para quem ainda preze o discurso inteligente, a lógica analítica, aplicada com clareza e despretensiosimo, o cada vez mais incomum senso comum, ou simplesmente a velha arte de bem dizer as coisas, este blog não é recomendável. É obrigatório.

1.24.2007

67 – Roma está a arder.

Foi desta, agora é que a bomba explodiu. Desabaram as muralhas de Jericó, o faraó deixou fugir os escravos israelitas, Hitler executou finalmente o último judeu. Pior do que tudo isto, a Vânia disse hoje (treme-me a língua, só de o relembrar), “Este restaurante é um lambajão. É uma tasca”. Quebrou-se, por fim, o último selo do Apocalipse.

Este restaurante é um lambajão. É uma tasca. Palavras memoráveis, que ainda hei-de um dia fazer gravar em bronze, numa placa que há-de ficar colocada sobre a porta de entrada, isto se não vier a cair mais tarde, partindo os cornos a qualquer cliente incauto, desses que cuidam que é sem risco que se adentra aquele santuário. A ser esse o caso, a placa ficará mais caída, o palerma mais morto, mas tudo o que a autópsia ressalvará serão as indeléveis palavras, Este restaurante é um lambajão. É uma tasca.

Serve esta crónica para falar deste restaurante, do tal que é um lambajão, uma tasca, e do que a mesa 19 pensa a esse respeito. Não, nem tanto disso, que as nossas opiniões têm sido já abundantemente registadas, ao longo de sessenta e tal crónicas. O que a mesa 19 pensa acerca dele é irrelevante, o nosso restaurante é um daqueles factos da vida. Existe, está ali, e pronto.

Soubemos hoje, contudo, que o nosso restaurante faz mais do que estar simplesmente ali. Concretamente, parece que é um lambajão. Isto levanta, evidentemente, sérias questões morais, éticas e epistemológicas, a que não podemos ficar indiferentes. Começo, só para ilustrar a magnitude do problema, pela primeira de todas: o que é, exactamente, um lambajão?

Pois bem, é humildemente que confesso a minha ignorância. Sei tanto o que é um lambajão, como sei por que raio é que os troianos resolveram trazer para dentro de portas um cavalo de madeira, daqueles que toda a gente está mesmo a ver que vêm cheios de soldados gregos. A coisa tem, pelo menos, o mérito de explicar o que é um presente de grego. Fica contudo por explicar o lambajão.

A consulta ao dicionário deixou-me na mesma. Na Internet, um motor de busca simpático sugeriu-me que verificasse lingueirão, mas continuei sem saber o que teria um molusco bivalve, aparentado com a amêijoa, a ver com a mesa 19.

Há ainda o Azerbeijão, mas trata-se de uma hipótese que se me afigura remota. Não, tive de reconhecer que o lambajão é uma palavra por mérito próprio, à semelhança de aventesma, avantesma ou abantesma, com o seu significado particular e inquestionável. Quem sabe se o étimo em questão não se prenderia com as pataniscas prometidas para amanhã? Nestes casos, é sempre melhor não fazer muitas perguntas, e levar guardanapos.

Resta, contudo, a parte final da frase da Vânia. Que o restaurante seja um lambajão, é algo sobre o qual estamos já de acordo, mas é que ele não se contenta em ser um mero lambajão. Não, ele é, para além disso, uma tasca.

Ora bem, a esse respeito, está a Vânia claramente equivocada. O nosso restaurante, ela que tranquilize o seu espírito, não é, nem jamais foi, uma tasca. Não, isso é algo de que ninguém o poderá nunca acusar.

As tascas são sujas, coisa que este restaurante não é. As mesas, nas tascas, são decrépitas e mal apresentadas. Nesses antros, somos servidos por estalajadeiras velhas e desdentadas, mais arruinadas ainda que o estabelecimento. Mais importante ainda, come-se muito bem, nas tascas.

Fica assim a coisa bem esquematizada e definida. O nosso restaurante não é uma tasca, helás, e não é também um lambajão, não, pelo menos, até descobrirmos que gaita é isso. Até lá, continua a ser o mesmo. Uma casa sóbria e respeitável, que tolera a mesa 19, ao mesmo tempo que se orgulha da mesa 19, tudo isto enquanto se envergonha da mesa 19. Quanto ao resto, é apenas um bom restaurante. A comida é que podia ser um bocadinho melhor, mas paciência, não se pode ter tudo. De resto, que mais poderíamos esperar, num restaurante que julga ser um lambajão?

1.23.2007

66 – A bestinha.

Cometi recentemente um erro. Afirmei, em crónica transacta, que a ultima, o retrato fidedigno, e só incidentalmente infactual, da minha morte, seria a crónica 66. Naturalmente, relacionei tal coisa com o meu suposto falecimento, donde a alusão à besta, que seria obviamente a do apocalipse, em versão reduzida. Pois bem, erro meu, má fortuna, amor não sei que mais. A crónica 66 é esta, e a besta, desiludam-se os meus caros amigos, parece que afinal não sou eu.

Pois bem, perguntará o leitor interessado, quem é então a besta? Certo é que se trata aqui de um mero 66, e não do 666 completo e inteiro, a besta lidada em toda a sua corpulência e magnitude. Não, aqui temos de nos haver com um simples 66, uma bestinha, quando muito, espécie de papa-formigas que substitui os leões, neste circo pelintra que é a vida de todos nós.

Contudo, mesmo um circo delapidado continua a ser um circo, e não é por isso que o devemos menosprezar. Não há leões, bien entendu, e vemo-nos forçados a substitui-los por outra bicharada, mas isso não tem remédio, estando portanto remediado à partida. Falta apenas saber algo, onde estão de facto esses papa-formigas, quem são eles, concretamente? É aqui, justamente, que a porca torce o rabo, o que só tende a aumentar a barafunda, visto que não há qualquer porca neste circo.

No meio desta confusão zoológica, há todavia um animal que triunfa, a bestinha. A bestinha é um daqueles bichos que Lineu não teve a pachorra de descrever, mas que nem por isso deixa de ter existência real, para mal de todos nós.

Tome-se, por exemplo, a estimada colega que tive o prazer de aqui descrever, duas crónicas atrás. Ela é, claramente, uma bestinha. Isto, concretamente, porque é uma besta, mas não tem categoria que chegue para ser A Besta, a do B maiúsculo. Não, ela é sem dúvida um sinal do Anti-Cristo, mas está bem longe de ser a Besta do apocalipse. Podem os povos ficar tranquilos, que o Armagedão ainda não chegou, por mais bestas que por aí andem.

Isto é, sem dúvida, uma questão pertinente e actual. O evangelista João profetizou o fim do mundo, e garantiu apenas que o Anti-Cristo seria uma besta. Hoje em dia, cercados por todos os lados de criaturas desta espécie, não podemos deixar de nos questionar, de onde virá o nosso fim?

O que nos falta, nos tempos modernos, é um apóstolo que nos ajude a dissecar as bestas, uma a uma, e nos diga que não, que aquela que ali vemos é só uma bestinha, feia mas inofensiva. Talvez, então, deixássemos de recear a besta, e puséssemos finalmente estas bestas todas no seu lugar.

65 – Ofício de defuntos.

A Vânia ficou aborrecida com a minha última crónica. Diz que não gostou, e só leu metade. Para a pôr bem-disposta, e consolá-la, resolvi escrever sobre um tema que eu tivesse a certeza de lhe agradar. Aqui está, Vânia, esta é para ti.

Como é facilmente compreensível, esta actividade rotineira de escrever regularmente uma crónica desperta alguns problemas, sendo o primeiro dos quais, justamente, o problema de escrever regularmente uma crónica. É que isto não é forja de ferreiro, como dizia o velho Eça, e as crónicas nem sempre estão cá dentro, em fila obediente, aguardando o momento de serem vertidas em papel. Às vezes, a coisa não sai mesmo, e pronto.

É nessas ocasiões que o autor dá voltas à cachimónia, dilacerado entre a necessidade de criar, e o vazio de nada ter que valha a pena criar. Foi despedaçado entre essas duas tenazes monstruosas que eu hoje, à falta de melhor tema sobre o qual discorrer, me lembrei de contar a história da minha morte.

É-me impossível ocultar ao leitor sagaz que se trata de uma história fictícia, como bem o comprova o facto de eu a estar a escrever. Não que eu duvide da capacidade dos espíritos para regressarem ao plano material, e narrarem a sua odisseia, mas custa-me sinceramente a crer que o façam num blog, sobremaneira num que se dedica a contar almoços fora de horas.

Não, a história é inventada, e eu não morri, mas façamos que sim. De que terei eu falecido, é algo que ignoro, mas a escolha é vasta. Enfarte, AVC, falência renal ou hepática, enfim, aqui ou além, deserção ingrata e extemporânea de órgão principal e crítico. Seja lá como for, uma peça primordial da máquina fez a sua greve, e o mecanismo parou de vez. Pois bem, e daí?

Bom, e daí, nada. Por todo este mundo, diariamente, são dados peidos com mais significado do que aquele de que se revestiria a minha morte. Nem pode sequer dizer-se que se trataria de uma grande tragédia. Não, o meu passamento, encarado desapaixonadamente, não é senão o mau fim de uma comédia que teve altos e baixos, é como que uma punchline fraquinha, a dar o final desapontador a uma anedota que não deixou de ter o seu mérito, mas que se estendeu demasiadamente, história muito longa para final tão sucinto.

Mas, sigamos adiante. De mortuis nihil nisi bonun, o morto é que é sempre o bom, o gajo porreiro, quanto mais não seja por estar morto, e o meu prezado cadáver não deve ser excepção. Fale-se então bem de mim, que eu mereço. Afinal de contas, neste velório, eu é que sou o gajo que está no caixão, ou não sou?

As notas necrológicas rezarão que se perdeu para o mundo o autor das crónicas da mesa 19, e a empresa, consciente pela primeira vez de que eu existo, no que vem como sempre atrasada, mandará uma coroa de flores. A mesa 19, ela própria, não deixará de ter um comentário simpático, género, Se o Nuno fosse vivo, já esse jarro não ficava a meio. A Vânia terá certamente uma frase amável e sentimental, e continuará depois a servir dobradas e arroz de polvo. A Marta e a Lana, sinto dizê-lo, não darão por nada.

É por estas e por outras que eu prefiro acreditar na próxima vida. Nessa, pelo menos, posso dedicar-me a assombrar o restaurante, e a mesa 19. Se eu já hoje sou o demónio particular da Vânia, imaginem o que poderia ser amanhã, com todas as vantagens de estar morto, a caveira e a mão esquelética, e a sombra gélida, e a baba gelatinosa, e sei lá que mais. A não existir essa possibilidade, vamos sempre chegar a uma conclusão única: andar por cá, ou não andar, vem tudo dar ao mesmo. E, se duvidam, esperem só até estarem mortos, e depois falamos.

1.22.2007

64 – Mediocridade.

Hoje estou aborrecido. A coisa começou logo mal, à hora do almoço, com a Vânia a fazer-nos guerra, e a dizer-me que se recusou a ler a última crónica, a partir de metade, porque não gostou do que lá escrevi. Respondi-lhe com as palavras de Pilatos, quod scripsi, scripsi, e mostrei-lhe cabalmente que tivera razão no que escrevera. Não serviu de nada, e ela continuou azeda. Eu, pelo meu lado, fiquei estomagado com todo o episódio, e saí de lá a maldizer o dia em que me lembrei de começar a escrever as crónicas.

A Vânia há-de por certo perdoar-me, e fazer as pazes comigo. Já tenho de resto escrita a próxima crónica, que lhe é dedicada, e que lhe irá decerto agradar. Fala da minha morte, aliciante que para ela será irresistível. Quem se deixaria, de resto, de comover com a minha morte, quem é que conseguiria esconder uma lágrima furtiva de alegria?

Mas pronto, o facto é que isto hoje não correu bem, e a parte da tarde afinou pelo mesmo diapasão. Aconteceu embrenhar-me numa douta discussão com um colega, versando um livro que trata do decréscimo de qualidade no ensino da matemática em Inglaterra. Eu defendi que também em Portugal, lamentavelmente, se tem verificado o mesmo fenómeno. A apoiar as minhas teses, tergiversei sobre o estudo, no décimo segundo ano, das estruturas algébricas, e da sua importância para a formação matemática. Foi neste ponto que a idiota de uma colega olhou para mim, e disse (cito ipsis verbis, para não me enganar), Mas o que é que este gajo bebeu ao almoço?

Serve esta crónica para falar de mediocridade, do culto persistente e consistente, se bem que talvez inconsciente, da lei do menor esforço, do menor valor, do nivelamento por baixo. Para discutir, tout court, a imparável proliferação de cerebrozinhos mesquinhos, como o desta desgraçada colega, gente que inverte o axioma da natureza que abomina o vácuo, e optam, ao invés disso, por abominar elas próprias tudo o resto, tudo menos o vácuo em que vivem, contentes e felizes. São os que nada sabem, e odeiam ferozmente quem quer que calhe saber algo.

Para esses energúmenos, a regra é simples: em terra de cegos, quem tem um olho é zarolho, e faria melhor em vazá-lo depressa, antes que os outros gajos descubram que anda ali um tipo que não passa os dias aos encontrões às paredes. É que quem não tem asas costuma levar a mal, quando vê alguém voar.

A lógica disto é escorreita, tu não tens nada que saber o que eu também não sei, e pronto. Perdidos nos primórdios do século findo, ficam os tempos em que uma conversa era uma forma de trocar informações, um mecanismo que permitia às pessoas aproveitar os conhecimentos de outrem para, justamente, ficar também a saber o que essa pessoa sabia. Hoje em dia, uma conversa tende a ser mais uma competição com regras viciadas, em que tudo o que é dito tem de ser previamente conhecido, sob pena de se estar um gajo a armar em esperto. E se alguém se obstina em falar de algo que os outros não sabem, é marcado como um alvo a abater, e acabam por lhe perguntar se não bebeu demais.

A primeira vítima disto, evidentemente, é a filosofia. A filosofia costumava ser uma arte que se cultivava, uma forma de estar no mundo, uma súmula da visão que cada um tinha dos vários aspectos da realidade. Cada conversa era uma oportunidade para aperfeiçoar e enriquecer a nossa filosofia pessoal, submetendo-a a novos factos, ou diferentes visões dos mesmos factos. Nos nossos dias, isso tornou-se algo pura e simplesmente inadmissível. Experimente alguém ter em público uma frase filosófica, e logo vai ver como elas lhe mordem. Aceitável, quando muito, é citar autores, germânicos ou gregos, mas jamais discutir que coisa eles defendiam. As pessoas em nossa volta serão capazes de nos tolerar a sapiência, mas jamais nos permitiriam a ideia.

Assim vai empobrecendo o nosso panorama intelectual. Os blogs com uma ideia escasseiam, a conversa do dia-a-dia é reduzida ao mínimo, ao trivial, à imbecilidade, e espaços como a mesa 19 tornam-se cada vez mais preciosos, ao mesmo tempo em que se tornam cada vez mais raros. E eles fazem falta. Ora digam lá, onde é que se arranja, nestes tristes tempos, alguém com quem ter um bom debate sobre o aborto, ou a política internacional? É fácil discutir o euromilhões, sob o prisma da fortuna que traria, mas quem se interessa por analisar o seu modelo matemático, e estatístico? Com quem ponderar, com sérios prós e contras, a finalidade do nosso Universo, ou a hipotética existência de um Deus? Não é que se discutam forçosamente todas estas coisas em volta da mesa 19, mas o espaço para discussão está lá, um espaço sério sem ser sisudo, irreverente sem ser irrelevante, e espaços destes merecem ser preservados.

Em meio à calamidade geral, a hora do almoço é como que uma ilha de repouso intelectual, em meio ao oceano de estupidez que diariamente navegamos, é o justo repouso do náufrago que passa o resto da jornada a tentar calar o que pensa, que é para não ter de passar por bêbado. E, enquanto nos debatemos nesta luta desigual, vem a Vânia bater ainda mais no ceguinho, pretendendo que dissemos mal da comida do restaurante, e sei lá que mais! Ora, adeus! Estava quase capaz de dizer, Beati paupere spiritu, mas acho melhor calar-me, ou ela ainda se zanga mais comigo. O que vale é que a crónica que vem sempre será mais animadora, pois é aquela em que eu morro. E isso é só a crónica 66, imaginem quando chegarmos à 666.

1.18.2007

63 – Harry Potter e a segunda lei da termodinâmica.

Devido à época dos feriados, que parece nunca mais acabar, o autor ver-se-á impossibilitado de escrever atempadamente algumas das crónicas. Estas serão escritas por autores convidados, em sua substituição. A presente crónica foi escrita, a nosso pedido, pela J. K. Rowling. Ou isso, ou foram os cogumelos que eu comi, que estavam marados.

Harry Potter levantou-se da cama, mal o sol nasceu. A cicatriz da sua testa, em forma de relâmpago (a cicatriz é que era em forma de relâmpago, não a testa, o que seria um disparate), a cicatriz, dizíamos, doía-lhe, latejante, pelo que concluiu que tinha voltado a bater com os cornos na prateleira da casa de banho, quando se fora deitar. Ou isso, ou o terrível Voldemort voltava a ameaçar o mundo dos feiticeiros. Levando em conta o gosto a papéis de música, acabou por se inclinar para a hipótese da prateleira da casa de banho, e foi lavar os dentes.

Harry Potter é um rapazinho que descobriu, cedo na sua adolescência, que era um feiticeiro. Já antes tinha descoberto que gostava de levar revistas adultas para sítios privados, onde se entretinha a mexer no seu corpo, de formas impróprias. Descobriu ainda, casualmente, uma certa inclinação pelos Pet Shop Boys, com a qual está ainda a tentar lidar.

Ao fim de vários anos na escola de magia, Harry Potter foi incumbido, pelo professor Dumbledore, de uma missão secreta, de transcendente importância para todo o mundo mágico. Pediram-lhe nada menos do que isto, que se infiltrasse em certo restaurante, e vigiasse a mesa 19. Segundo o ministério da magia, a mesa 19 possuiria um feitiço capaz de destruir o mundo como hoje o conhecemos, ou, em alternativa, fazer subir ligeiramente o preço do camarão. De uma forma ou de outra, seria um mal, que urgia evitar a todo o custo.

O paneleiróide do puto lá se infiltrou, e o seu intelecto de molusco chegou a estudar a questão. A conclusão a que chegou foi que não havia nada a fazer, visto a mesa 19 ser regida, fundamentalmente, pela segunda lei da termodinâmica, aquela que preconiza o aumento inevitável da entropia em qualquer sistema. De acordo com essa lei, a mesa 19 tende inexoravelmente para o caos, e não há nada que possamos fazer sobre isso.

Esta teoria vem confirmar os presságios mais negros da Vânia, e condenar-nos, a todos, a uma dissolução final, extemporânea e indesejada. Pelos ditames da entropia, nós estamos predestinados a transformarmo-nos em nada, aquele nihil fatal da filosofia germânica. Tudo tende para o nada, e a mesa 19 não será excepção.

Mas não, é aqui que nós nos levantamos, e mostramos o que valemos. A professora Sprout esteve lá hoje, con sus muchachos, mas nós não vergámos. O mundo da magia vale o que vale, mas a mesa 19 é um mundo à parte, as nossas varinhas são outras, e não é qualquer um que nos transforma em sapos, não a nós.

A segunda lei da termodinâmica continua a ser válida para sistemas isolados, mas não para a mesa 19. Connosco, a entropia não aumenta, só aumenta a confusão. Isto pode parecer complicado, mas não é. Nós somos diferentes, e pronto.

Hoje, decidimos que amanhã iríamos comer bem, a outro restaurante. Lealmente, avisámos a Vânia, mas ela não gostou. Sentiu o facto como uma traição nossa. A entropia aumenta. So what?

1.16.2007

62 – Os vampiros.

Eu, confesso-o sem rebuço, tive sempre uma certa pecha, alguma queda, pelo tenebroso oculto. Não seria por acaso que a minha sala privada de chat se chamava “cripta”, não é decerto por acaso que o meu outro blog se chama “sepulcro”. É uma daquelas coisas que fazem parte da pessoa, eu gosto de cadáveres ressuscitados, de almas condenadas que não podem ser mortas, de mãos esqueléticas que, animadas de um propósito sombrio, prendem como garras os membros dos vivos. É por isso, de resto, que eu gosto da mesa 19.

Serve esta crónica para falar dos não-vivos, de assombrações danadas, de avantesmas que se erguem à meia-noite, por entre renques de ciprestes, para devorar a carne e o espírito dos viventes. Falaremos sobretudo dos vampiros, energúmenos do Inferno, que só logram viver através da morte de outrem. Se o tempo o permitir, abordaremos ainda os lobisomens, as múmias, e o senhor José, que vende gelados na praia.

Os morcegos têm as suas grutas para habitar, e o vampiro, encarnação demoníaca do morcego em forma humana, não dispensa igualmente os seus redutos. Um desses refúgios, revela-se aqui em primeira-mão, é justamente o restaurante que nos vem ocupando ao longo destas crónicas, aquele onde se situa a mesa 19. Os altares desse templo são variáveis, sendo um deles, justamente, a supracitada mesa.

Há vampiros na mesa 19, e, bem assim, há vampiros em volta da mesa 19. Destes últimos, foi recentemente apontado o caso da mosca do Paulo, Nosferatu em versão artrópode, que diariamente se faz matar, apenas para reaparecer incólume no dia seguinte. Mas há pior, há também vampiros humanos, veja-se, por exemplo, o caso da Lana.

Não é preciso ser nenhum génio para perceber que a Lana é um vampiro. É loura, é eslava, tem olhos misteriosos, que outras provas querem, com mil diabos? Dizem-me o quê, que ela nunca mordeu o pescoço a nenhum de nós? Pudera, também ninguém lhe deu essa oportunidade. Tivesse-a ela tido, e estou certo de que pelo menos um de nós andaria hoje a encontrar-se com ela, noite alta, por entre as lajes pálidas de um cemitério sombrio. Ela traria um vestido branco e vaporoso, de fundo decote e saia reveladora, e beijaria profundamente a sua vítima, com os seus lábios sanguinolentos e carnudos… porra, em que é que eu estava a pensar, para não ter já alinhado nisso?

Há depois a Marta, um evidente vampiro. Ela nem sequer disfarça, com todas aquelas pinturas e batom. Ela bem brinca e galhofa, mas o olhar revela uma certa frieza, que mostra bem que ela não tem menos de seiscentos e quarenta e oito anos, embora esteja muito bem conservada, para a idade. Até já me lembrei de lhe morder o pescoço, mas não me atrevo, ela era capaz de ser mais rápida.

E há a Vânia, claro. Essa está empenhada no projecto global, a honra e glória do templo dos vampiros. Não pretende sugar-nos um a um, o que ela quer é o sangue da mesa 19. É por isso que nos vai pescando, no seu modo bem feminino: puxa primeiro, dá linha depois, agora com um sorriso de aprovação, logo com um esgar de desprezo, o que é preciso é cansar o peixe. Ou, no nosso caso, a carne.

Mas, aí é que os planos dela saem furados. A Vânia não nos pode vampirizar, porque nós, na mesa 19, somos também vampiros. Pior, somos verdadeiros vampiros profissionais, enquanto ela, coitada, não passa de uma amadora.

Entendamo-nos, todos os comensais da mesa 19 têm a mesma ocupação, ao serviço de uma causa que, como tantas outras por aí, não passa de um cadáver adiado, projecto nado-morto, infeliz intento de mandar um foguete ao sol durante a noite, quando não faz calor. E nós, que honestamente deveríamos firmar-nos na nossa idoneidade, e denunciar a infeliz palhaçada, optamos por sobreviver em meio à necrose, chupando a veia exangue da ideia moribunda. Nós somos todos vampiros, e é por isso que nos damos tão bem ali.

Depois, houve aquele dia em que o patrão veio falar connosco. Estava lua cheia, e as suas presas rebrilhavam, alvas, por entre os negros pelos do seu rosto. As garras crispadas… mas, não, isso fica para outra crónica.

1.11.2007

61 – Floribesta.

A mesa 19, às vezes, não mede bem o que diz, nem o volume da voz com que o diz. Ora bolas, às vezes, o tanas, é mas é sempre. Nós somos uns gajos porreiros, mas também somos bastante desbocados. Isso tende, por vezes, a acarretar consequências mais ou menos infelizes.

Foi esse o caso do recente amuo da turma do Harry Potter, que, arrufada pelo tal comentário que até nem era sobre eles, mas que eles julgaram que era, se passou a sentar na outra sala, longe dos selvagens que não respeitam ninguém. Com isso, a nossa sala ficou muito menos divertida, o que foi pena.

Serve esta crónica para propor que se faça algo para pôr fim a esse estado de coisas, e revitalizar a vertente lúdica e recreativa daquele restaurante. Com isto em mente, fartei-me de dar tratos à bola, e cheguei mesmo a desenhar alguns esboços, vendo-me contudo forçado a desistir, quando cheguei àquele em que o patrão punha um nariz de palhaço, e um tutu de bailarina. As ideias eram boas, sem dúvida, mas ainda não era bem aquilo, ainda faltava qualquer coisa.

De súbito, com o brilho ofuscante de um clarão, fez-se luz no meu espírito. A solução ideal, moderna, arrojada, seria transformar aquele banal estabelecimento num restaurante temático. E nem sequer faltava o tema: o que poderíamos fazer de melhor, do que irmos buscar a inspiração a essa divertida e popular comédia, a Floribela?

A coisa até não seria difícil. A Vânia podia habituar-se a usar umas saias compridas, tipo manta de farrapos coloridos, e a dizer coisas como, Super Hiper Mega Ri-Fixe, de cada vez que alguém lhe perguntasse qual era o acompanhamento da carne assada. É claro que necessitaria pelo menos de uma lobotomia parcial, a fim de adquirir o QI da personagem, mas isso seria apenas um pequeno sacrifício. De resto, dizem que os patetas são muito mais felizes.

Em seguida, teríamos de arranjar um Frederico. Isso era capaz de ser mais complicado, visto que não é qualquer pessoa que serve para o papel. Alguém me sabe dizer onde podemos encontrar um jovem elegante, de barbinha bem aparada, com vincadas tendências pederastas, e aquele ar apertadinho de quem não caga há seis dias? E o aspecto intelectual, como é evidente, também é muito importante. Saber contar até dez, por exemplo, bastaria para desqualificar de imediato o candidato ao papel.

Eleitos os protagonistas, haveria que estudar os respectivos papéis. Esses, felizmente, são de uma simplicidade encantadora. Basicamente, a Floribela gosta do Frederico, e o Frederico gosta da Floribela, e por isso, naturalmente, não namoram. Faz todo o sentido, visto que gostam de pessoas diferentes. Há todavia, outros gostos em que são mais compatíveis, como por exemplo, a preferência que ambos parecem manifestar por homens, sobretudo barbudos.

Julgo que há ainda outras personagens, mas confesso que não faço a menor ideia de quem sejam. Estou no entanto convencido de que qualquer vulgar bando de atrasados mentais poderia, com vantagem, representar esses papéis. Talvez se consiga convencer a Vânia a arranjar alguns psicopatas sortidos, que serviriam perfeitamente.

O resto são pormenores, que não haveriam de dar muito trabalho. A ementa, por exemplo, teria de ser toda escrita de novo, de forma a incluir coisas como “carapaus com molho à Floribela”, “dobrada por baixo do Frederico”, “jardineira desgraçadinha”, “bife à pobre com molho de cantigas”, e outros pratos do mesmo género.

É claro que a característica fundamental da Floribela, aquilo que a define, é a enorme alegria que ela sente em ser pobre. É por isso, de resto, que ela não casa com o Frederico, porque, caso o fizesse, ficaria rica, e já não poderia ser alegre. No mais estrito respeito por este espírito, os preços de todas as refeições teriam de baixar bastante, e o vinho passaria a ser oferecido.

E pronto, aqui fica, em linhas gerais, uma ideia que me parece interessante, e facilmente exequível. Os almoços seriam muito mais divertidos, e a afluência ao restaurante aumentaria enormemente. O ponto alto, evidentemente, seria no fim da refeição, quando a Vânia, dançando ao som do “não tenho nada, mas tenho tudo, tudo”, cantaria a lista das sobremesas. A Marta, em pano de fundo, tentaria beijar o Frederico, que se esquivaria, para ir atrás do Vítor. Ora digam-me lá, em que outro sítio, fora da televisão, é que poderíamos assistir a uma novela destas? Só mesmo aqui, com os cumprimentos da mesa 19.

1.09.2007

60 – Do outro lado do espelho.

Estas já habituais crónicas, bem-intencionadas como são, correm por vezes o risco de, inadvertidamente, veicular uma ideia falsa, a saber, que não há quaisquer outros focos de interesse naquele restaurante, para além da mesa 19. Ora bem, isto não é verdade, não inteiramente, pelo menos. Embora nós sejamos, inegavelmente, a vida e alma daquela casa, a atracção principal, the best show in town, há que reconhecer ao respeitável estabelecimento outros pontos merecedores de um olhar moderadamente curioso. É deles, pois, que hoje nos ocupamos.

Serve esta crónica para falar de algumas figuras pitorescas que podem ser vistas no nosso restaurante, e que, não tendo a vantagem e a glória de ser a mesa 19, não deixariam assim mesmo de atrair o olhar interessado e cúpido de uma madame Toussaud, como possíveis e valiosas adições ao seu célebre museu. Em primeiro lugar, sem dúvida, destaca-se o grupo conhecido como “A turma do Harry Potter”.

São três, dois homens e uma mulher, que faz vividamente lembrar a despenteada professora Sprout, mestra de herbologia. Sprout significa rebento, em inglês, e ela parece-se exactamente com algo que rebentou, estando agora indecisa quanto ao que fazer a esse respeito. Nos bolsos, estou disposto a apostar, transporta a sua provisão de mandrágoras. Estas pertencem a uma casta especial, e não gritam quando são desenterradas, só quando olham para ela.

Os dois cavalheiros que a acompanham fazem um bom conjunto com ela, da mesma forma que um acidente de viação faz um bom conjunto com uma auto-estrada. A forma mais caridosa de os descrever é dizendo que, quando o grande feiticeiro Dumbledore executou a magia que lhes daria origem, algo correu terrivelmente mal. Mas não tão mal, infelizmente, que os impedisse de existir, pelo que ali os temos.

Durante anos, temos convivido com estas caricaturas, na bem-intencionada suposição de que estaríamos na presença de boas pessoas, malgré tout. Essa benévola crença desfez-se hoje, despedaçada contra a escarpada muralha dos factos, como onda que, sem deixar vestígios de si própria, vem agonizante morrer na costa. Deu-se que, por alturas da entrada em cena do trio maravilha, o egrégio Cardoso soltou em voz alta uma exclamação, que em nada se aplicava à dita família Adams. Eles, contudo, tiveram o entendimento contrário, sentando-se de má vontade na mesa adjacente à nossa, de onde se puseram a rosnar comentários boçais e despropositados.

A Vânia, essa santa, mais não vendo do que a postura apertada em que se encontravam os referidos brócolos, veio pedir-nos que nos chegássemos mais contra a parede. Nós, na nossa enternecedora equanimidade, isso mesmo fizemos, sem que tal merecesse sequer um aceno de agradecimento, por parte daqueles grotescos. Ainda pensámos desfazer o que tínhamos feito, mas era já tarde.

Durante todo o almoço, meditei tirar um desforço do insulto, algo subtil e elegante, refinado, tal como virar-me para eles, e mandá-los para qualquer sítio escatologicamente escabroso. Deteve-me, porém, o receio. No fim de contas, eles sempre são feiticeiros, e com isso não se brinca. Sei lá se ela não agitava o garfo, entoando, wingardium leviosa, e eu não ficava, de repente, com a cara de um dos amigos dela? Quem é que se vai arriscar a isso? Eu é que não!

Mas enfim, eles lá partiram, presumivelmente para irem transformar gatos em brasileiras de bares de alterne, e nós ficamos enfim sós. Isto é, sós, sem eles. Mas nada ficou perdido, que a maravilha não se esgota aqui.

Não, ele há muito mais, naquele restaurante. Ele há a mulher barbada, corpo de ninfa com cabeça de sargento mexicano; há a miss Piggy, que seria um digno complemento para a nossa mesa de marretas, se não fosse o facto de se parecer tanto, justamente, com a miss Piggy; há grupos sortidos de palermas, como os trios que repartem entre si cinco decilitros de vinho, e se queixam no fim de que têm a cabeça a andar à roda; há o javardo, cavalheiro simpático e muito composto, que não prova alimento algum sem o espalhar previamente pela camisa, e pedir o tira-nódoas; há o eremita, que se senta a um canto sem falar a ninguém, até que, recentemente, nos começou a falar a nós. Tudo isto são pequenos brilhantes, engastados em torno do diamante refulgente que é a mesa 19.

Hoje é um dia especial, o último dia antes do Natal, nos países de Leste. Verificámos, consternados, que a data passava em branco naquele restaurante, não obstante contarem, entre o seu pessoal, com o precioso contributo da Lana, russa de origem. Não lhe bastando ter de passar a natividade longe da família e dos amigos, a pobre vê-se ainda condenada a passá-la por entre a indiferença geral, findas que estão as boas-festas de toda a gente.

Não há muito que a mesa 19 possa fazer numa situação destas, mas alguma coisa estava ao nosso alcance fazer. Oferecemos-lhe uma vela em forma de estrela, prenda simbólica a desejar um Feliz Natal, por parte da mesa 19. Serve esta crónica, entre outras coisas, para exprimir o nosso desejo de que ela a acenda, na ocasião oportuna, e passe de facto um bom Natal. Foi muito pouco, bem sei, mas foi feito de boa vontade. Desta, em todo o caso, é que não se lembravam os gajos do Harry Potter.