9.29.2006

28 – Monólogos com a nossa psicóloga.

Esta crónica, é preciso que se diga desde já, não é uma crónica como outra qualquer. Não quero cair em exageros, mas julgo não errar se disser que esta é uma crónica merecedora de um olhar escalpelizante, capaz de abrir caminho através da realidade que transversalmente se oculta sob a metáfora epidérmica das palavras. Dito isto, deste modo oblíquo, já todos compreenderam que vamos falar sobre esse expoente das ciências psicológicas, a deusa ex machina da mesa 19, a nossa Vânia. Palmas, por favor, que ela merece.

Já, desde os longínquos primórdios destas crónicas, ficou devidamente exarado em auto que aquelas três meninas, a Vânia, a Marta e a Lana, são três queridas, mas faltou explicar que o são, todas elas, de maneiras completamente diferentes. A Lana é o arquétipo da digna reserva eslava, raça tranquilamente superior. A Marta é uma miúda alegre e brincalhona, que deu ultimamente em pintar-se, e pentear-se, como se fosse o resultado de um cruzamento entre a noiva de Drácula, e a deusa egípcia do bacalhau com couves (aqueles egípcios tinham deuses para tudo, é um facto sabido). Mas aquilo fica-lhe bem, e é mesmo uma refrescante pincelada de cor na aridez do nosso dia-a-dia. A Vânia… bem, a Vânia é a Vânia, sempre igual a si própria. Já disse aqui, e repito, que ela tem o encanto de uma jovem que usa a alma por fora, e não por dentro. Posso ainda acrescentar isto, ela é um coelhinho, branco e fofo como uma nuvem.

Falta agora saber isto, que coisa queremos dizer, quando dizemos que alguém é um coelhinho, mormente se trabalha esse alguém num restaurante, onde é mais provável ver surdir o láparo da própria ementa, do que da pessoa que nos traz a dita. Vem aqui a propósito contar uma história que se passou com o Pilindrau, velho companheiro de muitas guerras. Pilindrau era o nome dele, Bojardas Pilindrau, mas toda a gente o tratava pela alcunha que lhe ficara de infância, Dr. Osório Teixeira. O Dr. Teixeira, passe a familiaridade, era dono de dois coelhos de estimação, por quem nutria o maior carinho. Por essa razão, evitava sempre comer coelho.

Mas houve um dia em que, almoçando num restaurante onde jamais havia entrado, se viu assediado pelo empregado, que lhe inculcava o coelho em vinha-d’alhos, afamada especialidade da casa. Ora bem, pensou o Osório, isto pode ser mesmo coelho, mas pode também ser gato. Fará isso alguma diferença? Julgo que não, pois o gato mais não é do que a negação do coelho que poderia ter sido. O mesmo raciocínio, aliás, se aplica ao porco e à vaca, embora esses casos requeressem já um coelho descomunalmente desenvolvido. Vistas as coisas por este prisma, degustar um tournedó Rossini não é muito diferente de comer o meu Totó. Isto concluído, o bom Osório retirou-se do restaurante, e foi almoçar um coelho à caçadora na tasca em frente, que era de confiança, o que lhe dava a certeza de ser mesmo coelho aquilo que comia.

Desculpem-me a divagação, mas eu achei que era importante contar isto. Como se infere claramente desta pequena história, o problema da mesa 19 é que a Vânia está diferente. Não direi que está mudada, isso não, ela continua igual a si própria, mas está diferente, pelo menos connosco. Tem repentes de aspereza, momentos de enfadamento, ocasiões inteiras, em que vemos primar pela ausência aquele carinho que nos aquecia a alma. É certo que é a mesma Vânia que ali está, nós é que não somos mais os mesmos, para ela, pelo menos. E daí, quem sabe se será de facto a mesma Vânia que ali está? Quem, entre nós, saberá contar os mil espíritos que espreitam pelos mesmos olhos de mulher? Eis o dilema, a Vânia é outra, ou deixou apenas de gostar de nós?

O tema é momentoso, e não se me daria dispor de melhor cabeça para me orientar. O ideal seria ter, aqui à mão, pronto a ser folheado como um livro, o meu velho amigo, Bojardas Pilindrau. Mas não, sejamos democráticos, como convém a fraternos amigos de longa data, e chamemos-lhe Dr. Osório Teixeira. O Osório, poucos haverá que não o saibam, foi um nobre e denodado lutador anti-fascista, ao longo de muitas décadas. Não deixou todavia, de longe a longe, de assumir algumas atitudes de um colaboracionismo canalha. Era um pulha, em resumo, um esbirro às ordens do regime, indo mesmo ao ponto de, nos anos do último estertor do Estado Novo, fazer afixar a sua própria efige em duas salas de aula do país, entre o boneco do presidente da república, Américo Thomaz, e o retrato do presidente do concelho de ministros, Marcelo Caetano. Em suma, um palhaço, com toda a firmeza moral de um molho de espargos, nem sei por que razão estamos agora a perder tempo com essa esponja avinagrada, sei lá o que me deu para o ter mencionado…

Enfim, espero que isto tenha ajudado a esclarecer a questão. É contudo impossível dar o assunto por arrumado, sem mencionar aquilo que já foi dito lá na mesa 19, a Vânia está a amadurecer. Perguntámos-lhe se era isso, claro, e ela imediatamente negou, com tal maturidade, que vimos logo que era verdade. Fez-me de pronto lembrar aquela vez em que estávamos todos a almoçar, e entrou o Paulo, vestido de santola, com o seu castor debaixo do braço. Viu-se depois que não era um castor, mas apenas o Bojardas Pilindrau, usando uma vasta pele de urso. Mal se sentaram ambos, a Vânia trouxe-lhes a conta, e um grande livro de reclamações, ficando assim o assunto inteiramente explicado.

Ia agora contar uma história que isto me fez lembrar, mas já não tenho tempo de a contar. Isto de não ter tempo faz-me também lembrar outra história… mas adiante, o importante é que mantenham viva a boa luta, e que permaneçam do lado certo das barricadas, como eu sempre fiz. Se soubermos permanecer unidos, o fascismo será derrotado. Sem mais, despeço-me, cordialmente,

A bem da Nação,

Baptista Coelho.

9.19.2006

27 – The Shining (Voando sobre a mesa 19).

Um destes dias, tenho de deixar de frequentar a mesa 19. Não porque não goste de lá ir, até aprecio bastante, mas anda a fazer-me mal. Não apenas um mal subjectivo, que eu poderia tentar resolver interiormente, mas mesmo um mal objectivo, algo que vem de fora, e impende sobre mim. Parece confuso, bem sei, mas eu explico.

All work and no play makes Nuno a dull boy.....

Ver elefantes cor-de-rosa bebé será, sem a menor dúvida, um problema subjectivo, já que se refere exclusivamente ao sujeito, o tal que vê os improváveis paquidermes cor de gay. Quando, todavia, as vozes colectivas desatam a afirmar que fulano vê elefantes cor de gay, o problema torna-se objectivo, já que o sujeito das alucinações precedentes se faz objecto de uma cabala, que mais não pretende do que encarcerá-lo, pretextando para tal a sua insanidade. Mas eu não estou louco, garanto-vos isso.

All work and no play makes Nuno a dull boy.....

Esclareçamos isto um pouco melhor. Há os malucos, é certo, e bem assim, os que estão saudáveis de espírito, mas há também uma inteira panóplia de casos intermédios, pois a vida não é só a preto e branco. Cai justamente nessa classificação intermédia o meu caso particular: não acredito que a minha condição mental bastasse para me internarem; mas, caso já estivesse internado, duvido muito que me dessem alta…

All work and no play makes Nuno a dull boy.....

Vem isto a propósito das cinco beldades que invadiram hoje a nossa sala, tendo mesmo o desplante de se sentarem na mesa adjacente à nossa. Palavra de honra que, pensei eu, se elas fazem disto um hábito, ainda me ponho a escrever as crónicas da mesa 18, com textos que farão inveja à versão nova-iorquina da Playboy... Mas, na altura, limitei-me a elogiar a Vânia por ter vindo ao encontro dos nossos pedidos, referindo-me a uma crónica antiga, em que censurava o restaurante por não ter nunca mulheres bonitas, coisa que agora lhe agradecia ter providenciado. Respondeu ela, para minha grande surpresa, Sim, são minhas colegas da escola.

All work and no play makes Nuno a dull boy...

Foi aí que eu me retraí, sentindo gelar as minhas extremidades. Eu sempre me senti desconfortável ao pé de psicólogos, devo desde já confessar. Essa ideia de que um sujeito que nunca me viu na vida se arroga um conhecimento de mim superior ao que eu próprio tenho, parece-me a quintessência do charlatanismo, confesso. Mas persiste o facto de o olhar perscrutador deles me deixar desconfortável, e a quem não deixaria, bolas? Ainda para mais, têm todos um cérebro do tamanho do Einstein (do tamanho do próprio Einstein, note-se, não do tamanho do cérebro dele), e fazem-nos parecer muito pequeninos, muito burros.

All work and no play makes Nuno a dull boy...

Outra noção, da qual nunca me consegui libertar completamente, tem a ver com os poderes telepáticos que eles possuem. Um psicólogo fixa em nós os seus olhos coruscantes, e sentimos que ele nos consegue ler a mente, com tanta facilidade com que nós lemos o jornal da tarde. Foi talvez isso que me intimidou hoje, no nosso almoço com companhia feminina, por assim dizer.

All work and no play makes Nuno a dull boy...

As cinco lindas criaturas palravam alegremente, Deus sabe sobre o quê, nós não. É necessário esclarecer, neste ponto, que a capacidade auditiva dos homens se situa, de um modo geral, numa frequência sonora inteiramente diversa daquela que as mulheres usam para comunicar. A isto se deve que tanta mulher diga ao seu marido, Tu não ouves nada do que eu te digo, quando a verdade é que ele, coitado, não ouve nada do que ela diz.

All work and no play makes Nuno a dull boy...

Mas as psicólogas são diferentes, elas sabem ler o conteúdo da nossa mente. Tendo isto em conta não me custa imaginar o que se passou hoje na mesa 18, a tal que é adjacente à mesa 19. A sílfide loura fixou os seus raios mentais no meu cérebro, e arrepiou-se com as patologias que aí encontrou. As restantes musas leram as outras mentes que a nossa mesa comporta, e concluíram que não encontravam já tais níveis de perversão, desde os tempos remotos em que os hospitaleiros Bórgias faziam questão de temperar, pessoalmente, a sopa dos seus convidados.

All work and no play makes Nuno a dull boy...

E é assim que as pessoas se lixam. Neste momento, já toda a gente do instituto da Vânia recebeu a notícia, espalhada pelas cinco ninfas, da escumalha que nós somos. A minha alma religiosa, no entanto, inclina-se para o perdão.

All work and no play makes Nuno a dull boy...

Sim, eu acho o perdão muito importante, e só lamento que tanta gente pense de diferente modo. Estas cinco, por exemplo… se elas me deixassem, eu era capaz de passar a noite inteira a perdoá-las. Mas duvido que o quisessem, no entanto, tal é a ingratidão da mulher. E vê-se bem, todavia, que são boas pessoas, e só um doido pensaria o contrário. Como eu penso, por exemplo.

All work and no play makes Nuno a dull boy...
All work and no play makes Nuno a dull boy...
All work and no play makes Nuno a dull boy...
All work and no play makes Nuno a dull boy...
All work and no play makes Nuno a dull boy...
All work and no play makes Nuno a dull boy...
All work and no play makes Nuno a dull boy...
All work and no play makes Nuno a dull boy...
All work and no play makes Nuno a dull boy...
All work and no play makes Nuno a dull boy...

9.13.2006

26 – O Perna-de-Pau.

Assim é a vida: fomos de férias, gozámos as férias. Nenhum de nós ganhou a lotaria, e não tivemos mais remédio do que voltar de férias, quando estas se acabaram. Agora já cá estamos todos. Contrariados, é certo, mas estamos.

Mas não estamos bem. Pelo contrário, a mesa 19 anda um bocado estropiada. O Rui Cardoso partiu o cóccix, antes das férias, e ainda faz lembrar um pouco um caranguejo, quando anda. Hoje, foi a minha vez. A meio da noite atirei-me da cama, por razões que prefiro não aprofundar, tendo magoado o cóccix, com uma lamentável falta de originalidade, e um artelho. Isso produziu-me um interessante coxear, em que alio o arrastar da pata ferida com divertidas caretas, provocadas pelas dores lancinantes que as lesões me causam. Não se pode portanto dizer que a nossa mesa, neste momento, venda saúde, mas lá iremos.

Tem almoçado connosco um outro Paulo, que não é Sousa, mas Mendes, vizinho e amigo de longa data do Rui Constâncio. Para além do prazer e boa disposição que naturalmente experimentamos, o convívio desse cordato exemplar da boa cepa alentejana traz-nos ainda a preciosa mais-valia de saber umas quantas histórias sobre o Rui, dessas que os colegas não chegam geralmente a ouvir. Hoje, por exemplo, contou-nos o hábito que o Taliban tem de, a meio de uma refeição prolongada, interromper a dita para fumar alguns cigarros, e comer um gelado, de preferência um Perna-de-Pau. Terei ouvido bem? Sim, é isso mesmo, um Perna-de-Pau.

Pareceu-me na altura genial, a ideia de alguém suspender um pernil fumado, ou pousar umas patas de sapateira, para se pôr a chupar um gelado de natas, chocolate e doce de morango, findo o qual retoma os seus couratos ou percebes. Interessante, também, o convívio promíscuo dos cigarros com o chocolate, a sugerir um conflito de infância mal resolvido, qualquer coisa oral, certamente. Brinquei um pouco com a ideia de lhe mudar a alcunha, de Taliban para Perna-de-Pau, mas compreendi depois, com um choque, que o tiro seria mal dirigido: no estado em que tenho a pata, o Perna-de-Pau sou eu!

Meditei sobre o assunto, e a verdade surgiu-me, finalmente, não de chofre, mas suavemente, como uma imagem mal entrevista que se vai gradualmente focando, ganhando nitidez, até que reconhecemos que se trata da Lili Caneças, o que significa que voltámos a comprar a Lux em vez da Playboy, malditos óculos que ficaram em casa! A verdade que me atingiu nesse momento foi a seguinte: eu não sou um compére da mesa 19, um ser humano com família e responsabilidades, um profissional sério e qualificado. Não, eu sou, muito simplesmente, um gelado!

Revi os factos no meu espírito, mas não parece existir qualquer dúvida. Para além da minha actual condição de Perna-de-Pau, o meu volume barrigudo qualifica-me para um Super-Maxi (parece mesmo uma expressão inventada para me descrever), ou então um Magnum. Quando me excedo nas bacoradas que digo, o que só acontece quando falo, as pessoas tendem a exclamar, Epá, com ar reprovador. Sou, além disso, casado, pelo que nada me garante que não seja um Corneto. Não há volta a dar-lhe, eu sou um gelado da Olá.

Isso explica muita coisa. Compreendo agora por que razão tantas mulheres me dizem que não sou bonito, mas sou doce e agradável. Contam-me que tenho uma alma pura e alva (é tudo baunilha), mas depois acabam comigo num instante. Deve ser para não derreter. Só tenho pena de ser, aparentemente, um gelado de chocolate, dos que se comem à dentada. Preferia ser um dos velhos sorvetes de neve, que era preciso chupar. Mesmo assim, com a sorte que eu tenho, elas eram capazes de passar a preferir couratos, ou patas de sapateira.

Percebo também, evidentemente, por que razão ninguém me respeita. De facto, pode-se gostar ou não de um gelado, pode-se ansiar por ele numa tarde quente de Verão, ou evitá-lo porque se está a fazer dieta, mas não é costume respeitá-lo. Ninguém se dirige ao congelador para cumprimentar os seus gelados, quando chega a casa. Ninguém diz aos seus convidados, depois de lhes apresentar os miúdos e a sogra, Vamos agora à cozinha, quero que conheçam os meus gelados.

A minha sorte é que isto dá para os dois lados. Vão ver todos, quando a próxima conta chegar à mesa 19. Estão à espera de quê, que eu tenha dinheiro comigo? Tenham juízo! Eu sou só um gelado…

8.30.2006

25 – Pesadelo.

Cá vem a crónica 25,
Que traz muito que contar.
Ouvi agora, senhores,
Uma história de esfaimar.

Sentaram-se todos à mesa,
Augurando um bom manjar.
Barrigas rugindo de fome,
Dente pronto a trabalhar.

Rogaram pragas à Vânia,
Que os queria à fome matar.
Não havia que comer,
Não havia que manjar.

Pediram, por Deus, um pão,
Ou uma lasca de chouriço.
Havia só polvo, e rijo,
Mas ninguém embarcou nisso.

Já não havia salsichas,
A dobrada tinha acabado.
Das costeletas na brasa,
Ficara só o bronzeado.

Nisto, banhado em suor,
Num sobressalto acordei,
Para ver, perante mim,
Repasto digno de um rei.

Já não falo mal da Vânia,
Que agora juro adorar.
E por nos ter alimentado,
Com o meu filho a hei-de casar.

E se a boda ela recusar,
Talvez para me fazer castigo,
Está lixada, a rapariga,
Terá de casar comigo.

24 – Rentrée.

E pronto! Juntamente com esta semana, chega ao fim Agosto, o tal mês que dá gosto. A próxima segunda-feira, já de pés bem assentes em Setembro, será testemunha do regresso, em peso e em bloco, da mesa 19. Lá virá o Carlos, refiro-me ao Santos, bem como o Catarino. Lá virão, igualmente, os dois Ruis, prontos a medirem os bronzeados rivais. Corre pelo restaurante o rumor, ainda por confirmar, que a Vânia, ao saber destas novas, encomendou já duas caixas de Xanax, pela cautela.

Não se cuide, todavia, que a mesa 19 fechou para férias. Não, meus caros senhores, a nossa mesa 19, como instituição nacional que é, fez o mesmo que o resto do país: continuou a trabalhar, só que a meio gás. O regular funcionamento do importante organismo foi assegurado pelos beneméritos Carlos, agora estou a falar do Lopes, e Zé Eduardo, coadjuvados pela sempre apagada presença deste vosso dedicado cronista. A fechar as hostilidades, quero dizer, pela hora dos digestivos, também lá costumava aparecer o Paulo, vindo, quem sabe se dos enlevos conjugais, se de mais ímpias paragens. Nós nunca lhe perguntámos, e desconfio que ele também não nos responderia.

Uma coisa tem de ser dita, a favor dos almoços com reduzido número de convivas, é que permitem conversas muito mais direccionadas, consistentes, e completas. Foi numa dessas conversas que, pelos bons ofícios dos meus cultíssimos colegas, me inteirei cabalmente de um enredo que antes tivera por irremediavelmente impenetrável, o célebre caso Mateus. Assim eu, que só conhecia, até aí, o Mateus da bíblia, o ministro do plano Mateus, e o Mateus rosê, alcancei conhecer o que, antes de mim, só o país inteiro sabia. E isso, creiam-me, não é pequena glória.

A conversa de hoje foi diferente, e assumiu sérios contornos geopolíticos, tomando como base, receio-o bem, a crónica anterior, que se intitulou “Portugal”. Mas nem só destes sisudos assuntos nos ocupámos: a semana anterior, por exemplo, foi fértil em eventos, com almoços a começarem tarde, e a prolongarem-se por tardes inteiras. Foram mesmo batidos recordes, mas nenhum que me interesse confirmar, excepto na presença do meu advogado. Tudo considerado, no entanto, passaram-se uns belos dias.

Mas o Verão acabou, e o início da próxima semana assistirá ao regresso, em força, da mesa 19. Os veranistas fatigados, encalmados pela impiedosa canícula, regressarão saudosos aos seus locais de trabalho, louvando a frescura do ar condicionado, e a cor convincente daquele líquido preto a que chamam café, por razões que ignoro. Quando o velho relógio da torre – não temos uma coisa nem outra, mas façamos de conta – soar as doze badaladas do meio-dia, toda a mesa 19 comparecerá, aguerrida, no seu posto.

Toda? Não, não exactamente. Para ser inteiramente honesto, desejo a todos um bom regresso, mas eu, pessoalmente, vou de férias a semana toda. Divirtam-se…

8.29.2006

23 - Portugal.

Hesitei antes de colocar aqui esta crónica, no receio de que me digam que ela não tem aqui cabimento. É que esta crónica é diferente, porque não fala da mesa 19. No entanto, eu acho que a sua mensagem tem valor, se posso falar assim de algo que eu mesmo escrevi (é claro que posso, quem é que me vai impedir?). Seja como for, sempre há uma certa relação: é que a mesa 19 também fica em Portugal.


Isto já chega! As coisas aguentam-se até um certo ponto, mas depois há que dizer basta! Tudo o que é demais farta, caramba! E outras expletivas do mesmo género, culminando no previsível etc., com os três pontinhos do estilo…

Vem isto tudo a propósito desta coisa velha, bizarra, e difícil de definir, que responde pelo nome arcaico e desusado de Portugal. Já nos idos de 1871, escrevia Eça de Queiroz (cito de memória, e provavelmente mal): “A economia está na bancarrota; os políticos são alvo do descrédito geral; por toda a parte se rosna – o país está perdido”. Estas palavras, e muitas mais, de idêntica actualidade, compuseram o primeiro número das memoráveis Farpas, e são hoje familiares a grande parte dos cidadãos, desde que alguém as pôs a circular na Internet, com os espectáveis encómios, Vejam só, parece que foi escrito hoje, isto não mudou mesmo nada.

Pois é, a verdade é essa: isto não mudou, e, a ser verdade o que diz o povo sobre os burros velhos, e a respectiva capacidade de aquisição de novos talentos linguísticos, é de esperar que não venha já a mudar. Sejamos francos, vai quase um milénio que andamos nisto, é mais do que tempo de parar de protelar, e encarar a realidade de frente.

Mas de onde, afinal, nos vem esta macumba? Bem, quando se fala de causas, as opiniões dividem-se: uns assacam as culpas ao ilustre vimaranense, filho do conde D. Henrique, alegando que nada de bom se poderia esperar de um país fundado por um tipo que batia na mãe; outros preferem responsabilizar o D. Sebastião, que teve aquela triste ideia de se pôr a caçar mouros em tempo de defeso. Segundo algumas crónicas, o jovem rei terá bradado ao povo, quando embarcava: “Sobretudo, não façam nada enquanto eu não voltar”. O régio preceito manteve-se, aparentemente, em vigor até aos dias de hoje.

Na minha modesta opinião, contudo, a coisa vem de muito mais longe, dos tempos pagãos em que Viriato, esse líder cuja bravura apenas igualava a falta de visão política, espadeirava o romano pelas cristas dos Montes Hermínios. Reza a história – e agora não estou a inventar – que um perplexo centurião romano, dos que à época cá andavam, remeteu a César as seguintes novas da campanha ibérica: “Nos confins desta península, habita um povo estranho e bruto, que nem se governa, nem se deixa governar”. Genial Quintilius, ou lá como te chamavas tu, que, na frase simples que lavraste, deixaste escritos dois mil anos de história vindoura.

Pois, pois, dizem alguns, mas há também os Descobrimentos. Então e os Descobrimentos, a nossa epopeia trágico-marítima, quando Portugal se lançou ao mar, e deu novos mundos ao mundo? Ora bem, em relação a isso, nada há a dizer. É verdade histórica e irrefutável que o Portugal de quinhentos se lançou ao mar, mas o mesmo têm feito muitos homens de negócios, depois de perder a fortuna na bolsa. O Portugal quinhentista enfrentava um dilema, crescer ou perecer, e conquistar a Ibéria estava fora de questão, já para não falar da Europa. Restava-nos atirarmo-nos ao mar, o que de facto fizemos, e tivemos depois a sorte de encontrar um novo mundo do outro lado. Mas, quanto a isso, nós sempre fomos um povo com sorte.

E que fazer agora, quando tudo foi já tentado, o mar nada tem de novo a oferecer-nos, e a coisa parece ter chegado a um beco sem saída? Não creio que a minha opinião valha seja o que for, neste particular, mas deixo-a aqui, para quem quiser considerá-la. Com toda a franqueza, acho que devíamos desistir.

Não quero com isto propor que fechemos as portas, apaguemos as luzes, e emigremos em massa, como é evidente. Não, Portugal continua a ser um excelente lugar para se viver, só falta encontrar quem o governe. Nem sequer precisamos de ser muito picuinhas quanto a quem nos há-de governar, desde que não seja português. Essa é uma condição não negociável, desde que sucessivas monarquias, repúblicas, ditaduras e democracias nos demonstraram já a razão que incontornavelmente assistiu ao respeitável centurião romano. Portugueses não, que venham outros quaisquer. Sujeitando-me à vaia colectiva de dez milhões de gargantas, proponho os espanhóis.

E porque não? Portugal tem franca vocação para ser uma província de Castela, e estou convencido de que seríamos uma das melhores. Sob o ponto de vista económico, a integração já está feita: basta relancear os olhos por qualquer prateleira de supermercado, ou contar os “Ys” presentes na mais elementar folha de instruções, pretensamente traduzida para o nosso vernáculo, para conhecer que somos, economicamente, uma região turística de Espanha. Pior ainda, como em qualquer região turística, as coisas custam todas muito mais caro do que no país de origem.

De resto, que mais nos falta para sermos espanhóis? Temos climas semelhantes, regiões vinícolas adjacentes, entendemos bem a língua, e, acima de tudo, temos essa característica fundamental, que compartilhamos com três quartos da população espanhola: todos nós, sem excepção, temos um ódio de morte aos espanhóis! Julgo que o governo de Madrid, habituado à Catalunha, ao País Basco e à Galiza, não terá dificuldade em integrar mais uma região que não os pode ver nem pintados. Talvez a região autónoma da Madeira levante alguns problemas, mas esses são fáceis de resolver: basta que o parlamento faça passar um decreto, a ilegalizar o Alberto João Jardim.

Julgo ter assim apresentado um verdadeiro plano de salvação nacional. Tudo o que o presente governo tem a fazer é deslocar-se a Madrid, convenientemente constituído em comissão interina, e entender-se com o senhor Zapatero. Diplomaticamente, explicar-lhe-ão que aquilo de 1640 não foi mais do que uma garotada, ele que não faça caso. De resto, todos os chamados insurrectos tinham, na verdade, o maior respeito e admiração pelo senhor Miguel de Vasconcelos. Aconteceu apenas que um deles fez um comentário elogiativo sobre a janela, o espanhol não entendeu, duro de ouvido como são todos eles, não ligue, isto não era para dizer, e vai de se atirar pela dita. Antes que alguém percebesse o que se passava, estava proclamada a independência, mal-entendido que se corrige agora.

Havia ainda outra solução para isto, mas essa era mais complicada. Vista por alto, passaria por um grupo de cidadãos, um grupo crescente até se tornar significativo, depois maioritário, e por fim esmagador, que tomasse consciência da sua cidadania, mil portugueses, um milhão, dez milhões, a exigirem a concretização de Portugal. Uma massa esmagadora que, sem deixar de apreciar benevolamente as prestações da selecção portuguesa no Euro e no Mundial de futebol, reservasse as bandeiras nas janelas para os verdadeiros eventos nacionais que faltam acontecer. Que protestasse contra o cancelamento do jogo do Benfica, claro, mas mil vezes mais contra os tribunais que não julgam, os hospitais que não curam, as escolas que não educam. Mas um país a sério exige um povo que o mereça, um povo que se leve a sério. Pensando bem, talvez seja mais fácil mandar vir os espanhóis.

8.11.2006

22 – Quando formos mais crescidos.

Ele há grandes questões, questões que são perenes, imutáveis. Qual o sentido profundo da vida, com que idade podemos finalmente encará-la com maturidade, porque é que a miúda se recusa a fazer aquilo, se eu estou farto de lhe pedir, até que ponto é o cosmos movido pela fraternidade universal, e onde raio foram parar as minhas calças? Só esta última, posso pessoalmente afiançá-lo, bastaria para encher volumes de tergiversação ontológica, mas não é esse o objectivo destas crónicas. Concentremo-nos então numa das outras perguntas, o que é a maturidade, e quando é que se chega lá?

Tentemos, em todo o caso, ir mais longe do que o saudoso conselheiro Torres, mentor político do Conde de Abranhos, a quem roubámos a frase de abertura deste texto, Ele há grandes questões. Tinha depois o hábito de as enunciar gravemente, o pauperismo, a prostituição, o ultramontanismo, mas não ia jamais além disso. Pois seja, nós é que somos feitos de outra massa, não comparticipamos da natureza aérea e esvoaçante da borboleta, que toca aqui e ali sem jamais se deter; nós temos antes a contumácia incisiva da vespa, que despreza a mera superfície, para com o ferrão explorar em profundidade. Se dizemos que o tema em apreço é a maturidade, pode o leitor ficar seguro de que a palavra será escalpelizada ao largo e ao comprido, até que nenhuma das suas sílabas sangrentas retenha para nós o menor segredo.

Maturidade, assevera-nos arrogante o displicente dicionário, é simplesmente a qualidade daquilo que está maduro, ou que é maduro. Sob esse aspecto particular, as pessoas assemelham-se bastante à fruta, começam verdes, depois amadurecem, e caem por fim da árvore, batendo amiúde com a cabeça, nesse processo. Ficam então um bocado patetas, e os jovens, para não dizerem, Olha aquele pateta, dizem antes, Olha aquele maduro. Vista por este ângulo, a maturidade parece situar-se desconfortavelmente próxima da senilidade, sendo portanto coisa mais para temer do que para desejar.

Mas, será contudo assim? Entre as frescas manhãs dos verdes anos, e o pesado crepúsculo que é a senescência da razão, não haverá algo de intermédio, a serenidade de um entardecer doirado e tranquilo, onde o espírito cansado medita sob uma leve brisa outonal, e o coração bate por fim um compasso de paz? Um espaço da vida para gastar em recordações, agora que o tempo de agir terminou, e a idade implacável não trouxe ainda o esquecimento? Há de facto esse tempo, e chama-se maturidade.

Assim eram as fases ordenadas da vida, tais como a centelha divina que habita cada ser humano as dispôs, mas veio depois uma coisa chamada vida moderna, e lixou tudo!

O percurso da vida de uma pessoa pode ser comparado à escalada de um monte, mas um monte especial, um que tenha um topo plano e muito alongado. Nos anos de actividade e esforço, o homem galga conscienciosamente o íngreme declive ascendente. Atingido o topo, e com ele a maturidade do indivíduo, compraz-se em passear tranquilamente pelo plaino verdejante, até que chegue o momento de empreender, pelo outro lado, a descida que só terminará no oblívio final, sete palmos sob a terra. Eram assim as coisas dantes, mas agora parece que já não são.

Hoje em dia, só um critério mede o valor de uma pessoa: a altura a que se consegue guindar, ao longo da vida. Não interessa nunca parar, o repouso nenhum valor tem, e contemplar a paisagem é a atitude de um inútil e um falhado. Apenas interessa subir, subir o mais possível. É claro que a uma maior subida corresponde uma maior descida, pelo que a plataforma do topo se vai estreitando, até se ver reduzida a um bico aguçado. A plenitude de vida, nos nossos tempos, consiste em começar a descer mal se acaba de subir, sem passar um só minuto no topo.

De todas as nefastas consequências deste deplorável estado de coisas, uma há que salta de imediato à vista: a sociedade ressente-se, cada vez mais, de um lamentável défice de maturidade. Age-se muito, primeiro, e disparata-se mais, depois, mas falta o contraponto estabilizador da reflexão madura. Isto nota-se em todo o lado, desde as grandes empresas corporativas, até à política de pesca do bacalhau.

E a mesa 19? Pois bem, pese embora o imponente acervo de mentes filosóficas que a recheiam, a nossa mesa não é, nem poderia ser, imune a este fenómeno. Há sintomas que preocupam, uma ambição aqui, um impulso para trabalhar mais, ali, um inesperado desinteresse pelas reformas antecipadas, vez por outra. Mas há também esperanças, há olhos que se abrem, mentes que despertam. Por mais que nos tentem manter verdes, a mesa 19 vai amadurecendo.

Eu tenho um sonho. Não é como o sonho do outro, com os pretinhos e os branquinhos a serem muito porreiraços uns para os outros, o que até pode não ser mau, mas não é disso que estamos a falar. Não, eu sonho com o dia em que, malgré tout et tous, atingiremos finalmente a maturidade. Nessa data memorável, a única camisola que a mesa 19 vestirá será uma t-shirt com esta frase, “Se tens inveja do meu viver, faz como eu: reforma-te, malandro”.

8.06.2006

21 – Something else.

A mesa 19 anda-me a dar cabo do Verão. Se não for esse o caso, então, são as minhas leituras de Verão que se puseram às turras com a mesa 19. Seja lá como for, o problema é bicudo: ora digam-me cá, de que vale a um homem sonhar serões de Hemingway, Hugo e Boris Vian, para vir depois almoçar questiúnculas de trabalho, ou discussões, acaloradas e quase físicas, sobre mal definidos problemas sociais, de resto quase inteiramente marginais à nossa tertúlia? Não digo que se não trate de importantes questões, mas roubam muito àquela leveza de texto que tão bem caracteriza a mesa 19. Salvou-se nesse dia, por entre a miséria geral, o debate sobre a terceira guerra mundial, com ênfase na questão russa, e a minha salada russa, que também estava excelente. A maionese, sobretudo, era caseira.

Pese embora a imagem caturra dos Marretas, com que de início nos caracterizámos, estas crónicas pretendem ser sobretudo uma força dinâmica de subversão, qual faca acerada que, guiada por mão palpitante de vida feroz, rasga com fria precisão o tecido putrefacto e cediço da lassa trama social. Não nos resignaremos, dê por onde der, a ser o débil grasnar da voz esclerótica de dois velhos rezingões, protestando pela força do hábito contra tudo aquilo a que se acomodaram já. As crónicas existem para agitar, com o vento saudável do caos bélico, as atmosferas estagnadas, onde se instalou o detestável marasmo de uma paz podre. E se é a própria mesa 19 quem requer o salutar abanão, pois não há que duvidar, vamo-nos a ela, como Santiago aos mouros.

Mas surge aqui o dilema, eu não posso, a sério, denegrir a mesa 19. Tenho-lhe demasiada estima, e não posso fazê-lo, a sério que não posso. Isto sugere uma só solução, já que não o posso fazer, a sério, terei de o fazer a brincar. Não verdadeiramente a brincar, como aqueles petizes que empilham cubos, acocorados no chão. Não tenho jeito para me acocorar desse modo, além do que ficava, de certeza, com a gravata entalada nos entrefolhos das coxas. Não, pedirei apenas a licença do amável leitor para me distanciar um pouco do mundo real (não mais do que uns dois passos, e levo os meus sapatos castanhos), enquanto discorro sobre um mundo que, ao contrário da mesa 19, não existe mas poderia ter existido. Rogo-vos que não sejam muito rápidos a acusar de leviano este meu divagar. Como disse o bispo, antes de afirmarem que uma coisa é absurda, verifiquem sempre se trazem meias da mesma cor.

Seja qual for a mesa 19 de que se fale, ela é sempre constituída por gente moderna, desempoeirada, científica. Eu próprio me gabo de possuir todas estas qualidades, ao ponto de jamais me abalançar a comer um bife, sem primeiro o dissecar. De forma que, quando bati com o jarro de vinho sobre a mesa, fazendo saltar o seu conteúdo, fi-lo com o mais escrupuloso respeito pelo princípio de Arquimedes.

Este, como é de todos sabido, postula que todo o corpo mergulhado num fluido fica molhado, manifestando depois uma tendência para correr nu pela rua, a gritar, Eureka. É conhecida a reacção do célebre sábio quando, na banheira, fez a sua portentosa descoberta: ficou de imediato molhado, sofrendo depois uma impulsão vertical, de baixo para cima, de força igual ao peso do volume de fluido deslocado. Riu-se em seguida com vontade, ao compreender que descobrira o princípio de Arquimedes, pois esse era também o seu nome.

Isto é apenas um pormenor, que só menciono para mostrar que a mesa 19 leva a sério os grandes avanços da humanidade, todos os três. Alguns radicais saudosistas questionam a piza, mas eu, pessoalmente, continuo a achá-la digna de ombrear com os outros dois, o controlo remoto de televisão e a cerveja à pressão. Além destes, temos, como é evidente, a igualdade de direitos da mulher.

É o maior golpe de génio que a história regista, a igualdade de direitos das mulheres. É certo que tal evento veio prejudicar um pouco o uso do controlo remoto de televisão, mas as vantagens compensaram largamente os inconvenientes. No mero espaço de meio século, o homem conseguiu transformar a sua cara-metade num ser que não esperava já ser sustentado a vida inteira por ele, tendo como única obrigação superintender o trabalho das criadas, mas que sentia o impulso de sair para ganhar a vida, tal como ele milenarmente fazia. Desta forma, o homem adicionou uma boa fatia ao orçamento familiar, obtendo além disso uma esposa que, via de regra, chegava à noite cansada demais para lhe moer o juízo. Alguns, mais extremistas, passaram mesmo a viver à custa delas, o que talvez seja um abuso.

Houve também a revolução sexual, momento marcante da história, em que ferozes onanistas substituíram gloriosamente os seus sonhos pela crua realidade, após o que disseram, Porra, afinal é só isto? A grande maioria deu então em homossexual, mas houve ainda um grupo, mais equilibrado, que reverteu ao prazer solitário, embora as suas fantasias sexuais tenham passado a envolver, maioritariamente, cabras de pelo angorá. Foi desde aí que as criancinhas passaram a vir de Paris, dentro de uma couve. Ainda nos dias de hoje, a principal indústria de França consiste numa corporação de anões carecas que, no local do antigo mercado dos Halles, emprega noites sinistras a esgalhar pívias soturnas para dentro de inocentes couves, que são depois enviadas à Air France.

E a mesa 19, no meio disto tudo? Pois bem, lá está, com o seu sólido tampo, assente sobre quatro patas que fremem no desejo de alçar o voo, mas se vão infelizmente deixando ficar pela esfera inferior. Será que estas breves ponderações foram de alguma ajuda? Pois bem, estou em crer que não, mas o facto é que também não se perdeu nada.

8.02.2006

20 – A conta da mesa 19.

Já tem sido dito, algures ao longo destas páginas, que se come e bebe bem na mesa 19, e não há que esconder que também ali se respeita o provérbio espanhol, “toma o que quiseres, e paga o que tomares, que assim manda Deus”. A conta, consequentemente, é um ritual importante nas celebrações da mesa 19, e obedece, naturalmente, aos seus próprios cânones.

Se as nossas refeições demorassem três horas, e não estou de modo algum a dizer que demoram, mas, se demorassem, então a primeira hora seria consagrada à comida, a segunda à conversa e digestivos, e a terceira ao pagamento da conta. E seríamos mesmo tentados a afirmar que a última é a mais demorada de todas, se não fosse o facto de todas as horas demorarem o mesmo, embora algumas sejam muito mais longas.

A coisa começa com os nossos insistentes pedidos, no sentido de que nos seja trazida a conta. A Vânia, é com mágoa que o digo, não acredita em nós, e faz ouvidos de mercador. Não sei, realmente, a que atribuir tão cínica incredulidade, que tem graniticamente persistido ao longo de todos estes meses, em que nós fizemos de tudo, desde pedir a conta logo à chegada, ou passar o almoço inteiro a pedi-la, até negar veementemente tê-la pedido, quando ela finalmente é trazida. Por uma razão ou por outra, o facto é que a Vânia reluta sempre em trazer-nos a conta.

Quando de facto se decide, inicia-se um processo portentoso, a que vale a pena assistir. A nossa musa metamorfoseia-se em robot, e os seus olhos percorrem a mesa como verrumas, que nada deixam escapar. Saltitam, como bolas de pingue-pongue, sobre as azeitonas, que são contabilizadas, analisadas, conferidas com os caroços postos de lado, não vá ter havido batota. Os olhos penetrantes reconstroem, à esquadria, as fatias de pão encetadas, computando a área e o volume dos pedaços em falta, e espraiam-se ainda sobre os jarros de vinho, a ver se não houve engano. Tudo isto feito, a sacerdotisa lança por fim a consagrada bênção dos três dedos sobre o pires das manteigas, e parte rumo ao altar do sacrifício, o balcão do pai Pinto.

É daí que emerge a lauda final, sujeita ainda ao escrutínio último da Vânia, que não consente em entregar-nos o incriminatório papel de ânimo leve. Finalmente satisfeita, estende-nos o linguado, cujo total nós dividimos entre todos, e pagamos. Contas arrumadas, certo?

Errado! O facto é que nós nunca pagámos a nossa conta ali. Nós devemos, bem vistas as coisas, muitos milhares de euros que, certamente por lapso, nunca nos foram cobrados. As contas que vamos pagando são simples listas de trivialidades, carne isto e vinho aquilo, e mais uns cafés. Nem um sorriso da Vânia nos foi ainda debitado, as carícias que a Marta vai fazendo na cabeça do taliban continuam a pagamento, e só das minudências sem importância nos pedem pagamento, coisa de uma bagatela, e pouco mais.

Uma conta justa, ao jeito do American Express, seria algo deste género: dobrada, 5 euros; vinho, 3 euros; ser aturado pela filha do patrão, 500 euros; ser aturado pela filha do patrão, gostando disso, 1000 euros; ser aturado pela filha do patrão, e ela gostar disso, sem preço; tudo isto, e não ser posto na rua, oferta da casa.

Há muitas razões para almoçarmos na mesa 19, mas fica desde já confessada a principal: em que outro sítio, bolas, poderíamos almoçar assim, de borla?

7.26.2006

19 – A mesa da crónica 19.

E aí está! Quase não se deu pela coisa, à medida a que as crónicas se iam sucedendo paulatinamente, uma depois da outra, como quem não quer dar muito nas vistas. Uma paragem aqui, uma promessa de desistência mais além, um pouco adiante um recuo, crónica retirada de circulação, por comprovada ofensa à moral e aos bons costumes. Mais uns escritos e, antes que nos déssemos conta, chegámos ao número mágico, a crónica 19.

Não vale a pena dizer aqui que o 19 é o nosso número, o símbolo da nossa unidade num mundo desagregante, o nosso fetiche e estandarte. Esta crónica tem, assim, um certo ar de número de aniversário, aquela lauda centrada em si própria com que se comemora um ano de publicação seja do que for. É costume reservar essa edição especial para fazer uma pausa introspectiva, inquirir do que se pretendia, de como o atingimos, e se valeu realmente a pena essa caminhada. Pois bem, sejamos fiéis à tradição, atenhamo-nos ao uso estabelecido.

Valeu a pena, ter chegado até aqui? A pergunta não é só escusada, é mesmo perfeitamente imbecil. Parece-me por demais evidente que, quando se escrevem dezanove crónicas, e se publicam depois num blog, é porque se achou que valia a pena, ou então ter-se-ia arranjado qualquer coisa melhor para ocupar o tempo. Esse é o ponto de vista do autor, dir-me-ão, mas, e os leitores, o que pensam? Ora bem, os leitores dividem-se em dois grandes grupos, os que acham que sim, e os que acham que não. Os que pertencem ao segundo grupo deixaram há muito de ler estas crónicas, e não nos interessam para aqui, até porque não vão ler isto. Posso portanto afirmar que os leitores, os que contam, os que estão de facto a ler, também acham que valeu a pena. E pronto!

Quanto a objectivos, a coisa fia um pouco mais fino. Observadores mais atentos terão decerto notado que nunca houve, desde o início, uma declaração de princípios, uma carta de intenção, pois o primeiro objectivo deste projecto, a sua agenda oculta, era não haver qualquer objectivo declarado. Os objectivos, feia invenção do sistema corporativo, são coisa que começam por soar muito bem, nada como se saber o que se pretende atingir, e tudo isso, mas acabam na prática por, sem nos ajudar a atingir o alvo que queremos, impedir-nos de alcançar outras metas possíveis, só porque não foram inicialmente previstas. Para além disso, a orientação por objectivos é um sistema perverso, como ficou cabalmente demonstrado, quando o implementaram um dia no Céu.

Logo após a entrada em funcionamento do novo sistema, os primeiros clientes foram dois mortos da mesma aldeia, o padre e o taxista, que toda a vida fora ateu. São Pedro instalou o padre numa modesta choupana, e o taxista num palácio sumptuoso. Quando o padre protestou, explicaram-lhe, Orientação por objectivos, meu caro. A questão é esta, quando tu dizias missa, toda a gente dormia, mas, quando ele conduzia, toda a gente rezava.

É por isso que estas crónicas, não tendo qualquer objectivo, atingiram plenamente todos os objectivos que se lhes foram deparando pelo caminho. Podem nunca ter chegado aonde queriam, até porque nunca quiseram chegar a lado nenhum em especial, mas acabaram sempre por estar onde deviam. A maior parte das vezes, pelo menos, e isso já não é nada mau.

Por último, é costume, nestes casos, agradecer aos leitores, garantir-lhes que o mérito é todo deles, que foram extraordinários, que nada disto teria sido possível sem eles, passar-lhes, em suma, uma carinhosa mão pelo pêlo. Pois bem, se estão a contar comigo para dizer coisas dessas, vão desde já tirando o cavalinho da chuva, antes que o bicho fique ensopado. Mais depressa verão sair da minha boca notas de mil, do que um elogio aos leitores destas crónicas.

Refiro-me, evidentemente, aos regulares da mesa 19, que lêem mas não comentam, ou então não lêem, e se comentam não contribuem com um chavo para a discussão, deixando-me sozinho a puxar a charrua. Sozinho, não, com a benemérita ajuda de duas amigas, que nunca sequer almoçaram na mesa 19, mas lá me vão fazendo a esmola das suas opiniões. Dos meus confrades, nada. Dá para ficar chateado, não dá? É claro que não, dá mas é para escrever outra crónica, para depois também ninguém a ler, nem a comentar. A próxima, revelo-o aqui em antestreia, terá o número 20.

7.25.2006

18 – Silly Season.

Agora que o calor finalmente aperta, e um encalmado mês de Julho se prepara para ceder a vez ao tórrido Agosto, que arde já em ânsias de nos fazer suar as estopinhas, entrámos de pés ambos naquela que, nos meios jornalísticos e afins, se usa chamar a Silly Season. Nos telejornais, jornalistas que gostariam de estar de férias substituem, sem vantagem aparente, os jornalistas que estão efectivamente de férias, e vão-se galhardamente esforçando por inventar as notícias que não há. Rato que se atreva a morder um gato, ou velha que se lembre de completar cem anos, têm nesta altura honras de reportagem de abertura, e peça de vinte e dois minutos, com entrevistas e tudo.

E isto não se fica por aqui. Os telejornais são as vítimas óbvias, mas o síndroma, não há que iludi-lo, é um fenómeno colectivo, e de dimensão nacional. Por toda a parte se assiste a esta dispersão dos temas candentes, das questões marcantes, dos grandes problemas de fundo, estruturais, como se, de súbito, nada houvesse de mais grave do que uns quantos banhistas picados por peixe-aranha, ou o preço da amêijoa no mercado do Bolhão. É o tempo das lérias e dos nadas, das ninharias e minudências, das quezílias e questiúnculas, das merdices e caganitas. Os espíritos grandes são amavelmente convidados a pôr de parte essa grandeza, trocando voluntariamente o Vítor Hugo pelo Vítor Espadinha, o bom do Eça por um programa de vídeos domésticos, que se poderia hipoteticamente chamar “Ora Essa”, ou então, “Homessa”. A forte pintura do José Malhoa cede a vez ao erotismo de vão de escada da Ana Malhoa, e não espantará que venham ainda a substituir o Salvador Dali por um gajo qualquer, desde que seja daqui. Oxalá seja pelo menos salvador, como o outro, que bem andamos precisados de um.

Facilmente poderá o leitor astuto depreender que a nossa mesa, a mesa 19, sendo, como é, um organismo vivo, parte integrante da urdidura do tecido social, não poderia jamais eximir-se a este processo predatório e deletério, que insidiosamente permeia a realidade do momento. Isso mesmo constatei com mágoa no almoço de hoje, o meu primeiro após três semanas de abençoada contemplação do meu próprio umbigo (pensei inicialmente dedicar-me a um estilo de meditação mais radical, que consistiria em contemplar os meus pés, mas acontece que deixei de os ver, mais ou menos na época em que Portugal se sagrou vice-campeão europeu. Estou no entanto persuadido de que ainda andam por lá, algures no fim das minhas pernas).

Tal como eu, também o Zé Eduardo regressava de férias, enquanto os outros dois falavam em iniciar as suas, um em breve, outro um pouco mais tarde. Em resumo, aquilo não era uma mesa de almoço, era a sala de espera de um aeroporto, um daqueles antigos, onde partidas e chegadas se entrecruzavam num mesmo bufete, conversas de quem vinha a entrechocar-se com os ditos de quem ia, visões de paraíso tropical em conúbio promíscuo com sonhos de emigrante regressado a casa. Isto resultou na única conversa possível, a conversa digna da Silly Season.

Tentámos bravamente fugir ao anátema: falámos um pouco de futebol, alguma coisa da situação mundial, até – valha-nos Deus – se falou de trabalho, mas tudo sem efeito. A coisa, como diria o Zé, não levantava voo. Chamámos a Vânia, insultámos gratuitamente o emplastro, mas o resultado foi oco, pouco convincente. Parecíamos quatro tigres que, num número de circo, trucidam o domador que derrubaram, mas por mero dever de ofício, sem terem verdadeira fome, nem lhes sabendo bem.

E isto não se vai resolver tão cedo. Trata-se, no fundo, de um dilema miltoniano: os que regressaram choram o seu “Paradise Lost”, os que partirão sonham já com a obra posterior, o “Paradise Regained”. Vamos precisar de alguns dias para pormos o Milton de lado, e resignarmo-nos antes à sentença filosófica de Alexandre O’Neill: “Há mar e mar, há ir e voltar”.

7.11.2006

17 – O convidado ausente.

Tanto quanto me recordo, o João da Ega nunca almoçou connosco na mesa 19. Não poderei decerto jurá-lo, pois a outrora fiel memória vai já claudicando ao peso do anno domini, mas estou razoavelmente seguro de que não me teria esquecido, caso o facto se tivesse dado. Argumentam alguns, mais prosaicos, que tal coisa não pode obviamente ter ocorrido, sob razão de ser o Ega, simplesmente, uma personagem saída da ubérrima pena queirosiana. Dou ao desprezo o argumento espúrio e falacioso, toda a gente sabe que as personagens de Eça, maximamente o João da Ega, comem e bebem como toda a gente, realidade que as (muitas) páginas d’Os Maias abundantemente provam. Nada, ele podia perfeitamente ter passado por lá, apenas não calhou. Talvez o tenha mesmo tentado, quem sabe se não tomou uma destas manhãs a caleche do Torto, batedor de confiança, e, ajustando o monóculo na cana do nariz, mandou com impaciência bater para Leião, “e a trote, Torto amigo, que o almocinho não espera!”. Mas o pobre Torto sabia tanto ir dar a Leião como à Patagónia, Leião, no tempo dele, era apenas mais um matagal cerrado e temeroso, de onde a espaços surdiam javalis. Acabaram ambos, cocheiro e passageiro, por ir comer o coelho frito à Porcalhota, garfadas entremeadas com o espanto de lhe chamarem agora Amadora. E quem perdeu com o desvio deles fomos nós.

Sou, confesso-o sem orgulho, mas também sem pejo ou vergonha, um queirosiano indefectível, devoto, até. Conheço bem que há correntes contrárias, ainda há pouco o excelente cronista Pedro Mexia, senhor de um estilo lapidar, de um poder de comunicação fantástico, e do meu maior respeito, ainda há tempos, dizia, denegria ele a visão pessimista e demolidora de Eça, a forma como o escritor reduz a nossa portugalidade a uma choldra, ipsis verbis. Compreendo a opinião, e respeito-a, mas acontece que penso de outra maneira. Julgo que Eça considerava tudo isto uma choldra por uma razão bem simples, que era o facto de isto tudo ser, de facto, uma choldra. Creio sinceramente, com a melhor boa-fé, que Eça se mantém actual, e por uma razão bem triste, que é o facto de isto tudo continuar a ser, passe o termo, uma choldra. E se, para justificar este ponto de vista, fossemos agora solicitar o contributo do amável João da Ega, estou em que ele não hesitaria em apontar dez meninas das chamadas celebridades, por cada Raquel Cohen, mil médicos e advogados criminosamente incompetentes, corruptos e impunes, por cada Padre Amaro ou Negrão, dois mil políticos pusilânimes pelo Conde de Abranhos, seis mil altos funcionários da nação que se empertigam como o Gouvarinho, toda uma legião, enfim, de emproados émulos do saudoso Conselheiro Acácio. A sociedade, helás, não mudou tanto que deixe de se rever no retrato queirosiano. Apenas envelheceu e refinou, ao ponto de abundar hoje em novos canalhas, capazes de fazerem do Primo Basílio um malandreco traquinas, a pregar uma saborosa partida à prima.

Pergunta-me agora o paciente leitor, que resignadamente acompanhou esta diatribe, que coisa tem tudo isto a ver com a nossa mesa 19. Várias respostas se poderiam dar, mas uma há que se destaca, que é a palavra-chave, a palavra fetiche, “choldra”. A mesa 19 é muita coisa, é mesmo muitas coisas, e também, com frequência, o seu contrário, mas uma característica tem que sobressai: a mesa 19 é um núcleo de resistência contra a choldra. Eximo-me aqui da pequena mise-en-scéne, tão habitual nestes lances, em que o leitor me pergunta, Mas que choldra é essa, e eu tomo a deixa, e avanço com a resposta. E se me dispenso do canónico e venerando ritual, de utilidade tão consabida, é somente porque não me consigo forçar a pôr tal pergunta nos lábios do leitor, sob pena de lhe estar a chamar burro.

Entendamo-nos: que conceito formaria deus sobre Moisés, se lhe dissesse, “Sobe a essa montanha, que eu tenho ali umas tábuas da lei para te dar”, e o visse contemplar a planície em volta, o monte Sinai à sua frente, e perguntar intrigado, Que montanha? Que retrato guardaria a história sobre o capitão do Titanic, após o ver, do alto do convés, contemplar a massa granítica do iceberg assassino, apenas para inquirir o seu imediato, Disse que vamos chocar contra o quê? Nada disto me parece verosímil, assim como não consigo imaginar um comensal da mesa 19 a declarar solenemente que a sua vida quotidiana decorre pacatamente no melhor e mais bem organizado dos mundos. Sejamos por uma vez frontais, o país continua atolado na choldra que Eça diagnosticou, e miríades de organismos, dentro do corpo maior, acham-se infectados pela mesma doença. A patologia é conhecida, a choldra tende a gerar choldra, e em cascata. Uma empresa que, num país neste estado, não seja uma choldra, arrisca-se a ser prejudicada, sofrer revezes, tirar uma má nota. Enfim, corre o risco de se dar mal, como expressivamente dizem os brasileiros. E os brasileiros, nada de ilusões, percebem disto de choldra.

Foi de facto pena, não ter João da Ega conseguido almoçar connosco. Dava-nos jeito agora, para nos explicar, com a sua lucidez de Mefistófeles mal mascarado, que as empresas estão tão sólidas como a pátria que as aloja, que um patrão, como tantos há, capaz de distribuir incentivos como quem, distribuindo amendoins no zoo, desse um cartuxo ao saguim e uma vagem ao elefante, é patrão que sabe bem o que faz, a arraia é que não sabe entendê-lo. Discorreria ainda sobre outras aberrações, tantas que há, e tantas vezes discutidas, e sobre todas aporia a sua bênção, irónica e ligeiramente satânica. Depois, emborcaria a aguardente, não deixando de a declarar, “um veneno torpe”, ajeitaria o monóculo, e partiria na caleche do Torto, rumo a um mundo igualmente imbecil, se bem que menos complexo.

Não, tanto quanto me recordo, o João da Ega nunca almoçou na mesa 19. É pena, pois fazia lá falta.

16 – Dispersão.

Nesse dia de fins de Junho, fomos só dois à mesa, o Rui Cardoso e eu. Houve ainda duas chegadas tardias, um que almoçava à pressa no intervalo de uma reunião, outro que só vinha para um rápido whisky, nada, em suma, que alterasse fundamentalmente a estatística. O facto é que éramos só dois, nessa segunda-feira que se ia encostando a Julho como uma rameira barata a um bêbado endinheirado. Senti que o facto merecia que dele se tirasse uma qualquer ilação, e lembrei-me então das férias de Verão, esse grande disruptor das sociedades que sofrem o acaso de não serem tropicais, como, para dar um exemplo inteiramente aleatório, a nossa.

Se alguém porventura cuida que exagero, rogo-lhe apenas que atente nas grandes datas, que são outros tantos marcos miliários no lento processo em que se forjou a nossa nação. Já no século XVII, é no início de Dezembro que expulsamos o espanhol; faz-se depois a república em Outubro, o estado novo num temeroso fim de Maio (em que por certo chovia, ou a coisa não tinha ido lá); enfeitam-se de cravos as metralhadoras num arriscado Abril, contingência que não foi possível evitar, tendo falhado a muito mais sensata tentativa de derrubar o governo em Março; há ainda quem se oponha ao novo regime, mas, não tendo podido organizar as coisas antes do Verão seguinte, opta por lançar a intentona em Novembro. Falhou, o que não deixa de ser estranho, vindo de um povo que tem invariável sucesso em tudo quanto organiza, excepto quando calha ser Verão.

Não nos iludamos, há em tudo isto um claro padrão. Tivessem os rebeldes de mil seiscentos e quarenta cedido à ideia precipitada de restaurar a independência em Agosto, e teriam por certo recebido de um cortês mordomo esta informação, que lamentava muito, mas o senhor Miguel de Vasconcelos encontrava-se a banhos no Estoril, iria depois tomar os ares de Setembro à Serra de Sintra, não quereriam os senhores voltar em Outubro? Os conjurados teriam então confabulado, se a data servia a todos, ou se trazia incómodos, até que um mais pragmático terá declarado, Nada, voltamos mas é em Dezembro, que ele há-de estar em casa, Mas não muito tarde, ou mete-se de permeio o Natal, Bem cedo, tornou o primeiro, vimos logo no dia um. Até fica uma data com estilo, agora que penso nisso, Primeiro de Dezembro.

Idênticas razões presidiram ao 28 de Maio, data que fora rejeitada por todos os grandes estrategas da época, sendo estes depois forçados a aceitá-la, contudo, ema vez que a maioria dos homens fortes do novo regime tinha já apartamentos reservados no Algarve para o mês de Junho. Assim foi também o 25 de Abril, bizarra insistência no tema derrotado um mês antes, mas que se impôs aos generais como um indiscutível desígnio nacional, visto que se aproximava a largos passos a época dos gelados em São Martinho do Porto. Pareceu então que o país ficava em paz, uma paz agitada, era certo, mas ninguém receava grandes violências. O 25 de Novembro tentou desmentir tal coisa, mas gorou-se. Há todavia, hoje em dia, a certeza histórica de que um 25 de Agosto teria apanhado o novel regime militar, literalmente, com as calças na mão. Só por uma razão se deixou de dar este bem sucedido golpe, é que os rebeldes, em Agosto, também estavam a banhos.

Num tal contexto, ninguém esperaria realmente que a mesa 19 se eximisse de tão nacional síndrome. Dos que faltaram no dia em que falamos, um entrara já de férias, outros andavam a treinar para as suas, todos intentavam partir. Até o humilde cronista sonhava já com três lânguidas semanas, entretanto começadas, de onde teria a oportunidade de escrever estas crónicas num jardim ensolarado, como é o caso desta. Voltarei em breve, mas será sempre de esperar uma nítida dispersão da mesa 19, maleita psicossomática a requerer uma boa dose de Outubro, em devido tempo. Até lá, façam todos o favor de ter umas boas férias.

6.30.2006

15 – O Outono na mesa 19.

Tranquilize-se o sobressaltado confrade, que daqui vejo estacar siderado, qual garrano que se empina nervoso face a algo que desconhece, mas do qual não espera coisa boa, como seja, no caso do leitor, este Outono que aqui nos cai de supetão, em pleno início das férias estivais. Nada receie, contudo, o meu estimado conviva, pois este Outono do título nada tem que ver com a estação das folhas caídas, que atapetam mantos de castanho fulvo e ouro, sob o arvoredo recortado em ramos nus contra um cinzento de neblina, persistente e fria. Não, o Outono que nos ocupa hoje é outro, trata-se de não menor coisa do que a estação, intemporal e climatericamente atípica, que Boris Vian situa em Pequim, para depois fazer decorrer toda a acção num deserto africano. O Outono em Pequim é talvez o melhor título que conheço. Lê-se o livro todo, lê-se com gosto, aliás, constata-se en passant que o texto nada tem que ver com uma coisa ou com outra, e conclui-se, no fim, que aquele livro não poderia ter outro nome.

Alturas há, confesso, em que não me surge como inverosímil a ideia de que há um pouco de Boris Vian nestas crónicas da mesa 19. Gosto sobretudo de pensá-lo por ser tão adequado, visto que há muito do universo de Vian na própria mesa 19. Há coisas que parecem graves sem o serem, como um dito mais arrojado, ou uma crónica que, de tão ferina, provoca um casus beli semelhante ao causado pelos padres do livro, que, armados de lança-hóstias, impediam a entrada para o autocarro, acabando tudo por redundar em nada, tanto num caso como no outro. Há também coisas de uma gravidade estupenda, avassaladora, que passam facilmente por minudências, tal como a redução do tempo habitualmente usado para almoçar, ou, no caso de Vian, o envio de uma equipa heterogénea para a Exopotâmia, com todas as catástrofes que tal viria a acarretar. Há ainda fúrias magníficas e despropositadas, verdadeiros eclipses da razão, seja quando o nosso taliban se exalta, ou o Gonçalo se ofende, ou ainda, no caso do livro francês, quando o interno, que cuida da cadeira doente, perde a cabeça com a sua desgraçada flatulência, e a envenena. O interno é condenado a partir contra a sua vontade para a Exopotâmia, o Rui continua a almoçar connosco, e o Gonçalo é o Gonçalo, quem saberá dizer qual é o mais castigado?

A minha admiração pela obra de Boris Vian, em todas as suas nuances, apenas encontra par na vergonha com que eu, de cabeça baixa, confesso o meu total desconhecimento de quase toda essa obra. De Vian, posso dizer que conheço o Outono em Pequim, já visto e revisitado, e mais alguns títulos soltos, sem contudo dispor de obra que lhes faça corresponder. Não é todavia despiciendo esse conhecimento sumário, pois os títulos do ilustre surrealista são, em si mesmos, outras tantas obras de arte. Legendas como, “Irei cuspir-vos no túmulo”, ou “A espuma dos dias”, quase nos convidam a dar por terminado o trabalho do autor, e a escrevermos nós próprios o livro, não há-de ser difícil, com pistas tão boas como estas. Sem embargo destes factos, gostaria assim mesmo de ler o que o próprio Boris escreveu, empenho que desde há muito consta na minha lista de coisas a fazer, mas já se sabe como é a vida, o que deve ser feito acaba sempre por ceder a vez ao que tem de ser feito, razão por que se acaba por não fazer nada de jeito.

Mas retomo o que disse antes, é lícito, ao menos para um ignorante como eu, ficcionar o texto que ficaria bem debaixo de tão expressivo título, “L’écume des jours”. Fecho os olhos, suponho que tracei as palavras no alto da folha em branco, e tento imaginar que vocábulos se ocultam sob tão lapidar pedra. É preciso notar primeiro que a tradução é imprecisa, écume convida mais a portuguesa escuma, do que espuma, e há nestes dois nomes diferenças precisas. Espuma é o que os sais de banho fazem na banheira, enquanto a escuma é um resíduo pouco agradável, com tendência a secar nos extremos onde chega, originado pela sopa que ferve demais, ou pela ressaca da onda que abandona a praia. E é esse, estou seguro, o sentido do título em questão, esta “écume” é a escuma meio seca, meio espumosa, que os dias deixam nas areias da nossa existência, quando se recolhem em fim de mandato.

Visto dessa forma, nenhum de nós é o areal imaculado que gostaria de se supor. Essa areia branca, a nossa alma infantil, reveste hoje uma espessa couraça, feita de camadas sobre camadas de escuma, essa espuma que os dias lá foram deixando em cada maré vaza. E isso aborrece-nos, a alma não é já infantil por ser pura, é infantil porque está ranhosa, e tem os cueiros sujos, e essa é a faceta do infantil que ninguém gosta de acarinhar. Sejam ou não funções naturais, o facto é que não há bilu-bilu que resista ao lábio subitamente encaracolado pelo rico perfume da poia, metáfora brutalmente fecal da tal escuma da alma. Pior ainda, mesmo que atingíssemos a proeza de limpar o areal da nossa alma colectiva, nada teríamos no fim, nada a não ser areia. E areia é a matéria com que se fazem desertos, nomeadamente este, na Exopotâmia, como cenários de inúteis caminhos-de-ferro, onde comboio algum virá a circular. A coisa não parece ter saída, e vem-nos a vontade de dizer três pais-nossos, como o abade Joãozinho.

Muito poderia ainda ser dito, mas não creio que mereça a pena repisar no assunto. Remontámos muito, como dizia o velho Eça, e, sem disso nos darmos conta, fomos estabelecendo todo um sistema, toda uma doutrina. Falta apenas, para acabar de quadrar o círculo, para ancorar a nossa tese, mostrar que coisa tem tudo isto a ver com a mesa 19. Ora isso, felizmente, é tarefa fácil, que não assusta quem já tanto argumentou. Vamos a ela, então.

Os nomes têm geralmente importância, e isto é especialmente válido em Boris Vian. A Exopotâmia não é um conjunto de sílabas escolhido ao acaso, como se depreende da sua etimologia, é uma palavra que nos remete para algo exterior. A que coisa é a Exopotâmia exterior, eis o que não é dito, mas ela não se embaraça por tão pouco, e vai-se mantendo teimosamente exterior, mesmo enquanto a interiorizamos. Se interpretássemos literalmente a palavra, teríamos de concluir que a Exopotâmia é exterior ao rio, o que é claramente um disparate. O problema de Vian, tal como o compreendo, é que a própria vida é, também ela, claramente um disparate.

A mesa 19 tem essa mesma característica, a de ser exterior. Não é sequer muito importante perceber a que é que é exterior, desde que o seja. Melhor ainda, trata-se de um exterior especial, um exterior intimista, o que parece contradição, e é só consolação. Os confrades da mesa 19 têm em comum o facto de conviverem diariamente com uma entidade interiorizante, asfixiante, auto-contida, que tende a colapsar sobre si própria como um buraco negro. Esses seres que a física descobriu, os buracos negros, caracterizam-se por exercer uma pressão intoleravelmente esmagadora sobre os seus habitantes, que naturalmente anseiam por um escape. A mesa 19 é o nosso escape, o nosso exterior, a Exopotâmia onde as regras habituais não vigoram, e o abade Joãozinho nos pode a todo o momento abençoar com uma oração blasfema, impondo-nos em seguida a penitência de três pais-nossos. Creio firmemente que o próprio Boris, caso se sentasse ali connosco, diria de bom grado os padres-nossos. Pois então, que diabo, também eu os digo, grato que estou por estes momentos agradavelmente passados em Pequim. E no Outono, logo no Outono.

6.26.2006

14 – Não-crónica.

No que é um parêntesis ao habitual estilo destes textos, formalizo-me, excepcionalmente e em bicos dos pés, para declarar que a crónica 14, a original, foi definitivamente retirada do blog, em resposta aos justos protestos da Vânia, que se considerou parte ilegitimamente lesada, quer na sua própria pessoa, quer na do Gonçalo, asserções que o autor não ousa desmentir.

Apenas como explicação, que não justificação, relembro que estas crónicas foram definidas, há já muito tempo, como caricaturas bem-humoradas de umas quantas pessoas, sendo evidentemente mais fiel a caricatura, quanto maior o conhecimento que o cronista tinha do seu alvo. Isso justifica um certo exagero na distorção das veras feições da pessoa visada, quanto mais nos é desconhecida essa pessoa.

Há ainda que lembrar que os factos narrados nas crónicas não são verdadeiros, antes obras de imaginação, filigranas construídas sobre as areias de um qualquer episódio solto, como foi o repararmos nós que a Vânia deixara de usar certo anel, e que certa pessoa deixara de ser vista por lá. Daí a inventar um lance em que a Vânia nos contava isto e mais aquilo, foi um curto passo. Mais uma vez, não tive a consciência do efeito que tal invenção poderia produzir no leitor, neste caso, a própria Vânia, do que igualmente me penitencio.

Em suma, este blog entra hoje no seu caminho legítimo, do qual lamento me ter transviado. A águia Sam tinha razão, a história da mesa 19 não se escreve com lápis importados, mas com as nossas veras tintas, pelo que esta cronologia promete, desde hoje, voltar-se sobretudo para dentro. Às vítimas inocentes dos erróneos desvios do percurso, sobretudo à Vânia e ao Gonçalo, as nossas sinceras desculpas. Lastimo sinceramente ter ofendido, embora sem ser por mal.

Afinal não é o treze que dá azar, a crónica catorze é que não devia ter existido. Enfim, quod scripsi, scripsi, e só nos resta aguardar a quinze. Enquanto ela não vem, tentem não levar a vida muito a sério, ou então morrem. Tá?

6.16.2006

13 – Juramento de sangue.

“Nos primórdios do século XXI, era ainda habitual que os cidadãos se reunissem em grupos, por vezes até com mais de duas pessoas, a fim de comerem, beberem e conversarem. A estas improváveis agremiações de gente, costumavam eles chamar, as tertúlias”.
in “A grande enciclopédia da proto-história”, edição de dois mil seiscentos e oitenta e nove, revista.

É quase impossível para o cronista, que desde a sua desperdiçada juventude sofre de um irremediável pendor místico, evitar uma associação cabalística, mesmo bíblica, que permeia como um substrato ectoplásmico as crónicas mais recentes. Não é com efeito um caso fortuito que a última tenha sido a décima segunda, número de terminação, a evocar os apóstolos e o fim de Jesus Cristo. Esta, em contrapartida, ostenta o número treze, símbolo inequívoco da predominância aziaga de Judas Iscariotes, figura entre todas controversa, por ser o inimigo de Cristo que o ajudou a concretizar os seus planos, diabo sem o qual não haveria Céu, deus ex machina feito mais tarde demónio, maldito pela sua bendita intervenção no plano divino que, embora o negasse, sempre contou com ele. Nada disto é realmente importante para esta crónica, como é evidente, e só é mencionado para mostrar a alguns espíritos, que exibiram uma certa preocupação quanto ao número fatal, que tudo é relativo, como provou o velho Einstein na sua famosa teoria, cujo imorredoiro enunciado é, “bem, sabe, isso depende, é relativo”.

Serve esta erudita introdução para vos dizer, à sua maneira cambaleante, e exuberantemente caótica, que a comissão responsável pela edição das crónicas da mesa 19 decidiu, após auscultar as opiniões disponíveis em comentário, e depois de severa e prolongada disputa interna, durante a qual o editor se chegou a ferir a si mesmo num olho, numa discordância das suas próprias opiniões que, infelizmente, não fez escola, mas decidiu então a comissão, repetimos, manter a publicação destas crónicas, subsistindo, todavia, um clima de abertura para quaisquer dissenções que se venham a revelar. Isto determinado, há agora naturalmente que escrever uma crónica. Pois que não seja isso um problema, vamos a ela, antes que esfrie.

A mesa 19 é acima de tudo uma tertúlia, e tal consiste, pela sua raridade, cada vez mais num laço sagrado. Nem sempre estamos juntos, como nem sempre temos opiniões iguais, mas são essas diferenças que nos unem, tal como essas distâncias nos aproximam. Esta semana foi disso paradigmática, com uma sardinhada que só envolveu quatro de nós, seguida de uma série de pedrinhas entre feriados, por onde só saltitaram os que tinham faltado à sardinhada. A ela faltou também a Vânia, por razões de força maior, que a obrigaram também a faltar às pedrinhas das semanas subsequentes. Que mal tem isso, afinal, se o sentido de unidade se não desfez?

Há entre nós um juramento que jamais foi dito, mas que se escreveu por si só no sangue de uma honradez primeva, coisa velha e que se supunha em desuso. É isto que autoriza a crer que, contra todas as canalhices do dia a dia, a tertúlia permanecerá coesa. E, enquanto tal se der, as crónicas cá estarão para lhe fazer justiça, nem que para isso tenham de se engalanar com o aziago treze, como foi o caso desta. A guarda morre, mas não se rende. A mesa 19 também não.

Esta, escusado será dizer, foi uma crónica de princípios, de tomada de posições, de definição de atitudes. A próxima, felizmente, será uma crónica interessante, divertida, até, isto no caso de mo permitirem, e não mo levarem a mal. Até lá, vão fazendo o favor de serem felizes.

6.07.2006

12 – Implosão.

Se alguma coisa foi desde o princípio evidente, é que estas crónicas falam de luta, de pequenas e amáveis lutas entre distintas maneiras de ser. Nunca as quis isentas de conflito, aquele conflito amigável que tanto agrada ao Rui Constâncio, a palmada cúmplice e acompanhada de um piscar d‘olho. Caricaturei amigos nestas páginas, mas, se virmos bem o assunto, não fiz mais do que retocar a máscara de comédia que eles próprios se comprazem em apresentar no dia-a-dia. O Paulo, por exemplo, tem cultivado um trato bruto e soez que muito o diverte, e que eu me limitei a enrugar numa caricatura, situando-o no cu do Macaco com Hemorróidas, em Bostis Merdix 7. Tudo isto foi feito de boa mente, e não tinha outra intenção que não fosse esta, unir mais as pessoas em torno de uma brincadeira resultante de uma vivência comum. Toda a gente sabe, todavia, onde vão parar as boas intenções.

O dia de hoje não me correu bem. Não quero com isto dizer que os dias corram assim ou assado, porque, hoje em dia, graças à modernidade dos tempos, os dias não correm, antes decorrem em paralelo, pistas múltiplas por onde deslizam as diversas questões que nos afectam. Em duas dessas vertentes, uma pessoal e outra profissional, o meu esquiador topou com um pedregulho dos grandes, estatelando-se ao comprido. Tentando recompor-me um pouco, pus-me então a pastar por veredas secundárias, e fui dar de caras com o comentário do Z9 à crónica Nº. 11. Não ajudou.

Trata-se, inegavelmente, de um comentário perfeitamente legítimo, ao qual nada há a reprovar, mas que teve o condão de transportar esta brincadeira para um plano completamente diferente daquele que originalmente norteou este projecto. Tem de lamentável o facto de não fundamentar qualquer opinião, mas compensa essa deficiência menor com palavras como nojo, em maiúsculas, boçalidade e baixo quilate, coisas que, se vistas em conjunto com a (correcta) exclusão do caranguejo da classe dos mamíferos, não permitem acalentar ilusões sobre as intenções do comentador. Como costumava dizer o Bugs Bunny, “you know, of course, that this means war!”. Pois bem, não quero nada disso.

Volto a dizer, o único objectivo destas crónicas foi ajudar a unir a tertúlia da mesa 19, numa época em que as tertúlias são tão difíceis de encontrar e manter. Espero que alguns dos textos que atrás ficaram escritos tenham tido um papel, mesmo que modesto, nesse nobre desígnio. Mas tudo tem um fim, mesmo a salsicha, que tem dois, e o que é demais pode sempre fartar, pelo que tudo leva a crer que chegámos ao fim da linha.

Assim, com muita pena minha, despeço-me das crónicas da mesa 19, com um grande agradecimento a todos os que tiveram a paciência de as acompanhar. Este espaço não morre, mas fica apenas suspenso, só não sei dizer até quando. Um dia, se as condições o justificarem, as crónicas voltarão. Até esse dia, aceitem um grande, Até já, do vosso amigo Fózi (aka Nuno Coelho).

6.02.2006

11 – Dissecando o ET.

A mesa 19 não percebia nada de aritmética, e isso patenteava-se claramente em questões tão triviais como o número de lugares a reservar para cada almoço. Era vulgar encontrarmos apenas quatro, e termos de juntar uma mesa ao espaço que nos tinha sido guardado. Um dia, no entanto, a Marta antecipou-se, e juntou a tal mesa, reservando seis lugares. Logo por azar, éramos quatro, nesse dia. Retirada a mesa adicional, viemos a receber um telefonema que nos autorizava a esperar novo comensal, pelo que voltámos a juntar a terceira mesa. Prescindimos dela uma hora depois, face à evidente ausência do prometido conviva, e a mesa foi de novo removida, sem jamais ter sido ocupada. No dia seguinte, a Marta só nos reservou quatro lugares, o que não bastava, visto que éramos seis.

Outro frequente pomo de discórdia prendia-se com a momentosa questão do ar condicionado. O aparelho de ar condicionado daquela sala situa-se directamente sobre a mesa 19, o que convém maravilhosamente a encalorados como eu, mas desagrada a gentes mais tropicais, para quem seria preferível que a dita maquineta se encontrasse instalada sobre qualquer outra mesa daquela sala, ou, melhor ainda, de uma sala inteiramente diferente. No entanto, conseguíamos via de regra chegar a um consenso, excepto quando o Paulo se encontrava presente.

Tudo no Paulo exsuda aquela encantadora bestialidade feroz, que nos mostra, de forma brava e honesta, aquilo que a humanidade poderia ter sido, caso não se tivesse dado o advento da civilização. Esperar que ele exiba graças sociais, ou comportamentos contemporizadores, é o mesmo que pedir a um enorme gorila que segure uma delicada taça de champanhe, sem derramar uma só gota, durante uma intensa crise de epilepsia. Assim que o Paulo se apercebia do jacto de ar frio, apressava-se a pedir delicadamente, naquela sua forma deliciosa de soltar as palavras por entre os dentes, como balas despedidas do cano de uma metralhadora, Desliga essa merda, porra! Nós então discutíamos democraticamente o assunto, numa assembleia moderada pelo líder natural, que era a pessoa a quem a Vânia tivesse confiado o controlo remoto do aparelho.

Não eram nada fáceis, estas discussões democráticas. Logo para começar, sempre suspeitei que o Paulo não dominava inteiramente o conceito. O facto é que, quando se falava em democracia, ele tinha uma certa tendência para sorrir e mudar de assunto, embora tenha uma vez admitido que na verdade não lhe desagradava, na condição de vir bem passada. Estas carências pontuais, que de certa forma o distanciavam daquilo a que se costuma chamar um intelectual, forçavam-nos amiúde a adoptar, como língua oficial da assembleia, o seu vernáculo das docas, o que tinha o efeito de pontilhar as discussões com cruas referências a improváveis funções biológicas, ao mesmo tempo em que se desvendavam segredos inomináveis sobre os hábitos sexuais dos antepassados de cada um dos circunstantes. Aquilo era lamentável e, de certo modo, muito parecido com duas miúdas em biquíni a lutar numa caixa de lama: é nojento, é degradante, e ninguém quer ficar de fora.

Mas havia algo que não fazia ainda sentido. Eu contei já nestas páginas que o Paulo, oriundo do planeta Bostis Merdix 7, teve a sorte de ir parar a uma firma corporativa, onde se adaptou como uma luva se adapta à mão que a veste. Mas acontece que eu sei que uma das principais actividades desenvolvidas por estas empresas é a realização de reuniões. Marcam-se reuniões seja pelo que for, ao ponto de a mais prestigiada das reuniões, la creme de la creme, se dividir em duas partes. Na primeira, analisa-se a reunião anterior, enquanto a segunda é dedicada a planear a reunião seguinte.

Isto queria então dizer, se a lógica não me pregava nenhuma partida, que a atitude do Paulo era um trunfo de sobrevivência neste ambiente, e que as tais reuniões não passavam de outras tantas sessões de luta livre como as nossas, onde imperaria a lógica do “tem razão quem bate primeiro”, e onde o equilíbrio do poder seria decidido com base na pose do controlo remoto. Pensei um pouco mais, recordando algumas reuniões a que compareci, antes de ser dispensado dessas actividades, devido ao meu hábito de adormecer a meio da função. Não havia por onde errar, as reuniões corporativas eram mesmo assim, e o Paulo ajustava-se-lhes na perfeição.

Subitamente, compreendi tudo: o planeta Bostis Merdix 7, de onde o Paulo veio, é necessariamente mais evoluído do que o nosso, visto que dominam já as viagens inter-estrelares. Os seus habitantes não são já homo sapiens sapiens, pois evoluíram para o estádio seguinte, o homo corporativus. Esta nova espécie, dispondo de poderes que apenas agora começamos a aflorar, está expressamente adaptada a um ecossistema de merda, cujos ciclos se limitam a transformar caca em bosta, e vice-versa. É um homem que vale a pena contemplar, o Paulo, novo modelo do futuro do homem.

Isto leva-me de novo às observações que abrem esta crónica, os nossos problemas com a aritmética mais trivial. Interpreto tal coisa como um sinal, muito positivo, de que nos estamos por fim a integrar no modelo corporativo. Nunca vi, com efeito, um moderno gestor que fosse capaz de somar dois números sem se sentir enjoado. A única coisa que todos sabem é que dois objectos juntos formam um par, e sabem disso porque um par é algo que as suas mulheres lhes meteram na cabeça, já há algum tempo

Resta-nos apenas mencionar, só por mencionar, o emplastro da Vânia, o Gonçalo. Não estou ainda seguro disto, mas suspeito que é ele o Terminator.

5.31.2006

10 – Os sonâmbulos.

Esta noite, caí da cama…

Pior, não foi sequer isto o que aconteceu. Cair da cama é algo que me tem já acontecido, embora com uma raridade que reputo extremamente feliz. Cair da cama é um acidente, mas atirar-me da cama abaixo é um acto de estupidez, ou não será? A verdade é que não é, trata-se apenas de um episódio de sonambulismo. Eu passo a explicar...

A palavra sonambulismo, que à letra quer dizer, locomoção durante o sono, designa genericamente os fenómenos em que o conteúdo do sonho se reflecte em acções no mundo real, como caminhar a dormir, ou falar em voz alta. Foi o que se deu comigo, sonhei que tentava escapar de um casa em chamas, para qual intento se impunha que saltasse através de uma janela baixa. Eu assim fiz, acordando quase no mesmo instante. Tive então, por uma breve fracção de segundo, um aflitivo momento em que experimentei a angústia do ser, enquanto dúvidas epistemológicas revoluteavam pelo meu espírito como andorinhas numa tarde de Verão, O que estou eu a conseguir da vida? Estarei a cumprir as minhas metas? E, acima de tudo, o que faço eu aqui, em plena queda livre?

A última pergunta perdeu a sua razão de ser, no momento em que colidi dolorosamente com a realidade. A realidade, nesta instância, tomou a forma material de uma grande porção de soalho, onde me deixei ficar estendido, meditando sobre a insensatez do ser humano, e sobre as razões de eu ser humano. Quando o fascínio deste exercício mental cedeu terreno ao desconforto da minha posição, levantei-me e fui para a cama, de onde tive o cuidado de não me voltar a atirar.

Pergunta-me agora o pouco paciente leitor, a que se deve a inclusão de tal episódio nestas crónicas, isto admitindo, como deverá ser admitido, que não foi da mesa 19 que eu caí, e nem sequer apareci a dormir no restaurante. Isso é sem dúvida verdade, e uma verdade muito bem vinda, uma vez que o meu hábito de dormir nu não deixaria de colidir com a moral severa e os austeros princípios desse excelente estabelecimento, com a estrita correcção dos dignos proprietários, e com o sentido estético dos restantes frequentadores. Isto esclarecido, devo dizer que veio a pelo relatar o nocturno episódio por uma simples razão, que foi ter o mesmo servido de ponto de partida para a conversa que dominou, no almoço de hoje, grande parte do período pós-prandial do repasto, também conhecido como a hora dos digestivos.

A narração dos meus apuros e vicissitudes foi acolhida com uma talvez imerecida ovação e aplauso, depois do que se contaram histórias subordinadas ao mesmo mote, o sonambulismo do Paulo e o de outros, que casos esporádicos também contam, a angústia de quem se perde num quarto escuro porque não se lembra de como lá chegou, ou o embaraço de acordar para encontrar a empregada, enquanto passeamos nus pela casa (esperem aí, esse também fui eu). Os casos iam-se cruzando, enquanto se perdia o fio à meada, quem foi mesmo que deu uma tareia à mulher, enquanto sonhava que combatia assaltantes? Foi nesse ponto que a verdade chocou estrepitosamente contra o mal aparelhado brigue das minhas ideias pré-concebidas: nós somos todos sonâmbulos, e não sabemos disso!

A coisa parecia bem achada, cristalina, até, mas a ambição de a arvorar em tese pedia mais fundamentada demonstração. Tal não era contudo difícil, tudo o que nós, os da mesa 19, fazemos o dia inteiro, é agir de acordo com a percepção da realidade que o nosso espírito nos fornece, e que nós quotidianamente tomamos pela própria realidade. Sobram todavia provas de que não é esse o caso, basta acordar um bocadinho, e olhar para os factos.

Ironicamente, o mais desperto de entre nós deveria ser, por direito de nascimento, o que era na realidade o principal sonâmbulo, o Paulo. Oriundo como era de Bostis Merdix, tinha a obrigação de compreender o que era a realidade, mas nunca ninguém foi capaz de determinar, infelizmente, se ele compreendia realmente alguma coisa, para além do acto boçal de introduzir comida na boca, e mastigá-la sem se babar, proeza que lhe custava um enorme esforço. Os restantes viviam um fenómeno que o Carlos chegou a descrever à mesa, sonhavam que tinham estado a sonhar, e que estavam agora acordados. Ora, não existe logro mais insidioso do que esse.

A estratégia é simples, tudo começa quando alguém decide criar macacos numa ampla jaula, pretendendo contudo que os símios se sintam livres. Encerra-os então numa pequena gaiola, a um canto da jaula, tendo o cuidado de munir a gaiola de uma fechadura fácil de abrir. Eventualmente, um macaco acabará por sair da gaiola, trazendo outros no seu rasto, e os macacos libertos passarão a habitar a larga jaula. Por terem escapado a uma prisão, serão incapazes de perceber que estão confinados a outra. Os macacos menos contestatários, pelo seu lado, continuarão a habitar a pequena gaiola. Chama-se a isto, em linguagem corporativa, o melhor de dois mundos.

E é assim que a mesa 19, como todos os que a rodeiam, lá vai realizando diariamente as suas sonâmbulas evoluções, representando no dia-a-dia o sonho que crê real. Mas a resistência alastra, mais pessoas são desligadas da matriz a cada dia que passa. E eu tenho esperanças de que um dia, não muito longínquo, um desconhecido se sente inesperadamente num lugar vago da mesa 19, e diga, apontando para um de nós, Foste designado para ser terminado. A história mostra que serás tu quem, um dia, vencerá a guerra contra o império corporativo. Os gestores do futuro enviaram um exterminador para te eliminar, e a minha missão é proteger-te.

Quem será o escolhido, a quem tais palavras serão ditas? A clarividência abandona-me, neste aspecto particular, e sei apenas que temos de estar preparados, e lutar para quebrar o sonambulismo em que nos movemos. Eu, pessoalmente, tenciono cair novamente da cama, esta noite.

5.25.2006

9 – ET, o extraterrestre.

Numa noite tépida de Verão, sem nuvens à vista, quando a Lua vai nova, experimentem deitar-se na relva e contemplar o céu, salpicado de estrelas que se estendem de horizonte a horizonte. Sem grandes pressas, deixando vaguear preguiçosamente o olhar, procurem a constelação que responde pelo nome de Cruzeiro do Sul. Poderá ser justamente aquela? Não, aquilo é mais um quadrilátero, e trata-se da Ursa Menor. Também não é essa, que poeticamente se chama Centauro. Busquem mais além, não desistam. Já a encontraram? É claro que não, vocês estão no hemisfério Norte, e a cruzeiro só é visível a partir do outro hemisfério, seus tansos. Cruzeiro do Sul, não é? Dãã?

Enfim, isto é apenas um exemplo simples, mas que mostra bem como a astronomia pode ser um passatempo apaixonante. Vamos agora dirigir a nossa atenção para um grupo menos conhecido de estrelas, a constelação do Macaco com Hemorróidas. É um agrupamento fácil de reconhecer pelas oito estrelas do topo, que replicam fielmente a efige do actual presidente dos EUA. Alguns astrónomos defendem, na realidade, que as poucas diferenças observáveis se devem a um erro do presidente Bush. Descendo ao longo do corpo do macaco, podemos observar uma estrela de magnitude oito, precisamente no ponto em que o figurativo primata se prepara para enfiar um dedo pouco limpo pelo rabo acima. É do sétimo planeta dessa estrela, que os astrónomos nomearam, pela sua localização, Bostis Merdix, que eu suspeito que o Paulo veio.

A vida não é nada fácil em Bostis Merdix 7. O simples facto de estarem situados na região anal de um gigantesco macaco galáctico não é coisa que estimule o amor-próprio dos habitantes, e a própria realidade do planeta pouco faz para melhorar esse estado de coisas. Até a língua conspira contra eles, ser terra-a-terra, ali, é ser merda-a-merda, e se alguém se assusta não fica aterrado, mas emerdado. Isto é, na merda. Em Bostis Merdix 7, terraplanar é esmerdalhar, e um terraço, naquelas bandas, não passa de um merdaço. Os cientistas de Bostis Merdix decidiram que o mal estava no planeta de bosta que lhes tinha calhado na rifa, pelo que era imperativo iniciar a colonização da galáxia.

Seleccionaram para esse efeito um longínquo planeta que, por uma cagada dos deuses do azar, acabou por ser justamente o nosso, e prepararam um foguete destinado a cá chegar. Nele depositara um bebé, a quem deram um nome baseado nas duas palavras mais pronunciadas na região de destino, Paulo e Merda. Já na fase do lançamento, contudo, um cientista entrou a gritar, É Sousa, malta, afinal é Sousa. Num ápice, os restantes corrigiram apressadamente o nome para Paulo Sousa, e o foguete partiu. Só posteriormente o mal-entendido foi desfeito, o Sousa era em vez do Paulo, e Merda continuava a ser o nome mais frequente no pequeno país a que a nave se destinava. Mas era tarde demais para corrigir o engano.

Acabou por correr tudo pelo melhor, o ser cósmico veio a integrar-se numa empresa muito parecida com o seu mundo original, ao ponto em que ninguém diria que ele era oriundo de Bostis Merdix 7. Ou então, para dizer melhor, ninguém diria que a firma não era nativa do planeta dele, tal era a bosta do seu funcionamento. A coisa só se notava durante os almoços, em que ele se mostrava mais feroz do que a maioria dos comensais, e por vezes desabridamente rude nos seus equívocos comentários, chegando a ser agressivo como a merda.

Ah, sim, e fazia mais bosta, também, mas a malta continuava a gostar dele.

8 – A coisa alastra-se.

Já lá disse Robert Heinlein, a chatice de ter uma gata é que ela está sempre a ter gatinhos. Ou então, vejamos o problema do ponto de vista dos ingleses, que defendem que nenhuma boa acção escapa sem castigo, verdade que me atingiu em cheio quando descobri que a publicação deste blog, a minha discutível boa acção, começava a convocar reacções externas, de maior ou menor poder de ameaça. Não apontarei aqui casos individuais, de forma a proteger, não os inocentes, mas a minha pobre cabeça, que gostaria de levar intacta para o túmulo. Direi no entanto que, de um modo geral, se começava a alastrar nos meios limítrofes ao nosso grupo a ideia de que a mesa 19 se compunha de um bando gargantuesco, pantagruélico, que gastava uma imensidão de horas em bacanais rabelaisianos de comezaina e vinhaça. À orgíaca degradação escaparia apenas um personagem, este vosso humilde cronista. Ora bem, há que dizer com toda a frontalidade que nada disso era assim, nem os outros bebiam tanto, nem eu tão pouco, e, se tal coisa parece depreender-se é justamente por ser eu o cronista, pelo que tenho sempre o cuidado de me pôr à margem dos exageros que vou inventando nos outros. São figuras de estilo com que se vai salpicando de alguma cor esta série de contos, e não oferecem perigo, quando lidos por quem conhece a real realidade, se é que esta frase se pode dizer assim. Depois, quando menos nos precatamos, vem alguém de fora, lê a direito o que era para ler na diagonal, e está armado o burburinho. Fique portanto descansada a população, que a mesa 19 é apenas um sítio onde pacatamente se almoça, onde alguns bebem mais que outros, mas sempre dentro do que manda a razão, e onde também estou eu para cometer os excessos, dizer os disparates, e ir convocando os jarros de bebida com que as nossas musas habitualmente nos brindam. E tenho dito.

Vem esta nota marginal a propósito da seguinte constatação, a crónicas saíram já da mesa 19, e esvoaçam soltas pelo mundo. Aquilo que começou por ser um diário íntimo da vida mundana de uns quantos rapazes (nota mental: nunca usar “íntimo” e “rapazes” numa mesma frase), acabou por se tornar numa crónica social, com interesse genérico, e significados por trás dos significantes, ou seja, tornou-se numa coisa chata. Por outras palavras, cresceu. As coisas ficam normalmente chatas quando crescem, menos os bolos, que têm antes tendência para arredondar. E depois, isto dos crescimentos costuma ser uma coisa que se pega, escrevemos uma crónica que vai adquirindo maturidade e, mal nos precatamos, damos connosco a crescer também, e vamos deixando de saber o que é feito daquele espírito juvenil e galhofeiro com que embarcámos na aventura. Até os leitores, mesmo os que, por felicidade, são providos de uma alma infantil, se vêem arrastados para longe dessa doce enseada, e empurrados na direcção dos fundos negros e insondáveis da adultice, essa doença alarve e estupidificante que sempre espreita no descuidado futuro de cada um de nós. Como prova de que não exagero, veja-se a Vânia, que ainda hoje comprimiu severamente o habitual sorriso menineiro, para me repreender, em tom sério e inflexível, pelos vitupérios com que salpiquei de opróbrio esse ícone do amor ideal, o seu namorado.

Por muito que eu tal coisa lamentasse, a verdade é que me vi forçado a assumir também um tom adulto, quando lhe expliquei que a crónica seis mais não é do que um pedido de desculpas pela famigerada crónica cinco, não constituindo a metáfora medieval qualquer ofensa, pese embora o uso de termos mais ou menos discutíveis. Ela não aceita tal coisa, no que me parece revelar um lamentável eclipse das suas notáveis capacidades psicológicas. Eu esperaria que isto fosse óbvio para qualquer psicólogo, uma referência a Miguel de Cervantes, feita por um psicopata, não pode ser senão elogiativa. Com mil diabos, Dom Quixote de la Mancha é o nosso ídolo, não há doido que se não reveja nele. Eu achei sinceramente que a minha criação, Dom Emplastro de la Mancha nas Calças, não era menos do que uma simpática homenagem ao jovem. Estava enganado, o que lamento, e nem a sétima crónica logrou pôr água na fervura. Fica portanto aqui esta, a última coisa com sentido que me permito escrever neste espaço, a declarar peremptoriamente que, no mundo real, nem os locatários da mesa 19 são uns bêbados, nem o emplastro é emplastro, mas apenas Gonçalo, um tipo porreiro que um dia fará a Vânia feliz (convinha talvez que aprendesse a descontrair-se um pouco, mas isso virá com o tempo). Isto declarado, peço encarecidamente a todos que não me voltem a obrigar a falar a sério, que não é para isso que este blog existe.

Muito obrigado.

P.S. Descobri hoje que o Paulo é um extraterrestre. Mais informações na próxima crónica.

5.19.2006

7 – Pontos nos Is.

Há muitos, muitos anos atrás, nasceram na longínqua cidade de Leitzpifpofpum dois irmãos gémeos, iguais como duas gotas de água, ou, pelo menos, como duas gotas de água que fossem iguais uma à outra, o que nem sempre acontece. Quando, porém, atingiram a idade da razão, revelaram possuir temperamentos bem diversos. João era um rapaz alegre e afável, sempre disposto a ver tudo o que lhe acontecia pelo lado melhor, e dando sempre o benefício da dúvida a toda a gente, enquanto José era amargo e desconfiado, tenebrosamente pessimista, sempre de pé atrás, suspeitando as mais sinistras intenções em cada sorriso que lhe dirigissem. Quando o avô, no seu leito de morte, lhes legou o habitual tesouro, na trivial condição de o descobrirem, ambos se lançaram na costumeira demanda. José, sempre antipático para todos, não encontrou quem o ajudasse, e acabou por regressar de mãos vazias, pobre e esfarrapado. João, o irmão simpático, contou com a ajuda de toda a população, e veio mesmo a descobrir o tesouro. Infelizmente, quando regressava em busca dos meios com que o transportar, foi vítima de uma séria infecção urinária, da qual por fim faleceu. A moral desta história parece-me sobejamente evidente.

Vem tudo isto a propósito das duas últimas crónicas, em que me tocou fazer o papel de irmão mau, ao denegrir a imagem do Gonçalo. A Vânia não gostou, o que prova apenas que é uma boa namorada. Alguns dos outros intervenientes puseram também ressalvas, mas, nesse caso, a doutrina divide-se. O argumento avançado é que o rapaz não pertence ao universo da mesa 19, não tendo portanto cabimento nestas crónicas. O facto, no entanto, é que esse universo não se esgota nos comensais que se sentam em volta da mesa, ou nem a própria Vânia teria aqui lugar. Estas crónicas tratam da mesa 19 como um todo, e discutem seja o que for que se relacione com a vida dessa egrégia colectividade. O emplastro, nome afectuoso que nós lhe dávamos, tinha aqui o seu papel, basta ver as vezes em que tive de esperar pelo meu brandy, para não lhes interromper o namoro (note-se que as palavras “esperar” e “brandy” não deveriam jamais ser encontradas na mesma frase). Só por isso, ele tem cabimento aqui, honra de que pouca gente se pode gabar. Se o humor cáustico que é um apanágio destes textos o leva a ofender-se, e não se sente disposto a levar a coisa à conta de uma brincadeira, pois que disso se trata, tem sempre o bom remédio de não nos ler. No caso inverso, é com prazer que o acolhemos na fraternidade.

Outro aspecto que poderá, quiçá, merecer reparos, é a observação que de passagem deixei na última crónica, quando afirmei que estamos todos apaixonados pela Vânia, bem como pela Marta, embora com algumas flutuações. Disse-o espontaneamente, e fi-lo por ser verdade, mas vejo agora que se trata do género de observação capaz de lançar a minha pobre carcaça nas mãos da Polícia Judiciária, por suspeita de pedofilia. Que diabo, sempre era verdade que não passávamos de um bando de cotas, todos com idade bastante para sermos pais das moças, que história vinha agora a ser essa, de estarmos apaixonados? Mesmo o adjectivo “platónico” parecia, naquele contexto, uma desculpa de última hora, pretexto improvisado para fugir aos calabouços da prisão preventiva.

Pois bem, eu explico, não era nada disso. A verdade é esta, nós estamos apaixonados pelas duas raparigas, tal como estamos apaixonados pela vida, e pelas mesmas razões: elas são vida, o género de vida que brilha, ilumina e aquece, que ri e compreende e esquece, e é de facto um grande prazer privar com elas. Caso, por alguma razão que eu pessoalmente desconheço, não seja já permitido descrever tal prazer como sendo uma paixão, mesmo que seja paixão platónica, eu peço então desculpa, retiro as crónicas ofensivas, calo-me para sempre, pedindo apenas que parem o mundo, porque eu quero descer. Não sei para onde irei em seguida, mas sei que me recuso a ficar num sítio onde a minha língua só será aceite, se for primeiro castrada.

É um assunto do qual vou estando farto, essa mania do Politicamente Correcto, que de há uns anos a esta parte vem infestando o mundo, e que é ela própria uma das maiores incorrecções de sempre. É graças a essa tese que eu não posso chamar preto a um preto, embora ele me chame branco a mim, e que ao mesmo tempo assume que eu não posso falar de paixão entre mim e a rapariga do restaurante, ou entre mim e qualquer pessoa minha amiga, sem presumir de imediato que eu a quero levar para um qualquer motel, e fazer com ela o que Adão fazia com Eva, enquanto Deus vigiava as maçãs. Ou seja, o preto não é preto, porque isso poderia ofendê-lo, mas eu sou um tarado perverso, um bode velho e devasso, daqueles que só pensam nas mulheres para um fim, e ai de mim que tenha a veleidade de me ofender com tal coisa. Percebo a componente política, mas o que há de correcto nisto?

Mais uma vez, creio que a moral da história é evidente.